20 de janeiro de 2014

Uma Família, Uma Mulher, Um Homem e Dois Paus.

Encontrei um texto interessante na internet, utilizando personagens fictícios para falar de um problema bastante real - a dificuldade de mulheres transgêneras heterossexuais não-operadas de encontrarem o amor de um homem. Ele originalmente estava em inglês neste link, então caso domine a língua, pode ir direto pra lá e se divertir. Para o caso contrário, eu levei algumas horinhas para traduzí-lo disponibilizá-lo abaixo em português. Nos próximos parágrafos eu falo mais sobre a relevância da personagem em si para mim, então se seu interesse for exclusivamente na história, pule direto para a parte em itálico.


Antes de começar, contextualizarei o assunto. É uma história sobre a Poison, escrita no DeviantArt. "Quê?! A mãe de quem?!?!" Pera, deixa eu explicar. A Poison é uma personagem travesti de alguns jogos da Capcom. O DeviantArt é um site focado em dar publicidade à obras artísticas, seja ela uma fotografia, um desenho à mão, um feito no Photoshop, uma poesia ou, como no caso atual, uma história escrita. E antes que você diga que a Poison não é trans, que ela foi transformada por uma polêmica de blá blá que eu já ouvi mil vezes, tira o dedo do cu e vai assistir o vídeo desse post. Nem quero ouvir essa história.

"Você curte surpresas?"
Voltando ao assunto, e aí que entra o DeviantArt. Eu gosto desse site por que ele tem um acervo infinito de enorme variedade. Qualquer assunto que seja razoavelmente popular em algum lugar do planeta, basta jogar a palavra-chave na caixa de busca, e voilá, existem 4826 desenhos, 52 pinturas e 25 discussões filosóficas sobre o assunto. Mas tem uma palavra para a qual eu volto constantemente nessa caixinha, combinando com outras, para buscar. "Poison Street Fighter". "Poison Capcom". "Poison-dêem-uma-porra-dum-sobrenome-pra-ela-pra-que-eu-pare-de-encontrar-resultados-sobre-potes-de-veneno-ou-sobre-a-Poison-Ivy-da-DC". Anyway.

Eu tenho uma pasta só de imagens, das mais diferentes, da Poison. Bom, eu tenho pastas de imagens de vários assuntos diferentes, que eu coleto em horas de ócio na internet, mas a que vem ao caso no momento é a dela. Metade delas é totalmente pornográfica, metade é só sugestiva. Mentira, tem uns 10% de desenhos em situações aleatórias, como uma re-estilização dela com tatuagens, cabelo de cores diferentes e outra roupa. Mas em geral, ela é uma personagem toda centrada na provocação sexual. Minha aposta é que a Capcom adora mexer com a cabeça de marmanjo que fica confuso ao ficar de pau duro vendo uma trans, mas nunca vou saber com certeza.

No entanto, não é por isso que eu tenho essa pasta, até por nunca ter tido fetiche por outras trans não-op. Quer dizer, eu posso me sentir atraída por uma tanto quanto por uma mulher cis, não mais nem menos. Eu fico olhando por que... não sei. Não sei por que. Mas passo horas e horas indo e voltando entre as imagens, por vezes parando em uma e observando os detalhes - e defeitos. Lembre-se, muitas dessas obras são de amadores. Fico observando as proporções corporais, as expressões, os ambientes e personagens desenhados a seu redor, cores, sombreamento... tudo.

Eu acho que isso tem alguma coisa a ver com aquela fase de maturação adolescente na qual muitas pessoas obcecam por um ídolo qualquer sem muito motivo. Ou às vezes até por motivos sabidos, mas que depois de alguns anos a pessoa julga absolutamente ridículos ou desnecessários. O cantor do qual o menino cola cartazes na parede. A lutadora sobre a qual a menina lê todas as reportagens que acha em revistas. Coisa desse tipo. E daí venho aqui contar essa história, caso alguém tenha passado por algo similar e possa me esclarecer, ou esteja tão perdidx quanto eu e possamos beber e afogar nossas mágoas juntxs. Metaforicamente.

