3 de fevereiro de 2012

Bem Vindas ao Lado Púrpura da Força

(EDIT: 18/10/12: Antigamente o meu blog fazia parte de outro portal, agora ele é independente, por isso, a sessão cortada abaixo).

Olá, meninas =)

Bem vindas a mais nova seção do *****. Meu nome aqui será MayB e eu contarei a história da minha transição de gênero, que ainda está bem no comecinho, para tentar distribuir informação e aceitação sobre este grupo tão, digamos, excepcional da sociedade: os transsexuais. Vamos lá?



Primeiro, uma breve apresentação. Eu estou com 20 e alguns anos, moro no Rio de Janeiro e estudo em uma faculdade particular. Enquanto eu estiver anônima os dados serão assim, escassos, e o nome  fictício, mas logo tudo será publico e bem conhecido. Gosto muito, muito de animais, passo boníssima parte do meu tempo jogando no PC e me interesso por tecnologia portátil. Sim, meio nerdzinha, mas nada de atolada na vida. Saio pouco de casa e gosto de coisas calmas como uma piscininha, um filminho no cinema ou passeio no Jardim Botânico. A parte da família com que vivo é de classe média alta, e a relevância dessa ultima informação é que, tendo menos ou mais dinheiro, talvez a realidade de compreensão das pessoas próximas e tratamentos ao seu alcance sejam outros.

A situação presente da minha transição é a seguinte: eu já falo com um psicólogo sobre a minha situação tem uns quatro meses e os hormônios eu tomo há seis semanas, então ainda vivo 100% do tempo fazendo curso de teatro como homem :p. Mentira, minha aparência e comportamento tem mudado muito, mas as roupas ainda são cuecas, calças, blusas e tênis. A unha eu já uso grande, feita e com base, e é absolutamente hilário ver as expressoes de “?” de quem repara no metro ou no ônibus.

Sobre as minhas experiências e informações, vou dividir em tópicos. Os tópicos, em geral, contêm informações relevantes a períodos específicos da transição. Os primeiros posts são, na verdade, uma coletânea de informações mais técnicas e médicas do que pessoais, mas acho importante a leitura dessa parte para melhor compreensão do todo. Apesar disso, essas informações serão cortadas e postadas em dias separados, senão vocês provavelmente ficarão cansadas de ler tudo de uma vez só, né? De qualquer forma, se você veio até aqui, não se assuste com o tamanho. Eu juro que o texto é enxuto, só que há muita informação a ser passada. Vamos começar.

Vocabulário

Há um número infinito de termos e abreviações que somente são utilizadas ao falar desse assunto. Vamos explicar alguns para que a leitura seja mais fluida.

- Ciswoman: termo em inglês para especificar as mulheres geneticamente femininas.

- SRS: Sex Reassignment Surgery, ou Vaginoplastia. A cirurgia que transforma o pênis e escroto em uma vagina

- FFS: Facial Feminization Surgery, um conjunto de procedimentos cirúrgicos que visa feminizar a aparência facial de um individuo.

- HRT: Hormonal Replacement Treatment ou Terapia de reposição Hormonal é o conjunto de remédios que um individuo em transição de gênero faz para assemelhar o componente hormonal do seu corpo ao do gênero para o qual ele esta indo.

- FullTime: “Período Completo”, é a expressão que se usa quando um ou uma trans passa a viver 100% do seu tempo no gênero não genético. Esse termo foi criado para diferenciar da etapa da vida destas pessoas que elas só vivem parte do tempo como o gênero que desejam ter, como dentro de casa ou só quando saem à noite.

O que é transsexualidade?

Para começar, vale constatar que eu DE-TES-TO esse termo. “Sexo” não é uma palavra lá muito científica e na mente das pessoas está muito mais ligada ao ato sexual do que ao gênero biológico, principalmente porque o estereótipo de transexual no Brasil é aquela pessoa sem rumo na vida alugando o corpo nas cidades do interior ou em avenidas movimentadas. “Transgênero” é muito mais bonito, mas só existe em inglês.

De qualquer forma, transexual é o individuo que desvia dos padrões não ambíguos de gênero da sociedade. Isso é, o papel que culturalmente é reconhecido como de homem ou de mulher. Sim, a explicação é bastante abrangente porque o termo é bastante abrangente, não porque eu sou tapada, mas vou tentar explicar de outra forma. A transsexualidade implica que você se vê como algo diferente do que alguém pensaria que você é ao olhar seu corpo nu quando criança. Ou seja, se você possui um pênis, mas se identifica como mulher, como um ser sem sexo, ou como um ser possuidor dos dois sexos, você é trans.

