9 de julho de 2013

Declaração de Aposentadoria

- Mayra

Hoje, termino uma fase. Não é uma data comemorativa com nenhum significado especial, não é aniversário de ninguém - nem de nenhum relacionamento - é só o dia no qual eu veio anunciar o fim da minha participação constante no Trans.parência. Isso ocorre simplesmente porque sua função para mim se extinguiu. Veja.



O blog foi criado inicialmente com o propósito de externar sentimentos. Para simplificar, eu tinha muito a dizer e gostaria de ser ouvida. Com o tempo e a angariação de maior público, ele se tornou uma ferramenta ideológica. Eu queria facilitar a vida de tantas trans mostrando o que eu havia conseguido e, portanto, o que elas mesmas poderiam também conseguir. Fazia isso com a simplicidade do cair da chuva, contando minha história, minhas conquistas, e expondo os obstáculos no meu caminho. Falando da transição. A questão é que, como a própria palavra faz presumir, a transição é algo temporário, uma fase entre fases. E a minha se encerrou tem um tempo já.

Ele era, no começo, só um link do portal LesMonde. Esse era um site da minha prima Jéssica e de seu namorado criado para o mundo lésbico - algo comumente deixado de lado quando tão grande parte da internet se focava somente no mundo gay masculino. Quando ela soube de minha história, me convidou para escrever no portal. Ele precisava de público e eu tinha boa vontade - e pertencia ao grupo. Afinal, se queria fazer a transição mesmo gostando de meninas, concluímos juntas que eu era uma lésbica. Certo?

O nome "trans.parência" veio de um concurso publicado na página do facebook do LesMonde. O pedido era que as pessoas dessem uma ideia de título e, aquela que criasse o escolhido, ganhava em troca um cesta de produtos eróticos. Sim, falando assim a ideia parece ridícula, mas na época, fazia sentido. O portal já tinha uma certa ligação com sex shops também por ser um assunto pouco comentado normalmente: o consumo de produtos eróticos por casais lésbicos. No fim das contas, a minha sessão do portal tinha mais público que o resto dele, e eu me senti limitada pelo escopo de um site que não estava crescendo enquanto minha imagem pública estava. Sai, criei meu próprio domínio, mudei o Trans.parência de casa. Vim pra cá.

Já aqui, criei uma página no Facebook pra ele. Ela aparece ali, à direita, com um botão apropriado de "curtir". Lá fica - bom, ficava - mais fácil de acompanhar os posts do blog, pois muita gente já permanece o dia inteiro logad@ na rede social de qualquer forma. Tirei a ideia do próprio LesMonde que, como disse, possui similar representação azulada. Criei também um canal no Youtube, que pode ser acessado na barra superior da página, abaixo do título. Essa criação, que veio do tédio da espera da recuperação da cirurgia facial em São Paulo - o que me fez passar o tempo gravando meus primeiros vídeos, com as impressões e emoções que sentia com o passar dos dias - contém, atualmente, vídeos progressivos falando de sensações relevantes para a transição. Dando uma cara aos textos e pensamentos daqui, digamos.

Com o passar desse um ano e meio de blog e de transição, ganhei e perdi muita coisa. No dia 11 de abril de 2012, quando mudei meu nome e gênero no Facebook pessoal e sai de Mayra pela primeira vez de casa, eu tinha 146 amigos no meu perfil. Cento e quarenta e seis. Hoje, nesse exato momento, eu tenho redondos 800 amigos, mais 883 seguidores. Números por números não valem nada, mas no meio dessa gente toda, eu conheci muitas pessoas de grande relevância emocional pra mim.

Conheci trans de todos os tipos físicos, convicções e mentalidades. Com algumas delas, compartilhei angústias muito íntimas, e ouvi as que elas tinham eu seus corações. Duas delas - só elas, até hoje - a relação foi além da amizade. Uma outra, uma das mulheres mais lindas que conheço, a qual foi inspiração estética e filosófica, e tem um lugar reservado em minha cama quando vier conhecer a cidade. Conheci também o único rapaz com o qual até hoje fui pra cama e com o qual fiz meu único threesome. Descobri muita transmulher lésbica, muito transhomem gay, conversei com Maite Scheinder, João Nery, Marcelo Pedreira, Carol Marra, e outras pessoas que tem sua influência de alguma forma no meio trans. Por causa do blog, e dessa micro-popularidade, conheci meus dois romances mais recentes. A primeira, uma menina cis que comecei a namorar logo após a transição e com quem fiquei algo em torno de cinco ou seis meses (e quem me deu as primeiras flores que recebi na vida, uma história que conto em um de meus vídeos), e a segunda, uma morena linda e inteligente, a qual tenho muito orgulho de estar junto agora. Menina que conheci por me mandar um simples e-mail querendo bater papo, sem a menor pretensão. "Vi seu blog e te achei legal". Algo nesse ritmo. E por quem comecei a me apaixonar ao acompanhá-la no shopping para comprar presente para uma amiga dela.  Vê se pode.

