3 de fevereiro de 2012

E Quanto ao Resto do Mundo?

Bom, esse post vai sair um pouco antes do planejado pois final de semana eu estarei a maior parte do tempo sem conexão, fazendo uma pequena viagenzinha para o meio do nada. Aqui tratarei de dois assuntos. Primeiro, a relação com as pessoas próximas quando uma trans decide falar pra todo mundo o que vai fazer, o que sente, o que é. Depois começo a falar do tratamento hormonal relacionado à transição.



Saindo do Armário


Outro termo que eu não gosto, mas como a ideia dos títulos é facilitar a busca de assuntos específicos eu usarei este mesmo.

Eu contei para as pessoas ao meu redor progressivamente. Como eu disse, tinha crises de depressão, e chegava a me enfiar no quarto, chorar por dias e ficar quietinha sem falar com ninguém. Às vezes isso era percebido. Em crises como essa, com direito a tendências suicidas e tudo mais, foi que contei, uma vez para minha mãe e a outra para minha avó  Para a minha namorada eu contei há anos, pouco depois de nos conhecermos. Ao pai, eu chamei para almoçar e contei, começando com um papo de “Pai, você sabe o que é transsexualidade?”. E dai pra frente.

Muita gente tem dificuldade nessa hora. Talvez você tenha uma família de mentalidade infantiloide e reduzida, viva com pessoas preconceituosas. Nesse caso tente contar somente àquelas pessoas que precisam realmente saber e têm mais chances de aceitar. Talvez um parente mais inteligente possa ajudar a explicar a um menos compreensivo. Talvez você tenha que ir morar com outros parentes ou mesmo achar amigos e um trabalho para se sustentar sozinha. Isso nem é o fim do mundo, nem pouco comum. Infelizmente a maioria das pessoas no mundo é completamente idiota. Não fique desesperada pensando que não terá dinheiro para transicionar caso você se mude. Lembre-se, os hormônios, o acompanhamento psicológico e a SRS são oferecidas pelo governo, então você tem tempo para juntar seu dinheirinho e efetuar os procedimentos estéticos secundários, mas já da pra começar sem gastar nada.

Fica a dica, se você estiver precisando conversar o assunto com alguém e não encontre ninguém próximo a quem você possa confiar essa informação, nós sempre existiremos, as outras meninas-em-formação espalhadas pela net. Inclusive há um fórum reunindo topo tipo de transexuais e pessoas próximas, em inglês, onde troca-se ideias relacionadas a absolutamente tudo sobre a transição. Pelo menos 50% de todas as minhas informações eu peguei de lá ou de pessoas que conheci lá. http://www.susans.org/forums/index.php. Vale muito a pena visitar e frequentar.

 E a nossa paz de espirito, como conseguimos?

Uma trans, ou um trans, nunca será plena e feliz sem fazer a transição, é simples assim. Muita gente consegue viver essa vida falsa e treinada por décadas e faz a transição depois dos 50 anos, quando já tem família formada e já se aposentou. Eu tinha tendências suicidas fortes, e passou a ser uma questão de “Independência ou Morte”, até que um dia me deu #aloka, e eu decidi deixar de ser vítima e ser a heroína da minha própria historia. Para deixar claro, a transição é um conjunto de remédios que você toma, profissionais que você fala e treinamentos pelos quais você passa para, quando pronta, passar a viver seu dia-a-dia como uma mulher plena.

