5 de junho de 2013

Ajuda cis!

- Por Leina D. Ziur Alpha Release IV

Olá pessonhas!

Eu sempre tento deixar claro para as pessoas que eu conheço que, caso tenham alguma dúvida sobre minha transição de gênero, podem me perguntar à vontade, contanto que perguntem com respeito. Por mais que não deva satisfação a ninguém, eu entrego para mim (e para mais ninguém) a responsabilidade de acabar com certos tabus que, certamente, causam mais da metade dos problemas sociais que nós todxs temos em relação aos nossos gêneros e orientações sexuais.

No entanto, algumas pessoas não conhecem onde acabam os limites do respeito e do espaço pessoal. Mas já estamos carecas de saber das pessoas que ULTRAPASSAM os limites, então vamos falar das que pecam pelo lado oposto: as que não perguntam com medo de magoar e acabam ficando cercadas num mar de tabus e ignorância.

Minha melhor amiga Nádia, que é uma garotinha cis linda, acaba pagando o pato de responder o que as pessoas não têm coragem de perguntar para mim e, justamente por ela ser cis, ela ouve coisas sobre mim (e minha transição) que eu não ouço, justamente pelos tabus. Então, fiz uma breve entrevista com ela pra tentar descobrir quais são as dúvidas e opiniões sobre trans*, de cis para cis.

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Primeiro, um pouco sobre a moça:

Nádia, há quanto tempo você me conhece?

Bom, de acordo com o Facebook, eu saí da ETE (escola onde nos conhecemos) em 2008, mas te conheço desde antes disso, então vamos chutar aí uns 6 anos.

Há quanto tempo você sabe que eu sou trans? 

Taí uma pergunta difícil. Foi uma transição muito gradual e suave (pelo menos na minha cabeça), longa e com muitos estágios (hetero > bi > crossdresser > tranny jokes > actually trans), então não houve momento nenhum no qual eu tenha dito “CARAMBA, A DANI É TRANS!?”. Então não sei, eu provavelmente sei que você é trans desde o dia em que você descobriu que era trans.

Qual foi sua reação inicial ao saber sobre mim?

Honestamente, não foi nada radical porque eu tinha suspeitas desde o seu primeiro crossdress. Várias vezes você vinha contar algum detalhezinho cheia de culpa, e a minha reação era um sorriso e “Ah, verdade? Finge que eu estou surpresa”.
Foi um sentimento muito bom porque eu via você ser mais honesta consigo mesma a cada passo.

O que você sabia sobre trans* antes disso tudo acontecer?

Nada. Eu admito que era uma leiga completa, que achava que transexual, drag queen e travesti era tudo a mesma coisa. Eu só fui começar a aprender depois e ainda estou aprendendo e descobrindo coisas novas todo dia.

Agora, vamos ao ponto principal. Quais são as dúvidas que você mais ouve sobre trans*?

90% das pessoas começam a conversa com o mesmo papo: o artigo. “Eu não sei mais se uso ‘o’ ou ‘a’...”. Eu acho engraçado que essa seja a questão que gera mais dúvidas, pra mim parece óbvio que se uma pessoa se veste como mulher e age como mulher, ela provavelmente quer ser tratada como uma. Mas aparentemente isso ainda gera muita confusão pra quem não está familiarizado com essa maneira de pensar.

Qual parece ser o assunto mais complicado para as pessoas cis entenderem?

Que trans também podem ser hetero, bi ou homossexuais. Isso dá  um nó desgraçado na cabeça da maioria das pessoas. Muita gente ainda parte do princípio “menina fica com menino”, imediatamente assumindo que uma trans MtF obrigatoriamente NÃO gosta mais de meninas e ponto final.
O nosso cérebro está muito acostumado com preto-e-branquismo, ou é uma coisa ou outra, e isso só deixa as coisas mais difíceis quando falamos sobre transsexualidade e todos seus fatores envolvidos. Um ótimo exemplo disso é uma conversa que eu tive, que acabou se repetindo com várias pessoas:

Pessoa: “Então agora é “a” Fulana?”
Eu: “Isso!”
Pessoa: “Mas... mas... ela... tem namorada?”
Eu: “Ué, tem! Ela é uma garota lésbica.” *sorriso*
Pessoa: “Aaaaahhhhh!!!” *expressão de esclarecimento mais sincera que você consegue imaginar*

Às vezes um pequeno empurrãozinho é necessário pra ultrapassar certas barreiras. =)

Já ouviu perguntas "cabeludas"?

“E o namorado da Dani...—“
“Namorada.”
“Hã... a... Namorada da Dani é normal, ou?...”

- Pessoa anônima de boas intenções, tentando ser educada mas no fim chamando trans de anormais. Eu não resisti, admito que ri bastante.

Existe resistência da parte de algumas pessoas?

Eu sinto uma certa resistência por parte de algumas pessoas, sim. Não estou nem falando de pessoas mais velhas, parentes, pais ou etc; Eu compreendo que estes tenham uma certa resistência porque a criação, educação, o modo de pensar deles, foi tudo muito diferente de nossa geração.

Fora isso, em termos de amizades/círculo social, às vezes eu observo uma certa hesitação por parte de algumas pessoas. Existem pessoas que realmente se esforçam em aceitar a transição, lidar da melhor maneira possível, se adaptar ao novo artigo e modo de tratamento, etc, e algumas pessoas simplesmente não o fazem. Talvez por costume, talvez por medo do desconhecido/incredulidade.

Algo interessante que gostaria de acrescentar?

Na minha opinião, o maior problema é a falta de informação. Muitas pessoas não sabem exatamente o que significa alguém ser trans. “Isso é uma opção sexual? Foi escolha dela? É uma fase de rebeldia que vai passar?” Ainda se tem uma imagem um tanto quanto superficial e fútil sobre o assunto, por que infelizmente julgar é muito mais rápido e fácil do que se informar.

Eu acredito que o aprendizado traz a compreensão e o respeito, por isso sempre compartilho links, artigos e vídeos interessantes sobre isso nas redes sociais. Se eu conseguir trazer ao menos um pouco de esclarecimento às pessoas ao meu redor e, consequentemente, um ambiente com mais compreensão e igualdade para minha melhor amiga (que é  trans), então estarei feliz.

Informações para contato? Ask.fm? 

Le Twitter: https://twitter.com/Axl_Rosie

Ask.FM: http://ask.fm/axlrosie

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Por essa entrevista da pra notar que muitas pessoas mantém seus tabus por medo do desconhecido, não por maldade. Apesar de estarmos sempre abertas a esclarecermos tudo "o maior problema é a falta de informação" como dito pela Nádia, mas como responder perguntas de quem tem medo de perguntar? Acho que teremos que contar com o suporte de amigxs cis que sejam pacientes por um bom tempo ainda.

Até a próxima!

-Por Leina