3 de abril de 2012

Já Dentro da Toca do Coelho, ou, Cirurgia Realizada

Bom, está feito. Dez anos de espera, cinco meses de planejamento, e acabou o trabalho - esse trabalho, pelo menos. Quinta feira dia 28 realizei minha cirurgia de feminização facial, hoje ainda estou de recuperação na casa de um tio em São Paulo esperando quinta para poder tirar os pontos e voltar ao Rio sexta dia 6. Páscoa. Renascimento. Sem brincadeira...


"Quando o ser humano enfrenta sua própria morte,
ele não considera o impossível uma barreira tão grande."
- Príncipe da Pérsia


Não sei ainda como ficarão os resultados. O rosto permanece inxado, metade manchado de roxo, metade de amarelo, sem poder lavar desde antes do procedimento e com faixas cobrindo metade da área, mantendo tudo colado até a pele poder fazer esse trabalho sozinha.

Estou ansiosa. Ansiosa para saber como ficou, para saber minhas chances de "passar" como mulher, saber o que esse dinheiro pode comprar na mão de uma boa equipe cirúrgica. Engraçado: pelo menos nesse exato momento, a coisa mais básica do mundo que são as formas do meu rosto vale mais que todos os bens materiais que recebi de parentes toda a minha vida, incluindo os móveis do meu quarto, meu supercomputador, meus celulares todos, minhas roupas...

A sensação é simultâneamente de esperança e apreensão. Esperança porque, afinal, são médicos de excelente reputação. Apreensão porque é psicologicamente desafiador olhar no espelho e não se reconhecer. Você vê um rosto, sabe que seu campo de visão só pode estar partindo daqueles olhos à sua frente, mas algo no íntimo do seu subconsciente recusa-se a acreditar que aquela seja você, que aquilo seja seu. Que você está ocupando aquele lugar físico no espaço. "Engano meu", seu cérebro cisma em racionalizar, "aquela é uma amiga que eu conhecí a pouco." Não, não é. Shakespear explica. Há mais coisas no céu e na terra do que crê vossa vã filosofia. Aliáis, essa é uma frase muito boa como eixo de vida, saber que não importa quanto conhecimento e experiência se tenha adquirido, o total acumulado não é, nem poderia ser, nem uma migalha de todo o conhecimento que há para se descobrir.

E a recuperação, como é? Longa e complicada. Logo depois da cirurgia tenho vagas lembranças de esperar alguém me pegar na sala de preparação. Esperavam minha anestesia se desfazer, estou certa. Depois, um dia e meio em um estado de semi-pesadelo, precisando ser alimentada na boca e de ajuda para ir ao banheiro. Isso depois de ter a sonda retirada do pênis e vomitar MUITO sangue. Eu me sentí uma vampira iniciante dessas séries de meio-intelecto para pré-adolescentes. Depois, vindo para casa, mais conforto e facilidade, mas ainda muito poucos movimentos faciais. Não pude nem beijar minha menina direito antes de ela voltar pro Rio, e isso me deixou bastante frustrada. De lá pra cá, mais fácil. Já posso sorrir, comer macarrão, ovo... até carne, se partida em pedaços bem pequenos. E enquanto isso preparo um vídeo para mandar para o YouTube e postar aqui, depois de tudo terminado.

Falta pouco agora. E depois desses dias, na verdade, minha maior dificuldade atual é um tédio massacrante. Sem minha conexão de casa, sem meu pc, sem poder sair na rua, o dia inteiro dentro do ap... bom, "problemas de primeiro mundo", diriam alguns sites de piada pela internet. Tem gente que não tem casa para ficar entediada dentro. E quantas tem dinheiro para realizar o maior sonho de suas vidas aos 23 anos?

Beijos