30 de setembro de 2013

Ao Fim do Arco-Íris

- Mayra

Venho hoje trazer o relato de uma menina trans muito especial que recentemente realizou a CRS em Bangkok. Acho especialmente pertinente para aquelas que querem realizar a cirurgia, mas mesmo a mim foi emocionante e bonito.

Beijos



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Vim pro hotel há mais de uma semana. Porém ainda não posso ficar sentada nem em pé por muito tempo, dói e não é recomendado... Mas estou com o corpo totalmente diferente! 350 ml a mais nos seios e uma vagina que já está bonitinha, mesmo que sua aparência ainda esteja longe da definitiva... Ela ainda vai desinchar os pequenos lábios, o que vai me permitir abri-los e ter um acesso mais fácil ao clítoris... Retirei alguns pontos, os outros são solúveis e sairão com o tempo, o que vai levar uns dois meses... 
Tenho uma complexa rotina de dilatações e cuidados. É complexo e prematuro falar de satisfação, pois de um lado estou radiante ao me ver no espelho gostosona, mas sinto muita dor. Foi muito violento fazer as duas cirurgias ao mesmo tempo, tenho que tomar muitos remédios e conviver com dores bem fortes. A técnica usada nos implantes é diferente, entraram por uma incisão nas axilas, então não tenho cicatrizes aparentes e não preciso de sutiãs especiais. Porém, é preciso fazer muitas massagens e as tailandesas não têm a menor dó, massageiam com toda força com se tivessem sovando massa de pão! Cara, é de chorar de tanta dor!
Agora está ficando melhor, dói menos e os seios estão amolecendo já até encostam um no outro, ah como estou ansiosa pra fazer minha primeira espanhola... kkkk Bem, vou ter que esperar, pois não posso sequer pensar em sexo por dois meses, pois dói. E dói muito! Uma noite tive um sonho com um cara imaginário gostoso me chupando e acordei com um grito de dor. Meu cérebro terá que aprender a não mandar mais um fluxo sanguíneo ali embaixo. É bizarro, no início eu sentia minhas partes como eram antes, agora minha mente reorganizou tudo, é muito louco! Sinto uns choques elétricos no clítoris e nos pequenos lábios, são os nervos se reconectando, é uma sensação bizarra. A partir do segundo mês começarei a poder explorar as sensações e descobrir os prazeres, mas até lá devo evitar ao máximo pensar no tema, ser uma santinha... santinha do pau oco! kkkkkkkkkkkkk  
Agora, as dilatações são foda, tenho que estar muito relaxada, senão não entra! Preciso manter sempre a mesma profundidade custe o que custar e ficar meia hora com o treco lá dentro... Por enquanto duas vezes ao dia, a partir de amanhã serão três usando dois tamanhos diferentes de dilatadores, isso durante três meses, depois duas vezes ao dia até o sexto mês, e finalmente uma vez ao dia até o primeiro ano! após o primeiro ano, uma vez por semana se não tiver uma parceiro pra me ajudar... isso pro resto da vida! Complexo. Porém, o dr Suporn é tão bom, que tenho uma vagina perfeita, que enganará até ginecologistas! Há muitos casos de pessoas que foram consultar ginecologistas e eles não perceberam que era uma vagina "feita a mão" made in Thailand... kkkkk. Agora, tenho que ter muita paciência, foi uma mudança muito maior do que imaginava, tudo muda, toda relação que temos com nosso corpo com o mundo, é incrível, não tenho como descrever, mas desde andar, sentar, se mover, tudo é diferente. Ainda vai demorar até que eu possa sentar normalmente sem a almofada especial que eles me deram, enfim, serão ainda meses de provação.  
Não está sendo fácil, as dores são terríveis às vezes, tenho que conviver com elas e aprender a controlar e relaxar meu corpo para superá-las. Fico a maior parte do tempo deitada, pois não aguento ficar muito tempo em pé nem sentada. Mas o que considero mais importante é que finalmente me sinto humana, tenho minha dignidade apesar das dores e dificuldades. Sempre me senti um monstro, uma criatura. Esse sentimento me acompanhou desde a infância, eu realmente tinha certeza de que não era um ser humano! Agora, me vejo no espelho e é como se sempre fosse assim, sou apenas uma mulher. Não que eu não fosse antes, sim eu era, mas ainda carregava um ranço dessa fantasia infantil. Precisava me ver, me sentir sem aquilo entre as pernas.