10 de janeiro de 2015

Atlanta, Georgia

Após a formatura discutida no último post, eu prossigo trabalhando para a Rajão & Athayde, traduzindo do meu computador de casa. Gabriella, que era professora e pesquisadora laboratorial na UFRJ, conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade Emory em Atlanta, nos Estados Unidos, sob a supervisão de um pesquisador chefe do CDC. Acabou que viemos para cá, ela com um visto para a bolsa e eu com um visto de turista, com três malas e nossos computadores. Seis meses depois, temos nosso apartamento mobiliado, nosso carro e um plano de permanência no país que se estenderá pelo menos até fevereiro de 2016. Com sorte, não precisaremos mais morar no Brasil.



Atlanta é uma enorme cidadezinha. O que eu quero dizer com isso é que vivendo aqui é comum ter, diversas vezes, a sensação de viver em uma comunidade íntima com os outros 500 mil habitantes, quando na verdade ela tem uma dezena de shoppings centers e cinemas, centenas de restaurantes, uma área metropolitana significativa com dezenas de cidades satélite muito próximas, um enorme parque de diversões, o maior aquário do mundo e o centro de pesquisas médicas mais influente do planeta. No entanto, Atlanta ainda é uma cidade extremamente arborizada, linda, bem preservada, com um trânsito tranquilo aonde a velocidade máxima na qual as pessoas percorrem na maioria das áreas urbanas é de 40 a 60 quilômetros por hora, aonde se para o carro quando o pedestre pisa na faixa, aonde cada atendente em cada loja pergunta como você está e espera você perguntar o mesmo de volta antes de começar qualquer negociação. Para mostrar pelo menos a estética do local, coloco abaixo um vídeo do caminho feito da nossa casa ao trabalho de Gaby, mas sinceramente, o YouTube é um escroto e tira toda a qualidade da imagem. O arquivo original está aqui.



Quando chegamos, havíamos passado três meses pesquisando apartamentos para alugar através da promove.com, uma empresa local com um amplo catálogo. A maioria das residências na cidade é de casas unitárias (aquelas famosas dos filmes americanos, com jardinzinho enfeitado na frente, teto triangular, etc.) ou de condomínios pequenos (em ‘prédios’ de dois ou três andares, ainda no formato de casas, com no máximo duas dúzias de residências). A área da cidade que possui prédios altos, tanto comerciais quanto residenciais, se restringe, talvez, a uns 30 quarteirões. Como morávamos no Rio e eu queria manter um pouco de familiaridade na vida, já que estava saindo da casa da família pela primeira vez, indo para outra cidade, estado, país e continente, achei por bem encontrar um apartamento em um prédio. Não por coincidência, é o prédio alaranjado baixinho da foto acima, e todos aqueles à direita do mesmo são visíveis da nossa janela.


Acima eu apresento o cantinho da gente. A casa não era mobiliada, então assinamos um contrato com a Cort para alugar alguns móveis principais. As cozinhas na cidade vêm sempre equipadas já com micro-ondas, fogão, máquina de lavar louça e triturador de lixo, enquanto a maioria dos condomínios conta com máquinas públicas para lavar e secar roupas, então não é necessário se preocupar com nada disso. Nos primeiros dias utilizamos um carro alugado no próprio aeroporto, depois compramos um antigo usado, necessário, dado o fato de que o sistema de transporte público da cidade não é nem de longe o suficiente para que Gabriella usasse todo dia para ir e voltar do trabalho, muito menos para que saíssemos para passear. Um Nissan Pathfinder de 2002, nada demais, e bastante acessível dada as reservas que acumulamos antes de vir.

Foto da mãe com o carro já que ela fez questão de fazer essa macacada XD
Falando em mãe, que veio passar o fim de ano conosco, a respeito de passeios e turismo. O Six Flags Over Georgia é um parque de diversões bastante grande próximo à cidade. Eu e Gaby fomos lá em Outubro e passamos um dia muito gostoso. O parque estava todo decorado para o Halloween, assim como o resto da cidade e, suspeito, do país, e tinha várias atrações de casa mal-assombrada e monstros dando sustos nas pessoas. A minha única tristeza é morrer de medo de altura e, consequentemente, de montanha russa. Mas até consegui ir em uma!

O aquário que eu mencionei antes, Aquário da Georgia, também rendeu um dia inteiro, das 10 da manhã às 5 e tanto da tarde. O passeio básico disponibiliza a ti seis áreas de exposição, desde aquários de medusas, dragões-marinhos e caranguejos asiáticos até tubarões-baleia, baleias Beluga e uma apresentação, de mais ou menos quarenta minutos, de golfinhos e seus treinadores, a coisa mais linda do mundo. Prometo que esse último te faz chorar sem esforço nenhum. Abaixo eu juntei alguns clipes filmados durante nosso passeio para apresentar, como possível, o lugar para vocês.




Para o fim do ano, minha mãe chegou dia 24 de dezembro. A árvore de Natal já estava montada, mas passamos o Natal e o Reveillon junto, apresentamos a ela nosso restaurante favorito na cidade, o Cheesecake Factory, passeamos pelo Jardim Botânico local que estava com uma decoração linda de luzes na noite e fomos ver o “Peach Drop”, a queima de fogos de Atlanta, na virada do ano. Essa última parte eu confesso ter sido uma experiência para uma vez só, esse negócio de sair de madrugada para ver puff puff colorido no céu não é nem comigo nem com Gaby, uma sessão de jogos, filmes e sexo tá bom pra gente. Ano passado nos demos "feliz ano novo" já na cama no meio do sono, foi fantástico. De qualquer forma, tem um álbum de fotos sobre a estadia dela - também.

Essa mudança representou muita coisa boa pra mim. Eu detestava o Rio de Janeiro, sempre me senti assim. Os serviços nos restaurantes são ruins, os atendentes de lojas são grossos, o comportamento masculino é bárbaro e vergonhoso - desde às 15 cantadas por quilômetro até a bizarrice que é a torcida do flamengo ao redor do Maracanã - a população é porca, a polícia é agressiva, as filas são gigantescas, o trânsito é estressante, os servidores públicos são preguiçosos e incompetentes, os assaltos são frequentes e, como em todo o Brasil, qualquer coisa importada custa os olhos da cara e do cú. Sim, com acento, para dar ênfase. Além disso, morar aqui é minha primeira experiência de independência e, apesar de todos os tropeços com as finanças e com a burocracia da vida adulta, nada tira o colorido do prazer que é morar em um lugar no qual, da porta para dentro, quem manda somos nós e ponto final. Podem me acusar de síndrome de vira-lata o quanto quiserem, mas nossas encomendas aqui são entregues e deixadas em um cômodo público ao lado da portaria ao qual todos os mais de 140 apartamentos têm acesso irrestrito. Sabe quando eu ia ver a cor dos meus pacotes se isso fosse feito no Rio? Pft.




Enfim, a vida continua. Eu faço essas publicações para deixar bem clara a ideia de que ser trans de forma nenhuma te impede de crescer e ser feliz na vida. Sim, eu sou branca, não, não me expulsaram de casa, todas essas coisas são verdades e ajudam com tudo na vida, sendo trans ou cis, mas até hoje eu conheço trans com dinheiro e formação universitária, empresas e casas próprias, que acham impossível realizar a transição mesmo tendo a benção dos deuses do seu lado por achar que tudo é 10 vezes mais pesado do que é na verdade e que, por isso, “não dá pra fazer isso”. DÁÁÁÁ sim. Suas quengas.