Conheci senhoras fazendo a transição na casa dos 40, dos 50. Conheci tantas trans pré-adolescentes, angustiadas com 14, 15, 16 anos, com pais intolerantes e esperando ansiosa e nervosamente completar 18 anos, ter sua própria renda e começar a transicionar. Acompanhei transições, como a de Leina, que agora escreve aqui pro blog, a de Carolina Matsumoto, que conheci menininho andrógino ainda, Aline, para a qual doei algumas roupas... aliás, recebi muita doação também. Jéssica Monstans, que até então era somente uma menina linda no meio dos meus contatos com a qual eu não tinha muita coragem de falar, passou a ser alguém com quem eu trocava palavras e de quem recebi algumas doações de roupas muito importantes nos meus primeiros meses de Mayra. Eugênia, que conhecia alguém que conhecia a Jana - minha namorada mais antiga - foi outra doadora que salvou minha vida, outra pessoa que tive o prazer de conhecer pessoalmente. Certamente há muitos outros nomes, mas não vou nem tentar trabalhar meu Alzheimer para lembrar, não vou conseguir, e peço perdão antecipadamente por isso.

Nesse meio tempo, meus olhos se abriram pra muita coisa. Se abriram para a nojeira do machismo, que tenta ceder ao homem o direito sobre o corpo da mulher, que usa a homossexualidade como ofensa contra Justin Bieber e seus trejeitos femininos, que ataca Ronaldo por ter estado na cama com uma travesti. Se abriram para o derrotismo nacional, que faz do brasil a pior terra pra se nascer no mundo, quando sua população tem sequer a menor ideia de como é viver no congo, na somália, na nigéria. Sim, propositalmente com iniciais minúsculas. Se abriram igualmente para o feminismo, para a compreensão, para a paciência. Para a ideia de planejar antes de agir, de considerar antes de decidir, de calar antes de falar. Se abriram para parentes e amigos que se demonstraram poços de nojeira, e outros que igualmente me surpreenderam com inteligência, bondade e carinho.

Esse ano e meio me mudou muito. Não só fisicamente, apesar dos cabelos rosas e dos novos seios - industriais - e glúteos - hormonais - serem mais facilmente perceptíveis que as novas convicções, mas em todos os sentidos. Me permitiu ajudar e, vez ou outra, infeliz mas indubitavelmente, atrapalhar transições alheias e desenvolver uma maturidade que percebo numericamente incomum em pessoas de nossa idade. E me possibilitou, felizmente, conhecer pessoas de similar conquista e me juntar a elas.

Sou muito agradecida por todas as coisas e pessoas que ganhei, e todas as que perdi no caminhar dessa estrada. Mas agora ela acabou. Ela, que era o propósito do blog, termina e vira história, que me forma, mas não faz parte do meu presente. "Cansei desse papo", numa prolixidade plebeísta ecoada e neologista. As perguntas que me enviam virtualmente são repetitivas e desnecessárias. Todas elas já estão elaboradas em algum ponto do blog que possui, no canto superior direito, uma barra de busca surpreendentemente pouco utilizada. O que eu podia passar para vocês que lhes auxiliaria, já está publicamente exposto, e assim permanecerá. O blog certamente ficará no ar. Mas não tenho nada a adicionar. Só rimar.