Se você sabe e sente o que é, não deixe de fazer as coisas. Corra atrás sim. Procure um psicólogo. Ache um endocrinologista. Como? Se você tiver plano de saúde, pode usar profissionais de lá. Se não tiver, pode usar os serviços públicos. Cada uma de nós que faz ou fez a transição tem conhecimento de algumas pessoas a indicar. Mas não empurre isso com a barriga. Se eu tivesse feito isso desde o começo, durante a puberdade, eu não teria barba, não teria recessos (entradas) no cabelo, nem calçaria 41,5. E já teria curtido muito a vida como mulher. Mesmo assim, se já estiver tarde na sua vida, não pense ‘ah, já que não posso ser uma mulher perfeita não vou ser nenhuma’. Também não funciona. Você tem que fazer o melhor que puder fazer a partir do momento que decidir fazer. Repetitivo, mas é exatamente o espirito da coisa. Uma hora você vai desistir de fingir, e vai ser ainda mais tarde. E se você conhecer alguém que suspeita estar nesta condição, pode tentar contactar a pessoa dentro do nível de intimidade que possui com ela. Se for um parente seu você tem a obrigação moral com a felicidade dessa pessoa de apoiá-la e ajudá-la em tudo que for capaz. E nunca, nunca diga "eu respeito sua opinião, mas se  fosse pra eu escolher, você não faria isso".

Se você tiver medo das mudanças irreversíveis dos hormônios e das cirurgias, não importa. Comece a conversar com um psico-qualquer-coisa que entenda do assunto. Aliais, é importante que o profissional tenha treinamento e conhecimento no assunto, ou ele não poderá te ajudar. A analise é fundamental por dois motivos: se você não tiver certeza, é ela que vai te dar, seja afirmativa ou negativa. Se já tiver, é esse procedimento que vai lhe permitir descobrir sua identidade transgênera por completo, afinal, ela esta enterrada em uma casca de atuação teatral, e essa casca não sai sozinha. Se parece com descobrir um talento profissional. Mesmo talentosa, você ainda tem que treinar muito para ser uma profissional de respeito.

 O Papel da Família e dos Amigos

Apoiar. Isso é obvio, em qualquer situação, mas precisa ser dito porque muita gente esquece-se desse papel quando aparecem condições ‘especiais’. Do tipo ‘ah, eu apoio tudo, menos se virar viado ou mulher’. Desculpe, se esse é seu caso, enfie-se numa vala e morra, porque você nem é parente nem amigo de ninguém. Apoiar quando é fácil até o vizinho faz em uma conversa de elevador.

Mas importante também é lembrar que ‘apoiar’ não é sinônimo de dizer ‘sim’ a tudo. Se a pessoa não quiser ter acompanhamento psicológico, convença-a. Se quiser se automedicar, aconselhe-a (note que eu não falei negue-a, e explicarei o porquê depois). Ah sim, e se ela quiser se matar, impeça-a. Não importa o quão difícil seja a ideia de viver, só há esperança enquanto há vida. E a vida tem coisas lindas para aproveitarmos.

A seguir, vou falar da transição em si, do processo de seguir sua vida como membro do outro sexo. Veja que eu sou uma MTF (Male to Female), ou seja, meu gênero biológico é masculino. Isso com certeza influencia em meus julgamentos e opiniões, então leve este fato em consideração.

HRT – Tratamento Hormonal

O que é

Hormonal Replacement Treatment é um termo usado também para o conjunto de medicações que uma mulher toma após a menopausa e, possivelmente, em outros casos. Mas aqui fala-se da HRT especifica para a transição MTF. Resumidamente, a HRT MTF é um conjunto de hormônios femininos e drogas inibidoras dos hormônios masculinos que você tomará o resto da vida para simular a produção hormonal natural de uma mulher. A minha custou R$310,00 para no primeiro e R$318,00 no segundo mês e deve se manter nesta faixa de preço. O SUS fornece tudo de graça.

Como Fazer

Primeiro de tudo, fazer o tratamento de forma acompanhada é a melhor coisa do mundo. Você fará exames de sangue, talvez outros, e terá seu “mix” hormonal personalizado ao seu organismo, de forma que as mudanças físicas ocorram o mais rápido possível e ao mesmo tempo você não prejudique seu corpo. Os remédios envolvidos nos procedimentos são de dois tipos: hormônios femininos e bloqueadores de hormônios masculinos. Eles todos vão sobrecarregar o seu fígado e podem causar todo tipo de efeitos colaterais, desde fazer você ir muito ao banheiro e sentir fraqueza muscular até ter problemas de circulação e no coração que podem lhe causar um AVC e te deixar retardada... ou morta.