Eu sei que a Poison não é exatamente uma role-model, um exemplo de vida. As roupas dela são impraticáveis em qualquer lugar que não seja uma festa de swing, por exemplo. Mas ela tem uma leveza ao transitar pelo mundo, uma despreocupação com o olhar libidinoso dos homens, que eu queria muito ter. Para mim, sair na rua é muitas vezes mais pesado do que prazeroso devido estritamente a esse fato, e por isso acabo sendo tão caseira. Ela também é uma tremenda gostosa, e sabe descer o cacete em qualquer um. Sei lá, talvez ideais superficiais, mas os quais eu objetivo para mim. Sobre o primeiro, não tem mais muito que eu possa fazer. Academia, ok, minhas cirurgias eu já acabei, não vou pôr silicone em mais nenhum outro lugar, então minha estrada acaba aqui. Sobre o segundo, eu tenho que investir nisso, penso sempre no caso. Fiz Taekwondo durante uma época, mas não gostei muito da arte nem da academia específica onde fazia. Esse ano tento outra coisa. Enfim.

A história da qual eu falei vem à seguir. Comentários ao fim do post são bem-vindos. Imagino que muita gente vá se identificar, e talvez alguém queira falar algo sobre. Divirtam-se.

*****

Esse é o Capitão Gamer, super-herói e colunista. Fora do horário útil, ele trabalha em um restaurante cinco estrelas chamado Palácio dos Pixels, substituindo o bartender Dominic quando necessário. Lá o Capitão pode se encontrar com seus antigos amigos de videogame quando eles vêm tomar uns drinques. Algumas vezes eles compartilham histórias e até segredos. Por que como todos sabemos, o que um bartender ouve é segredo, certo?

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Então lá estou eu cuidando do bar quando entra uma uma das figurinhas marcadas mais controversas do Palácio dos Pixels: Poison, de fama Capcom. Na verdade, a Poison como pessoa não é tão controversa. Ela é na verdade muito bom caráter. Um pouco inclinada à paquera, ao eventual comentário libidinoso, um pouco sugestiva. Mas quer saber, ela é a alma da festa onde quer que vá e todo mundo a adora. Ótima companhia. Afinal, ela é empresária do Hugo, aquele gigantesco lutador profissional. Fazer amizades e contatos está no sangue dela.

O que eu quero dizer por “controversa” é, obviamente, a questão de seu sexo físico. Se você não é grande fã da internet, o negócio é o seguinte: Poison apareceu pela primeira vez como um inimigo em Final Fight. Dizem que ela foi transformada de mulher cis para travesti a fim de evitar que o jogo envolvesse bater em mulheres, como se uma coisa fosse mais ou menos aceitável do que a outra. Agora parece que Capcom não sabe se volta atrás ou assume que tem uma personagem transexual – eu não sei e não dou a mínima. Primeiro, o Palácio não discrimina. Segundo, eu não discrimino. Terceiro, dê uma boa olhada nela e me diga como “mulher” NÃO descreve o que você vê.

De qualquer forma, aqui estamos. Poison vem para o bar e claramente está aqui para beber. Estava numa hora cheia, então eu cumprimento ela, sirvo sua bebida e continuo trabalhando. Quando as coisas se acalmaram finalmente consigo falar com ela direito. Mas a essa altura não dava pra contar em uma mão a quantidade de drinques que ela havia tomado. Ou mesmo em duas, pensando bem. Normalmente ela está aqui para comemorar algum grande sucesso em seus negócios, mas a cara fechada já me dizia outra coisa. Então eu tento uma aproximação sutil: “Ou você está bebendo tanto para comemorar algo ou esquecer algo”. Muito esperto, eu sei.

E aí, imediatamente temo pela minha vida quando ela lança um daqueles olhares violentos de “vai cuidar da sua vida”. Eu estava encarando a morte de frente, mas lembrei de meus ensinamentos e continuei sério. Felizmente, seu olhar suaviza. Ela simplesmente olha para seu copo e diz, “Eu sou tipo a personagem de videogame mais gostosa que existe, certo?”

Eu respondo simplesmente com um “Mhm”, por que aprendi algumas coisas sobre ouvir pessoas com o passar do tempo. Ela se joga no assunto, dizendo:

“É verdade, eu amo isso. Amo estar linda, me mostrar para as pessoas... porra, eu até gosto quando as pessoas têm pensamentos sujos comigo por que significa que estou fazendo alguma coisa certa.” E ela tem razão. Pelo que eu já vi, ela só age do jeito que age por ser dessa forma que ela gosta. Mas eu não disse nada disso, claro. Ela ainda está falando tudo retoricamente. Finalmente chegamos no X da questão quando ela diz “Por que é tão difícil encontrar amor?”

