5 de março de 2014

PnP


PnP. Essa é a inscrição externa de nossa aliança de noivado, minha com a Gabriella. Essa abreviação tem vários significados, todos eles muito pertinentes a cada uma de nós e à nossa relação.

No 'Pen and Paper', um tipo de jogo parecido com uma peça teatral, todos se sentam em uma sala, cada um interpreta um personagem predefinido, e o "mestre" apresenta as situações adversas para os personagens resolverem. É uma questão de interpretação de papel importante, similar à atuação em um filme ou peça de teatro. A diferença é que o roteiro é escrito enquanto é interpretado. Nesse caso, o PnP se refere às diversas facetas que todos nós apresentamos durante cada dia da vida, todos os papeis que interpretamos, e como podemos abdicar disso completamente quando sozinhas uma com a outra, sendo totalmente naturais.

Plug and Play, ou "conectar e rodar", uma tecnologia de informática que se refere a periféricos - teclado, mouse, joystick, essas coisas - que não precisam de configuração, funcionam logo após o cabo ser conectado. Essa é uma referência a nossa química, que explode por vezes com o simples fato de eu voltar para o quarto e descobrir que seu vestido subiu poucos centímetros enquanto ela estava deitada, revelando o que não podia.

Peito e Pau... =P... acho que essa eu não preciso explicar.

Pain and Pleasure. Dor e prazer. Essa é a mais importante. Eu achei essa frase buscando imagens da Poison e da Juri - as personagens principais no Street Fighter minha e dela, respectivamente, e encontrei uma no DeviantArt com um comentário contendo somente isso. "Pain and Pleasure". Faz perfeito sentido, dada a sensualidade da personagem Poison e o sadismo da Juri. Mais pertinente, no entanto, foi o fato de que nós duas já compartilhamos os maiores sofrimentos - e as mais poderosas realizações - que estavam em nossa mente. Por um lado, representa a sinceridade e a transparência total. Por outro, um voto personalizado de "na saúde e na doença". In pain and in pleasure.


Gabriella Mendes, a menina com a qual vou me casar. Para quem tem "Jana" na cabeça como o nome da minha parceira, deixa eu explicar. Nós terminamos ano passado. Havíamos terminado pela primeira vez em 2012, quando fiz minha transição. Passei a namorar uma menina da faculdade meses depois, com a qual fiquei 5 meses. Nesse meio tempo, Jana voltou para minha vida e passei um tempo com as duas. A nova, no entanto, não tinha a menor mentalidade poligâmica, e logo não conseguiu mais ficar comigo. Ficamos eu e Jana até o meio desse ano, quando terminamos. Agora estou só com a Gabriella, e Jana só com um rapaz que conheceu através de mim. Eu e Jana guardamos um carinho recíproco inestimável, que certamente nos acompanhará pelo resto da vida, a qual não pretendo passar muito distante de alguém que me é tão especial.

Tecnicalidades e depressões momentâneas a parte, estamos felizes agora. Eu olho para essa morena linda deitada a um metro de mim, enrolada nas minhas cobertas, largada tranquila e nua em minha cama, e sei que tenho com quem contar pelo resto da minha existência. Os beijos que me arrepiam os pelos do corpo inteiro, tiram o ar dos meus pulmões e aceleram meu coração, me dão a certeza de que eu tive a maior sorte do mundo. É a coisa mais valiosa da vida, você amar, ser apaixonada, e se acender em chamas pela mesma pessoa. E é com esses e mais uma lista infinda de motivos em mente, que estamos nos preparando para morarmos juntas ainda esse ano.

Nos conhecemos, na verdade, em 23 de maio de 2012. Ela, como tantas outras pessoas, me mandou um e-mail simplesmente por ter lido o meu blog e querer me conhecer. Confesso que tinha de 0 a -5 interesse na época, já que estava com a menina da faculdade e completamente cega a possibilidades externas. Eu respondi o e-mail mais por achar divertido o interesse de pessoas tão aleatórias em mim do que por qualquer outro motivo, e começamos a conversar sem grandes pretensões. Saímos alguns meses depois, fomos no Rota 66 da Tijuca com uma amiga dela, mas como ela mesma não me deixa esquecer atualmente, eu mal parava de responder mensagens da namorada na época. Eventualmente, o assunto acabou e o contato morreu. Quando pintei o cabelo de rosa pela primeira vez, ela veio me pedir o contato do colorista, e voltamos a conversar. Na mesma semana ela veio no Shopping Tijuca, aqui do lado, comprar o presente da chefe, e eu que *NUNCA* saio de casa aleatoriamente com alguém, resolvi simplesmente dizer que ia acompanhá-la depois da academia. Assim fomos.

