Perguntas Frequentes

Reúno aqui as respostas às duvidas mais comuns direcionadas a mim desde que comecei a escrever esse blog.

  • Cirurgia Facial. O que é? Porque fazer? Como fazer?

A cirurgia na verdade é um conjunto de procedimentos que visa eliminar os traços comumente causados pelo testosterona na puberdade de um corpo geneticamente masculino, para adequá-lo aos padrões normalmente associados aos das mulheres. As possibilidades são inúmeras: remodelagem do queixo, do nariz, raspagem do Pomo de Adão, da testa, aumento dos lábios, das bochechas, e mais.

O objetivo da maioria das pessoas que se submetem a esse procedimento é fazer a transição de uma aparência masculina para uma aparência feminina, e ser reconhecida como mulher por aqueles com quem se interage, além da busca pela maior satisfação com relação à sua aparência.

Os detalhes do procedimento que eu realizei, incluindo preços, estão neste documento. Aqui podem ser vistas algumas fotos tiradas uma ou duas horas depois da operação e aqui algumas fotos comparativas entre meu rosto antes da cirurgia e como ele ficou três meses depois.

A recuperação é curta e simples. Caso você opere o queixo, ficará alguns dias sem poder comer direito. Caso opere o nariz, uma semana sem poder respirar por ele e umas duas ou três semanas com manchas de cores variadas no rosto, roxo, amarelo e verde. No caso da testa, exige-se um cuidado maior para lavar o cabelo sem fazer força em cima da cicatriz, e no caso do Pomo... bom, fica um pouco difícil de engolir nos primeiros dias, nada demais. Não senti dor nenhuma, e após sete dias já havia retirado os curativos. Após um mês, voltado a malhar.

Considero a mudança na minha aparência bastante drástica, e sei que sem isso teria enorme dificuldade - senão impossibilidade - de ser aceita socialmente como mulher.

  • Mamas. Naturais ou implantadas?

Tentei esperar as mamas crescerem somente com o uso dos hormônios durante mais de 12 meses, mas o resultado foi pífio, insuficiente. O tamanho natural da minha caixa torácica pode não ser dos maiores, mas a minha potência muscular é incomum tanto nas trans quanto nas cismulheres, então eu precisaria de mamas no mínimo um pouco grandes para se tornarem proporcionais ao meu tamanho.

Este post mostra o tamanho máximo que elas atingiram naturalmente após um ano de HRT. Eu fiz um implante submuscular parcial de próteses de 375ml, texturizadas de perfil superalto e formato redondo da Eurosilicone, tecnicamente detalhadas neste documento. Sim, meu nome social está escrito incorretamente, isso acontece muito comigo. Enfim, a operação foi orçada desta forma.

Considerei o tamanho final bastante proporcional, e a projeção suficiente e confortável. Há uma pequena assimetria vertical - minha prótese esquerda se localiza alguns centímetros abaixo da direita - mas eu ainda não sei se irei retornar somente para levantá-la ou se irei preferir um aumento de ambas as mamas, caso no qual a ocasião provável seria de abaixar a direita.

Psicologicamente posso dizer que a efetuação deste procedimento teve um impacto amplo e positivo. Em posts pela época de janeiro a março de 2013, é possível acompanhar a evolução da minha opinião sobre essa mudança no meu corpo. Apesar das consequências a longo prazo serem pouco previsíveis, uma mudança importante que detectei foi minha disponibilidade para considerar um relacionamento com um homem. Enquanto durante muito tempo eu me via insuficientemente feminina para me colocar no pólo feminino de uma relação, não acho que esse seja mais o caso. Me vejo agora completa. Completamente bonita e completamente mulher. Só o tempo dirá o que isso trará para minha história.

  • Hormonização. Como começar? Como fazer? Quanto custa? O que você toma?

Para iniciar o procedimento no Brasil, há três possibilidades. A primeira é se inscrever no programa de assistência do SUS para transsexuais. Nesse caso, haverá algumas consultas com um psicólogo ou psiquiatra antes que ele formule um documento que, encaminhado a um endocrinologista, o permitirá lhe indicar e lhe fornecer gratuitamente os hormônios necessários. A vantagem principal deste método é a total gratuidade do tratamento. As desvantagens são a falta de vagas no sistema, a demora para o início e a continuação do tratamento e o ambiente onde tudo é realizado.

A segunda opção é procurar um psicólogo, psiquiatra ou psicanalista que seja pago de forma privada ou pelo seu plano de saúde, e depois um endocrinologista da mesma forma. Normalmente, profissionais que tenham conhecimento sobre a transsexualidade são difíceis de serem encontrados e cobram caro por suas consultas, mas a velocidade do procedimento está mais sob o controle do paciente do que no caso do serviço publico.