Uma das perguntas mais antigas existentes. “Umm”, eu falo na hora, tentando, sabe, completar o pensamento, “Ninguém realmente espera que você queira esse tipo de compromisso?”

Ela levanta a sobrancelha pra mim e diz, “É mais o fato de estarem assustados com o que acham que vão encontrar quando eu tirar as calças. Não que eu seja fácil.” Estou conversando com ela e ao mesmo tempo tentando entender o que ela está dizendo. Ela está admitindo ser trans ou é só uma alusão às fofocas? Bom, não vem ao caso. Nunca vou esquecer aquele olhar cansado, desafiador de quando ela deu um gole daquela garrafa. Ainda mais por que ela tinha acabado de pegá-la atrás de trás do bar sem ter pago. Mas ela continua sua história para me distrair.

“É engraçado.” ela diz, “não importa quão famoso você seja, rico, bem-sucedido, amado por todos, não importa. Ter todas essas coisas só te faz desejar ainda mais os pequenos prazeres. Afeição, um tipo especial de companhia, uma pessoa que realmente te entende e te faz feliz pelo simples fato de te entender.”

Há uma expressão para isso, que eu uso bem nesse momento, “Alma-gêmea”?

Minha escolha de palavras deve ter sido incrivelmente habilidosa, pois a Poison realmente fica quieta um momento para processá-la. Ou isso, ou ela está tentando se manter coerente.

Ela diz, “Sim, é isso. Daí eu mandei o Hugo tirar umas férias e comecei a tentar namorar. Eu comecei procurando personagens de videogame. Faz sentido. Mas era sempre a mesma história, assim que o assunto chegava no que eu tenho entre as pernas, quase nenhum daqueles bestas conseguia lidar com o assunto. A única vez que cheguei perto disso foi quando fui até Pandora e conheci um caçador de tesouros chamado Axton. Ele estava de boa com isso.”

“Estava?” Eu continuo, sem duplo sentido. “Parece perfeito pra você. O que aconteceu?”

E eu não podia ter pedido por uma resposta mais direta. “Ele era um idiota. Um idiota mente-aberta, mas isso não é desculpa. E ela tinha uma tendência a resolver todos os problemas atirando nas pessoas. Sou super a favor de ser assertiva, mas isso é um pouco demais.”

Mais uma vez eu tinha que pensar no que ela estava dizendo. Eu realmente não tinha como me importar menos com seu sexo, mas estava ficando muito confuso se ela estava falando de ser trans ou das fofocas. Voltando ao assunto, do jeito que ela falou de Axton, não parece ter sido o suficiente para fazê-la beber. Esse é o tipo de coisa que se aprende quando trabalha nesse ramo. Então eu perguntei, “E o que a trouxe aqui?”

Ela chega a evitar me olhar nos olhos. Lembre-se que estamos falando da Poison sendo tímida. O que diabos poderia ser, né? Como se tivesse arrancando um curativo, ela diz, “Eu tentei ser normal.”
Você deve estar se perguntando a mesma coisa que eu estava, “Normal? O que você quer dizer com normal?” Eu provavelmente a apressei, mas eu gosto de pensar que a encorajei. Mas é aqui que as coisas ficam realmente interessantes. Ela tenta falar tudo baixinho, mas sabe como é, álcool. Ela me diz:

“Eu estava pensando nas minhas opções – e não me corrija dizendo que eu me desesperei ou eu furo você.” Sim, furo. Ela fala desse jeito. “Eu decidi que se não estava dando certo com personagens de jogos, eu iria dar uma chance para uma pessoal normal por aí. Daí eu criei um perfil em um site de encontros, tirei a tintura do cabelo, comprei umas roupas modestas, e fui tentar.”

Ela tira o celular do bolso e me mostra essa Poison “normal”. E ela realmente parecia normal! Você nunca ia pensar que é a mesma mulher. Ainda atraente, em minha humilde opinião de bartender. Quase deu pra ver o nome verdadeiro dela no perfil. Me sentindo obrigado a me expressar, disse a ela depois do choque inicial, “Isso é bem diferente para você”.

