29 de junho de 2014

Trans.formada

Já parou pra pensar que curiosa que é a entrada para uma faculdade? Veja, em muitas escolas do Brasil e do mundo, você precisa pedir para sair da sala e ir ao banheiro até o final do terceiro ano do ensino médio, mas ao mesmo tempo você tem que ter se inscrito, estar estudando para, e estar realizando provas que teoricamente decidiriam todo o seu futuro profissional. Obviamente, essa é só uma das coisas que não fazem o menor sentido no mundo, mas ao mesmo tempo, essa reflexão também não faz sentido aqui. A postagem trata na verdade da minha graduação superior e do meu caminho profissional atual.


Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estácio de Sá. Esse é meu título agora. Dizer que ele não significa nada seria hipócrita e pessimista, mas a importância dele é bem diferente do que se propagandeia, principalmente a pessoas que ainda vão escolher seu curso superior. Além disso, o evento da formatura em si teve um significado específico a mim, mas isso vem um pouco mais à frente.

O Mundo das Idéias de Pastelão

Enquanto eu estava na escola, a única matéria que eu tinha gostado de verdade havia sido Filosofia, a qual eu só tive durante o segundo ano do ensino médio. O professor, coitado, mal conseguia prender a atenção da turma, mas esse era um problema só marginalmente maior para ele. Pouquíssima gente dá valor às aulas durante a infância, sendo o motivo do qual possuidor de uma perna na falta da cultura do intelecto no Brasil e a outra no método entediante e ineficiente com o qual se dá essas aulas em primeiro lugar. Mas eu divago. Eu gostava da aula, e gostava de refletir e discutir sobre questões comportamentais, existenciais e sociais como um todo, tendo esse como um dos poucos tópicos de interesse nas raras conversas das quais eu participava. Pensei em transformar isso em uma profissão, mantendo em mente que eu preciso realmente gostar, em algum nível, daquilo que faço, para o trabalho ter um mínimo da minha atenção e consequente qualidade.

Naquela época, vestibular era feito separadamente para cada faculdade, e tinha uma questão de colocar duas ou três opções de curso para as quais a nota da sua prova contaria. Isso foi antes do ENEM servir de vestibular nacional. Falhei na primeira tentativa, e coloquei Filosofia e Psicologia na segunda, após passar um ano em um curso preparatório. A ideia era que os dois cursos, na UERJ, faziam parte do mesmo grupo, e a instituição aceitava transferências intragrupo. Eu queria mesmo Psico, mas Filo tinha uma nota de corte mais baixa, então a ideia era entrar por ela e depois... né. Bom. Acabei gostando do curso e ficando nele.

Era muita coisa pra ler, de verdade. Em Filosofia não se calcula o valor de "x" na equafoda-se de segundo grau, não se monta fórmula do ácido bucetírico, não se pendura uma caixa em um plano inclinado preso em três roldanas e amarrada na calcinha da sua mãe, nada disso. Todas essas coisas haviam ficado para trás. Em Filosofia, você só faz escutar, ler, refletir, escrever e falar. Ponto. E isso obviamente trabalha bastante interpretação textual, articulação escrita e verbal e introspecção. Esse foi o significado mais forte dos 2 anos que passei lá. Lá pelo quarto semestre, no entanto, a realidade começou a bater à porta: primeiro, a única coisa que você pode fazer como fonte de renda saindo daquele curso é dar aula naquele curso, e a última coisa que eu queria na época era ser professora; segundo, estudante e professor de filosofia tem um complexo de megalomaluco insuportável, e enquanto eu queria aprender aquilo e usar como ferramenta social e influenciar o mundo positivamente de alguma forma, todos ao meu redor pareciam ver a matéria como um fim em si mesmo. Desculpa, bicho, mas isso não tem nenhum benefício, e eu já me achava inútil o suficiente, obrigada. O resultado foi que eu decidi finalmente me informar sobre transferência para psicologia, e aquela bostírica era uma exceção à regra de transferência e não aceitava ninguém de outro curso. Motivo? A nota de corte de Filosofia era muito mais baixa e todo mundo fazia isso.

