22 de julho de 2012

Enmulherzando

Gostou do neologismo?

Considero o nome mais apropriado para o que vem acontecendo comigo, e o que se passa com a maioria das trans. Analise bem. Todos esses meus posts sobre roupas doadas, sobre maquiagem, sobre bijuterias, sobre as primeiras vezes que uso uma saia, um vestido, um salto alto... isso é enmulherzar. Isso é aprender a ser mulher, a deixar de ser femininO e passar a ser femininA, esse é o ato de vestir o uniforme do outro time ao invés de só comprar ingresso pro seu lado da arquibancada.

Isso inclui outra coisas. Passar em mais de 300 metros de obras pela rua do meu trabalho, que está toda quebrada, e sentir 5 a cada 3 homens virando e olhando, sem me faltar o respeito e sem usar uma roupa vulgar, me faz sentir realmente bonita. Não sexy, não gostosa... era uma bata soltinha, uma calça jeans normal, sapatilhas... mas bonita. Admirável. Acho que é isso que me faz sentir mais mulher, mais feliz.

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Por outro lado, meu lado masculino persevera, se em nada mais, nos meus registros burocráticos. Estou com uma preguiça enorme de levar pra frente a mudança de nome, o que não é ajudado pelo fato de que meu nome, na verdade, não me incomoda. Como na situação que aconteceu hoje. Pedi uma entrega da farmácia no escritório. Não no meu, no da empresa cliente da empresa que me contratou, onde as pessoas não sabem, pelo menos oficialmente, que sou trans. E veio com o nome de Marcelo, pois automaticamente absorvia o nome do dono do cartão de crédito. Bom, "e dai?" E dai que, novamente, não me incomodou. Foi divertido ver a surpresa no rosto da recepcionista depois que eu expliquei a situação. Sei lá, acho que isso deve ser mais incômodo para as trans que procuram um homem para suas vidas e, portanto, que querem ser tratadas da mesma forma que ciswomen. Para mim... nao sou ciswoman. Sou transwoman. Isso trás vantagens e desvantagens específicas para cada um, mas o mais importante é ser verdadeira.

Falando nisso, sobre homens. Algumas vezes sinto falta sim de estar com um homem, de ser o lado frágil, inconstante, emotivo e incompreensível da relação. No fim das contas, acabo sendo o bastião de força e equilíbrio. Por outro lado, agora sei que tanto do lado psicológico quanto do sexual, uma mulher pode aliviar a outra em seu papel de líder e guia por se permitir, de vez em quando, "ser macho", seja pela posição certa na cama, seja por tomar a atitude em uma situação, cuidar como puder, proteger, decidir... guiar. Liderar.

Na verdade, quando penso na falta que um homem faz na minha vida, penso também que boa parte disso vem de um homem específico: meu pai. Fica aqui um recado, mais um, caso este venha a ler meu post: se toca, sua filha está tentando se aproximar de ti faz anos.

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Teve outra forma como me senti mulher. Se você, caro leitor, lembra de mim falando de ter usado short pela primeira vez há uma ou duas semanas, saiba que foi somente para aquela sessão de fotos, e não para sair de casa. Bom, hoje eu passeei no calcadão de uma praia de short, blusinha leve, havaianas com azunha do pé pintadas. Foi muito gostoso, foi a primeira vez que sai de short, e quero fazer isso MUITO, sempre...


Isso me faz pensar em um diálogo curioso que tive hoje. Não com essa roupa, mas sem nenhuma.


"Seu corpo está bem diferente. Voce ganhou bunda, quadril. Sua barriga está mais pra frente. Você está ficando toda mais feminina, né"
"E como você se sente com relação a isso?"
"Não sei" 

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Sabe, há sensações que as trans também nunca vão ter. Para mim, é normal que meu corpo mude. E eu o vejo todo dia, várias vezes por dia, então não me assusta. Inclusive é esperado, tomando hormônios mais que água. Mas para uma pessoa íntima sua? Como deve ser para alguém ver um homem... sabe, VIRANDO, mulher? Bizarro, talvez, mas em geral uma sensação que nunca vou ter. Isso inclui outras coisas. Para desconhecidos, para a maioria, para.... vocês. Eu nunca vou saber como é para vocês descobrir uma história como a minha, ler esse blog, ver essas fotos, fazer essas comparações. Nunca vou entender porque minha família ainda me chama de "Marcelo" ou "ele". Todo mundo afirma o motivo principal ser o tempo e o costume e, teoricamente, empiricamente, eu entendo. Mas na prática? Quando uma menina no meu trabalho descobriu meu nome ela botou a mão na boca, de surpresa, e disse: "Seu nome é Marcelo? Pra mim você tem cara de Mayra." Em seguida veio algo do tipo "Pra mim você é menina." Tudo é uma questão de costume então, de hábito, de tempo? Não entendo bem isso.

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Mudando bruscamente de assunto, alguém dentre vocês já fez projeção astral? Sabe o que é? Basicamente falando, é o ato de retirar, voluntariamente, o espirito de seu corpo. Poder viajar e experimentar o mundo através de outros sentidos que não os cinco com os quais convivemos todo dia. Poder estar fisicamente onde não se encontra fisicamente. Obviamente, isso requer um certo nível de crença no sobrenatural, então cientistas puristas de plantão podem não gostar muito do que vem aqui pela frente. Lembrem-se, eu sou a grande defensora do Big Bang, do evolucionismo e da possibilidade da tradução de pensamentos para sinais elétricos armazenáveis em formas de mídia tecnologicamente portáteis. Mas eu sei que existe mais coisa do que vemos normalmente. E sei, até certo nível, me projetar astralmente.

E estou falando disso porque quero fazer uma pergunta. Hoje eu me projetei, sem querer. E alguém, ou algo, tentou falar comigo. O que eu consegui pescar foi o seguinte: "Deixe eu entrar..." "vou fazer o casal acreditar..." "em Jerusalém...". Eu entendi a parte do 'deixar entrar'. Ele tentou entrar em meu corpo. Quando se vaga sua forma física para se projetar, ocorre esse risco... você voltar com algo anexado, ou nem voltar. E ele pareceu tentar me dizer que estava fazendo isso pelo bem de mim e de alguém que, sem entrar em detalhes, leva uma vida bastante conturbada comigo. Mas não entendi o proposito. A intenção. Alguém entendeu?

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Enfim, assuntos por alto, não é mesmo? Sinceramente, estou meio perdida no que falar e no que entrar em detalhes, então quem quiser escrever para mim pedindo para postar sobre assuntos especificos, por favor, faça-o. Entrar a fundo em algo que só dei uma pincelada ou trabalhar um aspecto que nem toquei, tanto faz. Sugiram-me.

Beijos de sua escritora perdida,

MayB