A terceira opção é a auto-medicação  Ela é mais barata que a busca por profissionais privados, mais rápida que a busca por profissionais públicos e não lhe obriga a frequentar hospitais do SUS. Por outro lado, sem acompanhamento médico, os riscos são mais elevados. Recomendo que pelo menos seja realizado um exame de sangue a cada três meses para ter certeza que seus níveis hormonais - e de outros tipos - não estejam exageradamente fora do padrão.

Eu realizo a auto-medicação. Não tenho paciência para esperar a lentidão da nossa saúde publica nem, honestamente, confio na formação de seus profissionais. Estive no HUPE uma unica vez - e na Central do Brasil mais uma, na secretaria de sabe-deus-o-que que "auxilia" transsexuais - e não pretendo voltar em nenhum dos dois lugares. Já variei bastante as quantidades, e a dieta inicial que recomendo é a seguinte:

A cada 12 horas:

50 mg de Espironolactona (oral)
1 mg de Finasterida (oral)
2 mg de Natifa (sublingual)

Sim, eu já ouvi falar do Perlutan. Sim, eu sei que boa parte das trans toma ele. Não, eu não faço a menor ideia do porquê, nem tomaria. Primeiro por não ter a menor formação acadêmica para me injetar um negócio  direto no corpo. Segundo por quê, na minha opinião, ele funciona de forma anti-natural. Uma entrada de altas quantidades de hormônio uma vez a cada 7, 15, ou 30 dias? Não é assim que o corpo genético feminino funciona, ele produz um pouco todo dia. Além disso, a forma de estradiol que existe no Natifa - e no Estrofem, que não é mais vendido no Brasil - é quimicamente muito mais próxima ao estrogênio natural do que a forma encontrada no Perlutan.

Para as compras por preços baixos e com delivery, recomendo um desses dois sites:

  • Voz. Como mudar? Como você mudou a sua?

Três opções. Cirurgia, fonoaudiólogo ou autodidatismo.

A cirurgia é cara e eu não conheço profissionais brasileiros, então requer viagem, passaporte e todos os problemas de uma ida a outro pais. Há também alta probabilidade de precisar de uma segunda ou terceira intervenção para deixar a voz no timbre desejado. E é permanente, o que pode ser um ponto positivo ou negativo para você.

A terapia fonoaudiológica é demorada e um pouco cara, mas pode ter resultados excelentes sem por sua saúde em risco caso você seja acompanhada por um profissional capacitado. O único motivo pelo qual nunca segui esse caminho é realmente a priorização de outras necessidades que necessitam de gastos financeiros.

O autodidatismo é a opção mais demorada e você pode não atingir o resultado desejado, mas a vantagem é ser de graça. Há uma infinitude de videos com exercícios e práticas no YouTube, e os fóruns da Susan's Place tem discussões intermináveis sobre o assunto. Foi através dele que alterei a minha.

Em São Paulo, no Ambulatório para Saúde Integral de Travestis e Transexuais, é realizado um trabalho de feminização vocal sem cirurgias. Eu falo dele neste post.

  • NamoradA? Você fez a transição pra que se gosta de mulheres?

Pelo mesmo motivo que aquele seu amigo gay não quer se apresentar como mulher, e aquela sua prima lésbica não quer ter o nome de um homem: porque identidade de gênero e orientação sexual são duas coisas desligadas.

Uma explicação ao mesmo tempo simples mas simplória é a seguinte: orientação sexual define quem você quer levar para a cama. Identidade de gênero define quem você quer que seu parceiro ou sua parceira veja na cama. Digo simplório porque há, por exemplo, transgêneros sem vida sexual, então a explicação se tornaria de difícil compreensão. A questão principal é: apesar de querer ser vista como mulher, eu quero ser vista dessa forma por uma mulher.

"Esse trabalho todo pra nada, era mais fácil aceitar quem você é quando nasceu." Já ouvi isso. Não, esse trabalho todo para ser feliz. Afinal, bunda eu já tinha pra dar, e com certeza atraia muitos olhares masculinos antes da transição, então não faz o menor sentido transicionar 'para ficar com homens', você transiciona para ser vista e tratada como sempre desejou.

Imagine se vestir todo dia como o Bozo para sair de casa e as pessoas lhe cumprimentarem sempre com um "bom dia, filho da puta", ou "bem vindo, seu corno". Mais ou menos assim que uma transmulher se sente todo dia saindo de casa com roupas masculinas e sendo chamada de "senhor". Todo. Santo. Dia.