Essa abrangência gera diversas subdivisões do termo. Por exemplo, travesti é a pessoa que gosta de se vestir do sexo oposto, seja na hora do sexo ou da boate, mas que não tem desejo de ser membro daquele gênero o dia inteiro. Tem o andrógino, que é o individuo que quer se apresentar de uma forma que, visualmente, não seja possível atribuir-lhe um gênero, seja porque ele não se vê como membro de nenhum ou porque ele se vê possuindo os dois. Além disso tem aqueles que querem viver o tempo todo como um membro do sexo oposto, mas não querem mudar sua genitália.  E tem as transsexuais, digamos assim, extremas, que quer ver os peitinhos crescerem, cortar o bilau fora e fingir que aquilo nunca nasceu.

E para aonde vai a preferência sexual, ou seja, com quem você deseja se relacionar, nesse assunto? A lugar algum. Transsexualidade não tem a menor ligação com preferencia sexual. Se o seu corpo é masculino mas sua identidade é feminina você provavelmente se comportará de maneira feminina na cama. Mas você pode querer fazer isso com um homem ou com outra mulher.

Ah sim, e medicinalmente falando, transsexualidade ainda é visto como uma patologia, ou seja, um “defeito” psicológico, pela maior parte dos médicos e cientistas no mundo (por isso o uso comum do termo "transsexualismo"). Isso tende a mudar para melhor, e a World Professional Association for Transgender Health, Inc. (WPATH) (“Associação Profissional Mundial para a Saúde dos Transgêneros”, em português) já vê isso de forma diferente, como uma simples “situação” psicológica, e esta tentando espalhar essa ideia. Boa sorte com isso.

Como identificar um, ou se identificar, transgênero?

Esse assunto é delicado, e é a maior fonte de dificuldades para uma trans. Por exemplo, é por causa da necessidade de diagnóstico que uma trans tem que fazer consultas com 500 médicos e esperar meses para fazer o tratamento pelo SUS. E também por este motivo que, no Brasil, há a necessidade legal de dois anos de terapia psicológica, psiquiátrica ou analítica para receber permissão para fazer a SRS (Cirurgia de Redesignação Sexual). Re-de-signação, OK? Já ouvi muita gente chamar isso de “resignação” e da vontade de morder os dentes de um garfo cada vez que eu ouço isso. Se você se resignasse ao sexo que tem não faria cirurgia nenhuma para mudá-lo.

Mas eu divago. Já ouvi muitos relatos de que, algumas vezes, parentes e amigos próximos acompanhando o crescimento de uma criança falam que, desde muito novinha, a criança demonstra comportamento do sexo oposto como um menino se maquiando e brincando de Barbie desde os 4. E tem os casos como o meu, que malhava e tinha um bração e um peitão musculoso, ou como uma conhecida, que praticava boxe, ou ainda uma menina famosa no YouTube, JesslynGirl, que chegou a competir em halterofilismo e ninguém suspeitava de nada até a gente contar. O primeiro exemplo é fácil: com o passar dos anos os comportamentos trocados devem continuar e se agravar. No segundo é preciso que a própria pessoa se descubra. Mas como fazer isso? Bom, quem sabe lendo um pouco da minha história você não se identifica?

Encontrando sua Identidade

Eu lembro de pouquíssima coisa da minha infância, e absolutamente nada relacionado a quaisquer experiências amorosas ou sexuais. Minha primeira memória sobre isso vem de uns 13 anos quando me olhei um dia no espelho e reparei que meus peitos estavam mudando de forma. Pode ter sido a testosterona começando a agir nessa idade, ou eu posso ter engordado um pouquinho, não sei. O importante é que eu me lembro de ter pensado que os seios que eu tanto queria estavam começando a crescer. Só que tinha um problema, todo mundo me via como menino. Então, com medo do “poder” da minha própria mente, eu peguei um desses “martelinhos” amassadores de carne na cozinha e bati a beça nos peitos, para que eles não crescessem. Lá com essa idade eu já tinha dúvidas sobre o que eu queria ser. E hoje eu dou graças que minhas glândulas mamárias estão intactas e crescendo =).

