2 de setembro de 2013

(in)Visibilidade Trans*

-Por Daniela "Leina" Ruiz

No outro dia, no Ask.fm, uma pessoa me perguntou sobre passabilidade e sobre a auto-afirmação de dizer “sou trans e não cis” e isso me fez pensar sobre visibilidade e “stealth” (camuflagem).

Existe um certo dilema (que em mim é pequeno, mas pode vir a crescer) sobre mesclar entre as pessoas cis ou não. Em outras palavras: “Esconder ou não que sou trans pro resto da minha vida?”

Em meio a esse dilema, surge um debate na internet: Isso conflita com visibilidade trans*? Pode haver visibilidade trans* se as pessoas trans são invisíveis?

E o mais importante: O que diabos é visibilidade trans?


Vamos ver o que a minha chará Daniela Andrade tem a dizer a respeito:

"Visibilizar as identidades trans* é empoderar essas pessoas a serem protagonistas do próprio discurso e da própria vida, é retirar muitas dessas pessoas da marginalidade em que são jogadas pela sociedade transfóbica e cissexista, é legitimar a fala dessas pessoas como verdadeiras, únicas, importantes; é lutar contra a patologização das identidades trans que esmaga essas pessoas dentro de uma ótica que só pode vê-las como doentes; é humanizar cada um desses seres humanos tão açoitados socialmente, ao ponto de muitos não saberem que são gente, que possuem direitos. 

Visibilizar as identidades trans* é não se alhear às dificuldades que todas essas pessoas passam apenas por não terem a identidade/papel/expressão de gênero legitimados por uma sociedade que lhes rejeita, que lhes trata como seres exóticos, marginais, vistas como identidade de objeto.

Visibilizar as identidades trans* é lutar por direitos humanos, sobretudo para quem a sociedade repudia como humano.”

Obrigada, Daniela!

Conforme o que foi dito pela (outra) Dani, a visibilidade trans* tem a ver com luta por direitos humanos, empoderamento e conscientização. Então, no meu entendimento, a visibilidade trans* NÃO conflita com o desejo de mescla das pessoas trans* em “stealth” por um simples motivo: Não podemos confundir VISIBILIDADE com OUTING. Afinal de contas, nada é menos amigável para trans* do que outing.

"Mas Leina, o que diabos vem a ser outing?"

Nossa amiga Sasha tem algo a dizer sobre outing:



Outing é isso! É quando você conta por aí que uma determinada pessoa é trans* para alguém, sem a permissão da pessoa. Imagina se alguém saísse contando detalhes da sua intimidade por aí: “Este daqui é o Fernando, e ele tem pau pequeno e usava pochete!”

Então, recapitulando tudo porque acho que fui longe demais:

- Visibilidade trans* é sobre direitos e empoderamento. É sobre mostrar pro mundo que existimos, que somos pessoas como quaisquer outras e que queremos viver igualitariamente preservando, entre outras coisas, nossa intimidade;

- Outing é quando pessoas que estão tentando viver normalmente são arrancadas de seu anonimato à força, muitas vezes prejudicando-as;

- Outing vai contra o conceito de visibilidade trans*, pois revela nossa intimidade desnecessariamente e contra a nossa vontade, tirando de nós direitos que todo mundo tem;

- Logo, a visibilidade trans* traz consigo o zelo pelo direito das pessoas trans* camufladas na sociedade de continuarem camufladas, pois estas pessoas tem o direito de viver como quiserem.

Na opinião desta que vos escreve, não existe vergonha nenhuma em viver no anonimato quanto às suas origens. Eu entendo todos os estigmas que o rótulo “trans*” carrega e, francamente, não desejo-os para ninguém. Não acho que quem o carrega publicamente (deliberadamente) tem mais ou menos mérito de quem o faz: É tudo uma questão de como cada uma de nós vive nossas respectivas vidas.

Quanto à mim? Eu não sei ainda. Eu assumi essa bandeira pois acredito que eu aguento o tranco e, assim sendo, posso lutar para que, no futuro, outras trans* possam viver tranquilamente em anonimato, ou ainda melhor: possam viver num mundo onde o rótulo “trans*” não traga mais peso do que qualquer outro, e isso automaticamente faz de mim uma pessoa pública. Mas reservo a mim e a todas vocês o direito de viver em anonimato, se assim quisermos algum dia.

Bezzos e até mais!

-Por Daniela "Leina" Ruiz