Ela gostou da minha reação, deu pra perceber. Estava bem orgulhosa de seu look “normal”.

Ela guarda o telefone e continua, “Eu acabei encontrando um rapaz do site. John. Um contabilista. Gosta de futebol americano, mas joga golfe. Tem casa própria. Eu sei que parece bem tedioso comparando com um personagem de jogo, mas era o tipo de coisa que eu queria tentar.”

Eu vi que só de falar do assunto ela já foi ficando animada, então tive que perguntar, “E como foi?”
Ela deu um suspiro melancólico. E quando alguém como a Poison faz isso, é um forte sinal. Ela me conta, “Foi bem... legal. Básico e simples, mas isso só fez tudo ser mais importante, sabe? Mas também foi estressante por eu também ter que contar pra ele sobre – você sabe, mim – em alguma altura. A gente já tinha tido alguns encontros, já conhecíamos bem um ao outro. Daí eu disse que eu tinha um segredo que podia espantar ele.”

Para deixar clara a sua sorte eu digo, “Vários encontros sem segundas intenções, continuando com um segredo escondido? Esse cara é um santo.”

Percebo logo de cara que dizer isso foi um erro, e ela explica. “Pois é, eu realmente coloquei isso à prova. Disse logo que ia lhe contar o segredo e que se preparasse para o pior. No final da noite, eu falei na cara. ‘John... eu sou transexual.’”
Cody, pelo qual a coitada da Poison era
apaixonada, mas que gostava de outra menina.

Ah! Bom. Okay! Agora eu sei! Quer dizer, eu não tinha nenhuma prova física, mas se ela falou isso para o rapaz, não é algo que se mentiria. Ela ainda estava falando sobre sua confissão, mas eu ainda fiquei um momento saboreando a descoberta. Pelo menos agora eu entendia melhor a situação. Infelizmente, ela terminou a história com um “Eu nunca mais vi ele depois desse dia”, e isso me trouxe de volta à realidade.
“Ah”, eu disse a ela, de forma bem sincera, “Que pena que não deu certo.” Olhando em retrospecto, eu me apressei à conclusões várias vezes naquela noite.

Poison me corta, dizendo “Não, não. Ia dar certo. Ele me ligou mais tarde e disse que queria continuar a me ver. Eu nunca mais o vi por que na manhã seguinte ele foi atropelado por um ônibus.”

Eu fiquei lá travado e ela simplesmente dá de ombros. Obviamente ela teve tempo para superar a história, e demonstrar se importar menos deve ajudar à lidar, mas cacete! A gente está falando da morte de um homem! “Sinto muito pela sua perda”, eu a digo. E a coisa piora. A gente volta para o celular dela e, aparentemente, John a deixou uma mensagem em seus últimos momentos. Depois de chamar uma ambulância, claro.

A gente assiste à mensagem, e na verdade é tudo uma emocionante despedida. Ele a contou que sim, a verdade sobre ela o pegou de surpresa. Mas ela não mentiu sobre o assunto, e isso era tudo que ele precisava saber. O que ela era não determinava quem ela era, e era por isso que ele escolheu ficar. Se ele sobrevivesse, estaria ansioso para vê-la novamente. Essa é a parte mais triste. E sim... ele disse tudo isso enquanto deitado na rua, sangrando, esperando por uma ambulância. Foi comovente e... difícil de assistir, ao mesmo tempo.
“É isso aí”, Poison diz, indo direto do celular pra garrafa, “a única chance que eu tinha, desaparecendo bem na frente dos meus olhos.”

Nessa altura, eu já tinha ouvido tudo sobre as dificuldades que ela tinha e sobre suas tentativas. Mas essa era a primeira vez que eu ouvia um tom derrotista, e eu não ia aceitar isso. “Pera aí. A gente acabou de assistir esse homem pôr tudo pra fora – má escolha de palavras. Ele deu uma tropeçada, compreensivelmente. Mas assim que processou tudo, não teve dúvidas. E se esse homem, se essa “pessoa normal”, como você diz, pode gostar de você por quem e o quê você é, quer dizer que isso pode acontecer de novo. Aposto que foi por isso que ele se entregou tanto nesse vídeo. Ele viu quão insegura você estava com a situação toda e queria te fazer sentir melhor. Eu não o conhecia – infelizmente – mas eu o apoio nessa mensagem.”

