3 de agosto de 2012

Cicatrização

A transição nos deixa com diversas marcas, físicas e emocionais. Positivas, negativas, não importa. Incólume nos não passamos. O importante é saber quando essas marcas somem, ou ainda melhor... quando se integram à beleza do nosso ser.

Fisicamente falando, é quase impossível detectar as marcas que isso tudo me deixou. Vou tentar mostrá-las.





A primeiro foto é da incisão feita para remoção do Pomo-de-Adão, enquanto a segunda é uma parte do corte necessário para o rebaixamento da pele da testa para a raspagem frontal do crânio. A incisão abaixo do queixo é naturalmente invisível pela sua própria situação... "geográfica", digamos assim. Para que ela se torne evidente eu teria que estar deitada ou sentada com a cabeça fortemente virada para trás - posição na qual eu provavelmente teria maiores preocupações do que uma marca no pescoço. O corte no couro cabelo é situacional: se meu cabelo estiver encharcado ele se torna completamente óbvio pela calvície total que existe na área, e que deve persistir por pelo menos mais um ano. O que tem certa ligação com esta foto aqui:



Essa é a minha 'prova', digamos assim, de que comprei meu primeiro bikini.

Antes de mais nada, gostaria de afirmar que ninguém aqui esta me pagando nada por nada disso. Sim, eu devo ser imbecil então de ficar elogiando. Talvez. Esconder o fato de que eu gostei das coisas só porque não me pagaram para dizer que gostei me parece ridículo, mesquinho e mercenário. Ademais, me impede de contar coisas importantes na minha vida. Dessa forma, a condição pública da minha história torna quase óbvio de que eu vou sim comentar sobre essas marcas que me rodeiam - e elas sabem disso. Em posse desse conhecimento, não pagam nada a ninguém para elogiar. Isso é o que no marketing se chama de 'cliente evangelizante': aquele cara que gosta tanto de alguma coisa que vai ficar dizendo para os outros usarem também. Bom, é claro que eu recomendo a Facial Team, se eu to vendo uma trans fazendo a transição eu quero ver ela feliz e bonita, independente da influência que isso tenha na minha conta bancária.

Por outro lado, sem cachê eu não tenho script. Então vamos falar coisas que eu não poderia falar se estivesse sendo paga? Vamos falar do que todo mundo já sabe, mas é bom lembrar: nada é perfeito. Minha cirurgia facial também não o foi. Como? Deixa eu mostrar.


Meu nariz era torto para a esquerda e continuou dessa forma, o que se tornou mais evidente a partir do momento que sua pontinha foi puxada para cima. Além disso, há duas áreas nas quais ainda hoje - quatro meses após o procedimento - a sensibilidade é frágil e a movimentação, limitada: a ponta do queixo e a parte superior direita do rosto. Não que isso não seja normal, veja bem - oficialmente falando, seu rosto precisa de seis meses depois de uma cirurgia intrusiva dessas para retornar ao estado normal. E o nariz... bom, eu também não entendi o porque, mas fiquei tão feliz com o resto que deixei de lado.

E no caso da água de coco, o contrapeso de qualquer genialidade de design ou qualidade de materiais de seus produtos vocês podem adivinhar: custa os olhos. Não só os da cara. O da bunda também, pelo preço de cada conjunto. Com um desconto de 40%, atribuido à algumas linhas pelo fato de terem sido lançadas no verão (quem se importa, tem data de validade?), custou-me 188 reais. Cento. E oitenta. E oito. Pelo bem de sua sanidade, não faça as contas para chegar ao valor original. Vale a pena? Talvez. Eu deveria ter feito isso? Claro que não. Fiz porque então?

Porque foi cômodo em uma situação de 'emergência'. "Porra May, emergência em comprar bikini? Fala sério né". Sim, eu sei. A critica é absolutamente válida. Vou tentar explicar meu lado: Eu adoro sol. "Com essa cor?!?! Ta de sacanagem?!?!?". Não, não to. Eu sou clara porque, por mais que toste, não escureço muito - mas eu tento. Ou pelo menos tentava constantemente antes dos seios começarem a aparecer. Eu imagino não precisar explicar a simultaneidade dos dois eventos, né? Enfim, adoro sol e tenho sentido enorme falta dele. E finalmente essa falta se tornou mais poderosa que a vergonha de botar o bumbumzinho de fora em público. Porque vocês ciswomen podem estar completamente acostumadas, ok. Mas lembrem-se que quando usei saia pela primeira vez até estranhei sentir ventinho nas partes. Imagina nas nádegas? A menor peça de roupa que usei na vida foi uma sunga daquelas que tapa a bunda toda, uma faixa reta. A ignorância da pessoa nem a permite saber o nome da peça, entao deixa eu mostrar. Aqui:


Gente, como eu era um cara largo. Havia muito tempo que eu não via essa foto. Enfim, esse era o tipo de "roupa de banho" que eu usava, e passar para um bikini não é exatamente uma transição simples. Por outro lado, a vida me acostumou a transições complicadas, não é mesmo? MAS! Passou a vergonha. Ou pelo menso, precisa passar. Nesse final de semana eu talvez tenha a primeira oportunidade de pegar um solzinho, e não queria mais adiar a compra de um bikini de jeito nenhum. Conhecendo muito pouco de onde comprar esse tipo de coisa, e desconfortável em explorar novas oportunidades sozinha, decidi ir na fonte da qual já havia bebido desde sempre: no shopping. Rio Sul, na verdade, sempre comprei bastante coisa lá. E a consequência foi essa. Gostaria de pedir perdão àzamizades também por ter resolvido fazer isso no dia anterior e por ter disponíveis somente duas horinhas corridas antes do trabalho pra resolver isso, e por consequência nas as ter convidado para participar. Dona Jéssica e dona Eugenia, por exemplo. Sem ressentimentos, hein?

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Foi isso que quis dizer com cicatrização. Tudo isso. O corpo se recupera, lentamente, claro. Mas a mente também precisa se adaptar. E eu sinto me adaptando às roupas, às situações, aos tratamentos. Tanto os genéricos, de fazer parte do 'lado feminino' da sociedade, quanto os específicos das transwomen. Afinal, boa parte do problema do bikini se dá pela especificidade de nossa anatomia. E eu estou começando - ou melhor, terminando - a me encaixar em tudo isso.

Por outro lado, eu vejo uma foto antiga minha dessa e sou forçada a parar e refletir por um segundo. 'Valeu?' Eu estaria mentindo se afirmasse ter certeza de que 'valeu' o tempo todo. Isso só será respondido com o tempo. Muito tempo. Mas a lição que tiro disso é: muitas trans esperam ter certeza absoluta, total e completa de sua condição antes de fazer quaisquer coisas, tomar quaisquer passos em direção à transição, com medo do arrependimento, da repercussão e tudo mais. Bom, estou aqui para lhe dizer: mesmo depois da transição você talvez ainda não tenha certeza. E isso não necessariamente lhe impedirá de ser feliz. Enquanto você se encontra no sofá, na cama, no trabalho, na vida em depressão e infindos questionamentos, eu estou aqui, talvez com a mesma porcão de dúvida, vivendo e experimentando. E se um dia eu quiser voltar atrás eu tiro os peitos e paro de tomar hormonios e *puff* - la está o Marcelo novamente. Nao use as incenterzas como desculpa - aja.


Beijos,

MayB