Pois é.
Daí eu já sabia que a única coisa pela qual eu tinha gosto não ia se tornar meu ganha pão, então opção B: transformar meu lazer em profissão. Como a maior parte do meu tempo livre sempre foi e ainda é gasto com jogos de computador, Engenharia Eletrônica, certo? Fato? Acabei nunca descobrindo. Até fui ao Campus Centro IV da Estácio no final de 2008 e me inscrevi, mas na hora de ir embora passei pela passarela a qual teria que atravessar todo dia para voltar para casa. Sabe aquela brincadeira ridícula do Faustão da Ponte do Rio Que Cai? Eu preferiria participar daquela merda todo dia do que passar por aquilo, e jurei pelos testículos avantajados do Capeta que nunca mais iria pra lá. E aquele era o único Campus viável com aquele curso. Então? Opção C.

Relações Intersexuais

Procurei o curso que tinha a maior quantidade de matérias que eu suportava. Sim, foi por isso que fui pra Relações Internacionais. Não tendo mais o que eu gostava, iria passar pelo que parecia menos... não... detestável. Sensanionível. História, geografia, economia, diplomacia, direito, o curso tem um pouco de tudo que eu acho pelo menos razoavelmente interessante. Ajudava também o fato de que eu estava morando em Copacabana e o Campus de RI era lá, a exatos dois quarteirões da minha casa. E lá fui eu começar essa bagaça em 2009.

Primeiro, evidenciemos o fato mais relevante: A Estácio. É. Uma. Merda. Há um motivo pelo qual o meu curso quase teve a licença revogada pelo MEC devido à nota baixa na prova de 2010 do ENADE. Os professores, em geral, são horríveis. Nós tínhamos a "risadinha", que era uma senhora que ria das próprias piadas totalmente sem graça, enquanto não conseguia elevar a voz acima de um sussurro para nos prender a atenção. Tinha um infeliz que dava aulas de Teoria Econômica, e passava mais tempo tecendo reclamações contra o Brasil em um ritmo bem classe-média-sofre, do que realmente ensinando alguma coisa. Tinha uma que era a COORDENADORA DA PEMBA DO CURSO, que só tinha uma entonação de voz capaz de quebrar o recorde mundial de menor tempo necessário para por qualquer infeliz para dormir. Tinha a Etiene e seu marido, ambos que mandavam a gente estudar mais de 300 páginas para perguntar os detalhes mais obscuros e irrelevantes em uma prova de mais de 20 questões. Por fim, e pulando algumas outras figuras memoráveis mas pouco diferentes das previamente citadas, tinha o campeão de incompetência: Emir sabe-deus-o-que, um Bósnio infeliz que, além de uma pronúncia do português totalmente ininteligível, o que deveria ser um fator de eliminação por si só, usava a posição dele claramente como fonte de renda gratuita, na qual ele não fazia NADA. A desgraça repetia, até o último dia da aula de negociações internacionais, que a negociação tinha duas partes e que, o objetivo, era chegar a um acordo agradável a ambos. PORRA, SEU IMBECIL. JURA? Pra completar o quadro, o melhor professor que eu tive durante todo meu tempo lá, André Sena, foi demitido sob circunstâncias misteriosas.

Uma observação sobre minha graduação é a respeito de uma pergunta que me fazem muito, meu nome na lista de chamada. Marcelinho, Marcelão, quem não gostar que se jogue debaixo do busão. Nem a Estácio nem 90% das faculdades do país possui qualquer sustentação à ideia de colocar um nome diferente daquele nos documentos nessas listas. Então basicamente ou você encara de frente, ou leva atrás.