Eu a deixei divagar, seu olhar perdido em seu drinque. Dava para ver que ela precisava. Eu conheço essa sensação de se agarrar a emoções negativas, achando que é tudo que restou depois que algo ruim acontece. Mas esperei até ver de novo aquele sorriso. Tudo ia ficar bem. Fico tentando lembrar o que ela disse logo depois disso, mas foi algo do tipo, “Eu tenho sorte, olhando por um lado. Eu vou saber que encontrei um cara realmente especial se ele aceitar a ideia de uma mulher ter um pênis.” Confesso que não estava preparado pra esse comentário. Simplesmente por não ser algo que se ouve todo dia, claro.

Agora, eu não tinha mencionado nada por que não fazia diferença até esse ponto da história, mas numa mesa próxima ao bar, um grupo de soldados espaciais estavam fazendo sua noite de bebedeira. Não vou citar nomes. Eles pescaram a conversa da Poison comigo e, infelizmente, acharam tudo engraçado. Estavam dando risadas e fazíamos o melhor que podíamos para ignorá-los. Mas quando a Poison mencionou o, bom, “pênis feminino”, eles não aguentaram.

“Isso não existe!”, um deles gritou. Se eu não estivesse trabalhando, tinha discutido de verdade com ele. Mas naquele momento eu representava o Palácio dos Pixels, e tive que me acalmar antes de dizer para aqueles caras que essa era uma conversa privativa.

Poison, no entanto, não tinha a mesma obrigação. “Ah eh?!” Ela disse, em sua visível embriaguez. “Do que você chama isso?” e... tira o short. Os soldados começam a gritar e a cobrir os olhos, e os outros clientes ficam incomodados.
Ops, caiu.

Pensando rápido, eu pulo por cima do balcão, pego meu avental, jogo por cima dela, e ponho-a sentada de volta no banco do balcão. Tudo fica calmo pelo resto da noite. Ainda bem. E apesar de ter feito tudo que podia para, ahem, respeitar a privacidade da Poison, eu acabei dando uma olhada lá embaixo. Vou dizer logo: ela realmente sabe esconder bem o negócio.

Infelizmente, tive que relatar o incidente. Independente de simpatizar com ela, a questão de uma possível penalidade por sua conduta não é minha decisão.

Sabe, ter estado lá aquela noite realmente me fez pensar. Me fez pensar em como o mundo está constantemente mudando e evoluindo. Em como a gente pode achar que realmente entendeu tudo que há para entender sobre um assunto por toda a eternidade e de repente, em um piscar de olhos, a coisa é diferente. Plutão não é mais um planeta, “selfie” é uma palavra definida no dicionário, e uma mulher pode ter genitais masculinos. Aquele soldado, apesar de eu não gostar nada do seu tom de voz, trouxe à tona a questão de que há características bem definidas de homens e mulher, mas isso é na concepção dele. Tá certo, é a concepção da maioria das pessoas, mas daí vem a Poison com sua própria definição de gênero sem titubear por um momento sequer.

Isso realmente mostra que qualquer definição – mesmo as estritamente científicas – pode ser questionada e alterada se houver uma base sólida para tanto. Procuramos soluções para os problemas do mundo em leis e formalidades, mas acaba sendo responsabilidade daqueles que estão à margem, mostrar que não são uma ameaça para que as outras pessoas possam mudas suas concepções junto com eles. Poison estava indo muito bem... até o ponto em que a raiva e o álcool atrapalharam.

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A gente vê muita coisa estranha trabalhando de bartender. A gente vê muita coisa estranha no Palácio dos Pixels. Então a gente vê muita coisa estranha trabalhando de bartender no Palácio dos Pixels. Não é mentira, juro de pé junto.

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Eu tenho pena das meninas trans hetero, sério. A mentalidade masculina normalmente é totalmente retardada, principalmente quando estamos falando de sexo e relações amorosas. O que eu já recebi de mensagem pornográfica ou babona ridícula, no Facebook e no e-mail, não tá no gibi. Mas até aí, dane-se. Eu apago todas e volto pra cama com minha noiva, a vida continua. Mas a mulher que tem que filtrar isso para achar alguém minimamente decente que a assuma como parceira pra todo mundo? Há. É de rir pra não chorar.

Mayra Viamonte