Primeiro almoçamos no Gula-Gula, um dos meus restaurantes favoritos, por que eu tinha acabado de malhar e estava morrendo de fome. Lembro dela se distraindo com meus seios enquanto eu falava, vê se pode? E a recepcionista do restaurante, com um cheiro de couro que podia ser sentido da escada rolante, pescando umas olhadas entre um cliente e outro também. Depois fomos procurar um scarpin como presente, e por caminhos tortuosos de conversa, a convenci a procurar um óculos escuros para si também.

Confesso que passei a tarde toda de charminho. Nas oportunidades que tinha, fazia questão de parar o mais próximo possível de seu ouvido antes de dar uma opinião. De preferência a uma distância que minha respiração pudesse ser sentida em seu pescoço, e minha voz reverberasse baixa e grave. Crucifiquem-me, meu relacionamento da época era aberto. O melhor foi Gaby me contar meses mais tarde que passou o tempo todo se perguntando se o flerte ela imaginação dela ou de verdade. ACORDA, MIA FIA, A JIRIPOCA JÁ QUERIA PIAR FAZ TEMPO, PÔ. *Cof*, enfim. O dia acabou com eu tentando dar um beijinho na trave e sendo agarrada para receber um beijo na boca. Em frente à Saens Peña, uma praça super movimentada.

Aquele beijo me mostrou coisas que eu precisava muito saber. Primeiro, a sensação indescritível deixou claro o que eu queria. Segundo, a atitude aparentemente repentina dela deixou claro o que ela queria. Terceiro, e talvez de maior peso que os outros fatos, ela não tinha vergonha de ser vista com alguém socialmente feminina na frente de sabe deus quantos indivíduos quisessem ver.

É engraçado olhar para trás agora e lembrar de uma época que nos víamos 2, 3 vezes por semana, quando agora só não estamos juntas quando ela está no trabalho. Eu lembro bem de quando ia para casa dela pensando triste que tinha hora para voltar. De quando a mãe achava que éramos somente boas amigas, e não carregava no olhar a preocupação compreensível de sua filha querida, que sempre havia se relacionado com homens, estar planejando o futuro com uma travesti. Lembro de quando, sentadas em sua cama, em resposta a alguma piada que deixava óbvio o encontro de almas, eu dizer "cara, eu acho que eu te amo". Lembro de ela rir durante algo em torno de três segundos até perceber as lágrimas em meus olhos e a seriedade em minha palavras, e me perguntar com os olhos brilhantes de choro mais lindos do universo, "é sério isso??" Lembro de montar, em sua cama, a armadura de um Cavaleiro do Zodíaco seu, da qual eu tinha quase uma dezena quando criança. Lembro das primeiras vezes que jogamos no PS3 juntas e eu me encantei pelo fato de poder dividir esse hobbie tão pertinente a mim. Lembro do orgulho que senti quando fiquei sabendo que essa menina era mestrada, doutorada, pós-doutorada e pós-doutoranda em virologia, e de pensar que alguém de tamanha conquista acadêmica nunca se interessaria por alguém que nem a faculdade tinha terminado na época. Lembro de tão recentemente ela cuidar de todas as minhas necessidades em São Paulo enquanto eu me recuperava da segunda operação nos seios. Dos nossos passeios de bicicleta do Aterro do Flamengo até a Lagoa. De descobrir que eu podia ser desejada como mulher trans por uma mulher cis sem medo, sem preconceito, sem expectativas e sem limites. De descobrirmos que tínhamos as mesmas taras. E alguns dos mesmos medos em relação a vida. De irmos à H.Stern diversas vezes devido a problemas consecutivos com a manufatura das alianças, até elas serem trazidas de volta pra casa, de surpresa, e mostradas pra mim por essa menina linda, acompanhadas de um pedido de casamento.




E agora? Bom, agora eu sou tradutora. Trabalho para a Rajão e Athayde passando documentos de patentes do inglês para o português. Sou formada em Relações Internacionais, conquista a ser oficializada dia 23 próximo, pela Estácio. Agora sou noiva, e esperamos saber qual caminho profissional as pesquisas dela tomarão para, tendo precisão de nossos ganhos financeiros, poder planejar nossa moradia independente. Agora sou ansiosa e temerosa pelo futuro que sairá de nossas próprias mãos, e não da de terceiros.

Já fui um menino deprimido, recluso, restrito a aulas de faculdade e tendo no computador a exclusividade de suas interações sociais, que mantinha uma faixada de homem, uma falta de perspectiva total de futuro, e um choro na garganta a cada chamada de "senhor".

Agora eu fico pensando qual nome darei a criança da qual seremos mães.