18 de setembro de 2013

Pêndulo

- Mayra

O pêndulo começou seu movimento no útero, lá no alto do lado masculino. Biológica, fisiológica e geneticamente, nasci homem. Socialmente, me frustrei por mais de duas décadas querendo ser reconhecida e tratada como mulher. Endureci a casca, o comportamento. Entrei para a academia. Reforcei a voz grossa. Segurei todo possível desmunhecamento. Me pronunciei incomodada com casais gays masculinos. Reneguei qualquer possibilidade sexual que envolvesse o ânus. "Eu não gosto disso!" É, tá bom. Mas ninguém poderia saber do meu lado feminino.

Um dia, transicionei.


O pêndulo passou para o outro lado, e a inércia o levou bem alto. Começo de transição: salto alto, maquiagem mediana, saias, rendas, bolsinhas, sapatilhas, meias-calças. A bolsa, cheia e grande como deveria ser a de uma mulher. Lenços umedecidos, maquiagem para repor na rua, chave, papéis, casaquinho. O tucking, minucioso. O pênis morria sufocado, tadinho. E seco. Com uma terapia hormonal de dar medo em qualquer fígado, minha ejaculação morreu. Merecia um velório e tudo. Teve marcha fúnebre. Com o tempo, dona ereção foi junto. Me tornei mais passiva que eleitorado brasileiro. As blusas, de manguinhas bufantes, escondiam os ombros. O jeito, meigo, escondia o Y. Treinar musculação com o braço, só em pesadelos de acordar suando frio. Ficaria muito masculina. Saberiam que eu era trans. Me preocupava. Pensava em vaginoplastia. Temia. Rebolava. Falava fino. Sorria muito. Cansei.

O pêndulo voltou, e experimentei o lado masculino de novo. Tênis. Calça jeans. Até me travesti de homem um final de semana - veja só! - mas doeu. "Senhor". "Ele". "Rapaz". Doeu. não deu. Biquini, saia, salto alto, vestido. Exagerado. Forçado. Não era minha praia também. Também não deu. Mas eu dei. Ô, se dei. E comi, também. Adeus hormônios. Deixei o Natifa, só, e uma caquinha de finasterida, 1 miligrama por dia, para evitar queda de cabelo. Pai careca. Tio careca. Não podemos brincar com isso.

O pêndulo foi, voltou, foi, voltou, mas cada vez com menos entusiasmo para um dos lados. Lados. Rótulos. Características. "Homem". "Mulher". O que é cada um desses? Não é, não existe. "Genética!" XX. XY. Descobre-se então que existem pessoas com o corpo totalmente feminino, com órgãos reprodutivos funcionais, útero, ovários, menstruação, TPM... XY. Além dos X0. XXY. XXX. Dos... ok, posso parar. "Genitália!". Pinto. Boceta. Aí tem o intersexo, a pessoa majoritariamente mulher com um micropênis no lugar do clitóris, ou uma pessoa majoritariamente homem no qual o pênis não fechou direito durante a gestação, e possui uma boceta no lugar do escroto. Têm os acidentes e crimes, pênis cortados, bocetas mutiladas. Não, pera. "Comportamento!". Mulher é TPM, é fraqueza, é sensibilidade, é falta de racionalidade, é... lutadora de MMA. Cientista. Presidente da Alemanha. Halterofilista. Porra. O homem é seriedade, racionalidade, força, agressividade... cozinheiro, babá, enfermeiro, chora, se machuca, é franzino, é gay. Pera. Caralho. Fodeu. Quem é o que?

Hoje em dia, eu sou tênis, bota, sneaker. O tucking foi pro espaço, o volume fica no short, a ideia da vaginoplastia fica no passado pra sempre. Sou trans mesmo, e daí? Sou maquiagem no rosto e pisar firme. Sou dar boa noite para bichos de pelúcia, sou dormir de conchinha todo santo dia com a namorada que eu amo tanto, tão forte, tão rápido, tão incrivelmente, em tão poucos meses. Sou musculação e rebolado. Sou Taekwondo e abraço apertado. Sou foda violenta, arranhados nas costas, mordidas no braço, sou beijo demorado, choro em casal, lavar o cabelo e o corpo uma da outra no banho. Sou PlayStation, PC, teclado, controle. Sou livro, sou reflexão, sou política, sou passeata. Sou preconceito e sou liberdade. Sou ódio e sou piscada com sorriso. Sou filha, sou neto. Sou homem, sou mulher, sou peito, sou pau. Sou eu. Sou Marcelo, sou May.

E você? Já descobriu quem é você?