Futuro. O que eu penso pro meu? Primeiro, devo me formar no fim desse ano, finalmente. Concluindo o quinto ano no curso de Relações Internacionais, e o sétimo em faculdades somando os dois de Filosofia na UERJ, agora só me falta a monografia e meia dúzia de matérias para o fechamento do curso. Devo participar do Miss T Brasil 2013, talvez. Estou inscrita, estou entre as meninas selecionadas, mas reflito se pertenço a esse mundo. Mayra, que anda de tênis e bota ao invés de sandálias, altas ou baixas, desfilando em uma passarela? Sei lá, veremos. Pretendo sair do país. Talvez a essa altura, no ano que vem, esteja nos E.U.A.. Não por alguma preferência ou idealização de uma nação que tem tantos prós e contas como a nossa própria, mas simplesmente por oportunidade e acasos na vida. A tirada do passaporte já está em processo, e deve se concluir em setembro. Pretendo fazer mais tatuagens. "Mais" por já ter feito a primeira, que será retocada e ampliada antes que uma foto sua seja ecoadamente novamente publicamente postada. Por fim, pretendo finalmente perder a vergonha na cara e começar a trabalhar. Afinal, esse tempo todo eu tenho me sustentado com uma pensão alimentícia paterna que termina ao fim do curso superior. Necessidade tem um parentesco com a invenção, já ouviste falar?

Para concluir, deixo os resquícios de posts natimortos. Rascunhos que aguardavam seu nascimento, agora abortados. Veja.

*****

"Cotas para Trans" iria discursar sobre a história contada neste link, que propõe a existência de cotas para pessoas transgêneras em faculdades e escolas públicas, justificadas pela dificuldade de acesso dessa parte da população à educação formal.

"Dez Conselhos" iria falar sobre este post interessantíssimo, escrito também por uma menina trans se despedindo de sua presença virtual, aonde ela passa - obviamente - dez lições que ela aprendeu com o passar do tempo de transição e que gostaria de ter sabido antes de iniciá-la.

"Lawrence Anyways" seria o título de uma postagem com as minhas opiniões sobre o filme de mesmo nome. O que continha sua página, até o momento, era exatamente isso:
bom - musica clássica, diferente. Fato de mostrar o que os personagens estão pensando e sentindo ao invés do que está acontecendo. 
ruim - transição mal feita, choque desnecessário, demissão, abandono, mentira no relacionamento, transição, tudo mal preparado, mal feito. Evitável. Avoidable. Problemas criados à toa. Ridicularização das trans. Showbizz, Roses.
E por fim, "Momentos de Amor" iria ser um post cômico mostrando curtas conversas com minha alma-mais-que-gêmea, Jana, onde amor eterno e leveza de espírito geravam situações inusitadas. Seu conteúdo era tal:
 Durante um almoço, na cozinha de casa, lembro de algo que me ocorre e exponho à namarida: 
- Amor, será que eu sou feia e fico me achando bonita porque todo mundo fala? Tem umas meninas no face que põe um monte de foto e são feionas...
- Tu não ganha um monte de like e comentário nas fotos?
- Sim, mas proporcionalmente ao número de fans, elas também.
- E você acha que tem fans porquê, por ser inteligente, falar bem? lol
... : (
----- 
Escolhendo roupa para andar na Lagoa, algo para fazer exercícios mesmo. 
- Então o seu problema é em eu mostrar a barriga?
- O meu problema é você usar top, roupa de putinha.
- Mas eu sempre vou de top pra academia.
- Eu sei.
...
*Pega uma blusa pra por por cima do top*
- Que você acha?
- Tá ótimo.
- Pô mas não mostra barriga, peito, nada, some tudo.
- Perfeito.
...¬_¬
-----
- Amor, agora que eu pintei o cabelo, será que ele um dia vai voltar a ser hidratado que nem o seu?
- Seu cabelo *nunca* foi igual ao meu. 
----- 
*envia uma foto*
- q vc acha da roupa?
-ta otima, minha sapinha
Heuehehehehehe
-lol, vai tomah no cu
:C
- Hehe mas eh roupinha de sapa
Mas ta linda 
----- 
*Baixa um filme alternativo com áudio em inglês.*
- Preciso achar legenda pra esse filme agora.
- Vê sem legenda, deixa de ser burra.
- ... Olha aqui, ô sua vagabunda... 
----- 
De saco cheio de ver tv, me preparo para desligá-la quando começa um episódio de Two and a Half Man. Logo no primeiro bloco aparece uma gostosinha alternativa com cara de sapinha. Abaixo o controle e solto no sofá. 
- Ah, agora você quer ver, né, vadia?
Enfim. Acabou. Talvez eu apareça esporadicamente para citar algo muito relevante ao universo trans, ou uma experiência muito chocante para mim? Talvez. Mas se for esperar, deita, pega um colchão e um cobertor quentinho. Vai demorar. Enquanto isso, Leina deve dar as caras arritmicamente, e cada uma vai vivendo sua vida no ponto central entre desejo e possibilidade.

Feliz transição à tod@s. Foi um prazer.


Beijos,
MayB