No RJ, o procedimento todo, desde acompanhamento psiquiátrico aos hormônios e SRS, é oferecido por dois lugares. O primeiro é o IEDE, e o contato é o seguinte:

Ambulatório de Endocrinologia Especial (Transtorno de Identidade de Gênero) – Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE)
Rua Moncorvo Filho, 90 - Centro, Rio de Janeiro, RJ. CEP:20211-340
(21) 2299-9285 janelsms@terra.com.br

O site do IEDE tem mais informações. O lugar é surpreendentemente organizado, limpo e vazio para um serviço publico. Infelizmente, já faz alguns meses que eles não aceitam pacientes novas e não há data de retorno. A outra opção é o Hospital Pedro Ernesto, da UERJ. Nesse você precisa primeiro ir a um clinico geral qualquer do SUS e dizer que é transexual (se você disser que é transgênero ele provavelmente vai perguntar se isso é de comer ou passar no rosto) e pedir um encaminhamento ao hospital. Lá você terá que se dirigir ao setor de urologia, explicar novamente a situação e fazer uma consulta. Ele pedirá para você visitar um psiquiatra no próprio hospital e ser oficialmente diagnosticado como transexual antes de começar a tomar hormônios. Eu conheço uma menina que fez por lá e ela disse que leva uns 2 meses desde a consulta inicial ate o inicio do tratamento hormonal.

A alternativa é a receita “dormindo com o inimigo”. Automedicação. Nas capitais do Rio, São Paulo, Minas, etc, tem serviços públicos e privados que te ajudam com isso tudo. Mas e no interior? E no Amazonas? Tem gente que não tem opção. Então eu ponho essa informação aqui pois é o correto a se fazer, mas lembrem-se de uma coisa: toda automedicação é perigosa. Quando isso envolve mais de um remédio, além dos perigos intrínsecos a cada droga, há riscos de interação medicamentosa com possíveis efeitos catastróficos. Além disso ainda há o fato de que você estará usando remédios que não foram feitos para o que você procura. Por exemplo, um deles é usado para tratamento de calvície em homens ou tratamento hormonal de mulheres em menopausa. O outro é um diurético. Todos os efeitos de transição são, na verdade, efeitos colaterais. Perceba como na bula de um deles fala que o aumento da sensibilidade dos mamilos é um possível efeito colateral nas mulheres que o utilizem. Conclusão: esse é o pior conjunto possível de condições para você tomar isso tudo sem indicação médica.

Tendo dito tudo isso, apresento-lhes o mapa para o abismo. O site www.transgendercare.com é um site escrito por três médicos acostumados a cuidar de trans em diferentes especialidades. A informação contida é solida, mas como eles dizem, não substitui a consulta com um médico. Além disso, leve sempre em consideração o seguinte fato: é um site. Tudo que ele diz, ele que diz. E a prova mais concreta que você vai ter do que ele afirma... é o fato dele afirmar. Então, teoricamente, pode ser tudo um golpe, não? Um transfóbico tentando matar o maior numero de trans possível? Pense nisso. Eu arrisquei confiar nele, e comecei minha HRT com o programa que ele propõe. Logo no primeiro dia tive uma pequena overdose, palpitações cardíacas, queda de pressão e náuseas. Isso porque eu tomei o cuidado de não exceder nenhuma dose indicada. Fica a dica: se você for mesmo percorrer essa estrada tortuosa, comece com doses muito abaixo das indicadas e aumente-as de mês em mês, dando tempo ao seu carro a gás a se acostumar a processar diesel de avião.

Pronto, por hoje é isso. O próximo post falará sobre as mudanças que os hormônios causarão no seu corpo e sobre as cirurgias que estão disponíveis para melhorar ainda mais sua aparência. Será nesse post que voce descobrirá se uma trans pode ganhar seios ou perder barba somente tomando meia duzia de pilulazinhas mágicas por dia.

Beijinhos,
MayB