Com uns 15 anos eu comecei a deixar o cabelo crescer, mas não me lembro um motivo específico. Lá para os 17, 18, eles chegaram na altura do meio das costas, e estão lá desde então. Como eu nunca fui muito alta, nem nunca tive muitos pelos no rosto, muita gente queria me ofender pela minha aparência feminina ou, pelo menos, andrógina. Então, concomitantemente ao cabelo, eu comecei a malhar e desenvolver músculos, tanto para as pessoas não ter dúvidas de que eu “era homem” quanto para, eventualmente, poder dar umas porradas em quem me perturbasse. Sim, conflitante. Mais ou menos nessa idade eu resolvi usar uma lamina de barbear (que eu usava pra tirar meia dúzia de pelos do queixo) na perna, e acabei raspando tudo. Tenho feito isso desde então, resolvi que odeio pelos! Ao mesmo tempo sempre namorei meninas, nunca meninos. Continuam os conflitos.

Antes de começar a malhar, no entanto, eu já havia me vestido com roupas da minha mãe diversas vezes, sempre dentro de casa e sozinha. Me olhava no espelho, combinava peças diferentes, etc. Não só eu me sentia muito feliz por estar daquele jeito como também muito triste por não poder ser daquele jeito sempre. Isso me excitava um pouco também. O que para mim era preocupante, porque eu já tinha começado a pesquisar sobre essa vontade de ser mulher e se excitar ao vestir roupas femininas geralmente queria dizer que você não era uma “trans de verdade”, mas uma travesti. E eu não queria essa vida de Batman pra mim, de dia é Maria, de noite é João. Depois de um tempo o corpo foi desenvolvendo músculos e perdeu a forma andrógina. Nunca mais me “travesti” depois disso.

Com o passar dos anos havia épocas em que o desconforto e a irritação de ter que viver em um corpo masculino voltavam com força, e eu pesquisava mais sobre o assunto e outras épocas que eu “esquecia”. Eu reparei, depois, que quando havia algo novo ou muito excitante na minha vida eu me conformava e quando voltava ao normal eu caía em depressão novamente e me sentia perdida, querendo mudar. O sentimento de “eu queria era ter um vestido lindo ao invés dessa blusa social e esses sapatos porcaria” quando eu ia à formaturas nunca sumiu de verdade, mas parecia ser afogado em meio a outros.

Mas quando eu realmente decidi? Recentemente. Há uns quatro meses, na verdade. Não sei por que motivo exatamente, mas bateu uma depressão mais forte do que nunca. Além disso, minha condição financeira melhorou muito desde uns anos atrás e, olhando para o futuro, eu conseguia vislumbrar a transição. Tem também o fato de que uma situação forte pendente na minha vida foi resolvida e muitas preocupações que pareciam permanentes, sumiram. Foi um conjunto de coisas. Mas muito importante também foram as conversas com meu psicólogo. Mesmo ao começar o tratamento eu ainda tinha dúvidas. Conversando com ele, e me sentindo progressivamente mais confortável em seu consultório e me deixando agir naturalmente eu fui percebendo como, embaixo de uma crosta enorme de atuação, desconforto e fingimento, eu posso ser uma menina feliz. Provavelmente, sem essas sessões, eu não teria certeza até hoje. Talvez tivesse desistido mais uma vez como nas outras dezenas de vezes.

Então, voltando à pergunta que abriu essa sessão… ou é extremamente óbvio que você não tem gostos nem comportamentos do seu gênero biológico desde a infância ou você tem que se descobrir sozinha. Sozinha em termos. Está com dúvidas? Fale com um psicólogo. Não tem dinheiro? Entre para o programa do SUS, eles tem psiquiatras (vou entrar em mais detalhes sobre isso mais para frente). Se tiver a chance, conhecer alguém realmente muito mente aberta, amigo, parente, converse com ele ou ela. Se abra. Se abrir e trocar ideias é a única forma de confirmar sua identidade, sua personalidade que fica esquecida e camuflada no dia-a-dia.

Ok gente, hoje vou parando por aqui senão metade da audiência vai fugir só de medo. Hoje foi mais a parte psicológica e histórica da coisa, o próximo vai se concentrar na relação com os parentes e amigos durante a transição e começar a detalhar o que é a Terapia de Reposição Hormonal para transexuais.

Beijinhos,
MayB