20 de outubro de 2012

Escapismo

Antes de fazer a transição, meu sonho era morrer e nascer de novo, como mulher. Ao iniciá-la eu já sabia que isso não era possível e, na verdade, nem seria o melhor. Afinal, com uma história totalmente diferente eu me formaria personalidade totalmente diferente - e gosto de quem sou agora. Transição apresentada ao mundo, me satisfiz com o resultado e a conquista - física e de todos os outros aspetos de minha vida. Regojizei-me por quem havia passado a ser e satisfiz-me com tudo, dizendo, "chega, tá bom assim".

Mas como diriam as rochas rolantes, não encontrei a satisfação  Ainda. Sinto a porcão feminina da minha personalidade se desenvolver, se espalhar e tomar conta de cada aspecto da minha vida. Minha experiência recente e pontual como Marcelo me deixou bastante óbvia a sensação que geraria o "desistir", o "voltar atras", e por Deus, os Orixás  o Karma e tudo que for bendito e sagrado, eu não quero isso. Eu - nunca mais - quero voltar atrás. Acabou.

No entanto isso é, por enquanto, sonho. Sonho por não ser material, não ser presente, não existir nesse exato momento. Eu precisaria me mudar - burocrática e geograficamente. Eu precisaria ir pra outra cidade, outra faculdade, outro país, outra dimensão, outra vida. Preciso ir para um lugar onde não me conheçam. Onde não saibam não quem eu sou, mas quem eu fui. Quem eu tive que ser, quem a natureza me obrigou a ser por tanto tempo. E que agora tenho a certeza de ter feito a coisa certa por não ser mais.

Isso começa com um passo legal, no entanto. Eu havia desistido temporariamente de mudar de nome. Atarefada com o trabalho, feliz com as mudanças, deslumbrada com as novidades, desisti. Pois agora, desisto de desistir. Preciso... não apagar o Marcelo, não  Ele pode ser lembrado. Mas dissolvê-lo e relegá-lo ao passado.

Eu preciso acabar de nascer. A Mayra precisa acabar de nascer - e esse parto já esta durando tempo demais. Ao atrasar a abertura do portal, o bebe chuta, as entranhas doem e o mundo lá fora grita. Preciso silenciar tudo. Tudo. Preciso ficar em paz.

Me pergunto, no entanto, se em algum momento da presente existência terráquea eu realmente encontrarei a paz.