Subindo de Nível

Sim, eu detesto o lugar, mas tirei algumas coisas boas de lá. A eloquência que tenho eu devo também a esse curso, lapidada durante mil apresentações. Atualmente, palestraria para milhares de pessoas sem problema ou titubeio, caso fosse sobre um assunto que dominasse. Descobri certa capacidade de liderança e coordenação de grupo, dos mil grupos que tive que formar e empurrar para frente. Me tornei habilidosa em pesquisa, o que se formou quase exclusivamente durante os 18 meses de formulação da Monografia, mas agora é importante para meu trabalho. Por fim, desenvolvi bastante minhas relações interpessoais, que eram nulas até entrar no lugar.

Confesso que há um saborzinho especial também pelo fato de eu agora participar do seleto grupo de pessoas trans com graduação superior. Sinto que isso pode motivar muitas outras a viverem seu gênero verdadeiro, deixando claro que nossa transição restringe cada vez menos os nossos passos profissionais. Uma das coisas que minha mãe perguntou quando afirmei indubitavelmente que esse caminho era inevitável para mim, foi se eu ia ser maquiadora ou cabeleireira. A noção dessa restrição é ridícula e tem que acabar, e é com a nossa fuga dela que ela morre. No entanto, o evento em si, o dia da colação, foi de certa forma a materialização da minha conquista, pois durante anos eu visualizava especificamente a imagem de eu de salto ao receber o canudo, e adivinha só?

A família de onde vim.

A família para onde vou.
O restante das fotos publiquei aqui.

No Fim do Arco Íris,  O Pote de Foda-se

No fim das contas, esse curso não me rende um emprego, diretamente. As opções mais numerosas não me caem bem. Eu poderia trabalhar em escritório de empresa comercial tratando da burocracia de exportações e importações, coisa que eu nunca faria por já ter trabalho em escritório e ter pegado asco do ambiente corporativo. A alternativa seria a representação diplomática brasileira, que enfrentaria o obstáculo interno do meu antipatriotismo e o externo do NUNCA VAI TER UMA TRAVECA DE CABELO ROSA NO INSTITUTO RIO BRANCO. NÉ.

Eu acabei indo para o mercado de tradução. Tenho inglês fluente já faz bastante tempo, devido a diversos cursos feitos e ao fato de sempre ter assistido a filmes e séries, e jogado jogos, no idioma; conhecia uma meia dúzia de tradutores, amigos de amigos meus, que me deram algumas dicas iniciais de programas a usar e sites de busca e divulgação de mercado a assinar; e distribuí currículo a rodo pelas agências das quais fiquei sabendo no Rio de Janeiro. Uma delas me mandou um teste por e-mail e gostou do resultado, e agora trabalho para eles: Rajão & Athayde. Especializados em documentos de patente, principalmente de patentes registradas em outras nações membro do acordo internacional de patentes e que precisam ser traduzidos para o idioma oficial de cada uma das outras nações membro. Passei um mês trabalhando fisicamente na agência, para acelerar o aprendizado, e agora estou desde fevereiro trabalhando de casa, além de traduções freelancer que já faço para outros clientes.

O primeiro mês foi, sem favas na língua, do piru no cu. A empresa fica a 30 km da minha casa, e precisei alugar um carro no qual passava de 4 a 6 horas por dia para ir e voltar. Agora, no entanto, tudo que eu preciso é disciplina para manter o foco, convivendo com o botão do Titanfall de um lado e o link do Facebook do outro. Mas veja bem esse ambiente e uniforme de trabalho. Imbatíveis.


O resumo da ópera, crianças, é duplo. Primeiro, as pessoas transgêneras possuem bem mais possibilidades de profissão e realização do que a mídia gostaria que você acreditasse. Segundo, não se preocupe tanto com o resultado profissional da faculdade que fará, o importante é ir agregando habilidades e amizades pelo caminho a fim de ter opções viáveis no futuro.