17 de junho de 2013

A Liberdade da Prisão

- Mayra

Esse post elabora um pouco melhor a história da menina do Acre que eu mostrei há algum tempo.
"Para começar a falar sobre como me assumi no trabalho fico sem graça de falar, pois foi tão natural. Vou começar sobre a o entendimento que eu tenho sobre mim mesma desde a infância, espero que tenha paciência para ler.

Na infância eu não tinha desejos sexuais por homens obviamente, porém afetivamente sim. Desde pequena dei sinais de que era especial. Nasci em um lar e família católica, de pouca instrução, minha mãe é empregada doméstica, filha de seringueiros, e não possui a segunda série. A minha família toda percebia que era especial e fazia de tudo para reprimir meu comportamento feminino. Como eu sei ou lembro-me disso? Fui forçada a criar a comportamentos masculinos. Desde pequeno ouvia desaforos de minha mãe, que me ama muito a pesar de tudo, e dos outros membros da família. Frases como “cria jeito de homem”, “esse menino parece baitola”, “viadinho”, entre outras, faziam parte do meu dia-a-dia desde os meus cinco anos de idade pelo que me recordo. Minha mãe sempre nos criou só pois meu pai resolveu traí-la e trocá-la por outra.


Quando comecei a frequentar a escola, minha mãe sabendo que eu era sempre mais sensível que meu irmão mais velho, me matriculou na mesma escola que ele para que ele cuidasse de mim. Eu sempre chorava com as agressões dos meus colegas. Minha mãe me conta ate hoje que eu sempre chorava nas aulas até quarta série, sempre ela ia lá à escola saber por que eu chorava, a razão você já sabe.

Nunca podia me encaixar com quase ninguém, para falar a verdade não tenho amizades do primário. Isso se devia ao fato de: se eu brincasse de boneca com as meninas (o que fazia sozinha e escondida improvisando-as) me chamariam mais uma vez de “baitola” (rsrsrsrsr) e a muito custo eu tentava me encaixar com os meninos, porém as brincadeiras deles não me agradavam, falavam de namorar meninas, enfim não era masculina o suficiente para gostar de ser, para convencer que pertencia ao grupo ou para suportar. Tinha o grupo dos gays sim, mas o preconceito familiar me impedia de me relacionar com eles, acabava por tudo ao meu olhar sobre eles ser envolto em perversão. 
Fui aprimorando minha atuação masculina beirando o ridículo da minha voz, mais suave, tentando ser áspera como a de um homem. Nunca convenci como homem ou como hétero. Qualquer pessoa que comigo convivesse e fizesse parte do meu círculo de amizades perceberia que eu não era quem dizia ser. Restou-me o ostracismo, sendo este meu aliado para encobrir a mim mesma. 
Fui crescendo com tudo isso que já citei. Tive complexo de Electra e não de Édipo, isso com as tentativas de maridos que minha mãe fazia. Desejo e fantasia de me tornar uma mulher sempre me acompanharam desde minha infância. As vezes eu, criança ainda, tentava empurrar minha genitália pouco desenvolvida para se tornar que nem das meninas. Aos poucos fui compreendendo como era o meu corpo e que naturalmente isso não ocorreria. Fui arrefecendo cada vez mais minhas esperanças de conviver socialmente como uma mulher. 
Todos falavam ao meu redor que pegavam fulano, sicrano e beltrano(a). Eu nada né porque se o fizesse estaria minha farsa acabada. Restavam-me além da vida social os livros e fantasias, com os quais me identificava e caia de cabeça neles, lia muito romances açucarados quase toda minha adolescência. Dediquei-me aos estudos e me destacava aos poucos, fui sendo notada. Comecei a ser aclamada como uma das melhores alunas da escola. 
Minha primeira experiência amorosa, sigilosa e não correspondida (paixão platônica dessas que todos tem) foi por um professor meu. Era de matemática a aula dele e uma das que mais eu era notada pelas minhas habilidades com números da época. Consegui inclusive alguns prêmios estaduais de matemática anos mais tarde. 
Passei em um concurso público e passei no vestibular da Universidade Federal daqui, inclusive, me gabando um pouquinho se me permitir, alcancei o primeiro lugar. No segundo período da faculdade uma travesti, que eu tinha raiva por sinal na época por ela saber muito bem minha orientação sexual, se aproximou de mim em uma aula de campo. Calma! Antes que pense qualquer coisa não curto travestis, srsrsrsr, até o momento meu negocio é com homens mesmo. A partir do momento que nós nos conhecemos nos demos muito bem. Eu sempre dou abertura para as pessoas conversarem comigo, mas dificilmente eu inicio uma conversa com quem quer seja, por ser muito tímida, se não a conhecer ou tiver um tipo de laço antes. Como foi ela que se aproximou como amiga foi fácil! E eu dei abertura a ela pois não gosto de ser grossa com ninguém, apesar de não gostar muito dela por, além dos motivos que já expliquei, ela ter o estilo de vida que odiava e ao mesmo tempo invejava.
Essa minha amiga foi fundamental na minha aceitação para mundo como gay primeiramente. Eu e ela eramos sombra, ou melhor, eu era sombra dela, afinal ela estava me apresentando à vida social, pois dela tinha abdicado. Meus colegas comentam ate hoje que eu mudei muito desde que a conheci. Na verdade prefiro acreditar que não mudei e sim apresentei ao mundo quem eu era. Larguei a atuação capenga e nada maestral de projeto de um ser masculino e passei a liberar meu trejeitos femininos entre outras coisas que eu naturalmente já tinha e passei aprendi outros maneirismo e vocabulários. 
Um fato curioso: sempre acreditei em Deus. Porém deixei de crer em igreja e homens, os respeitos por suas convicções para exigir respeito deles às minhas. Estou dizendo isso porque tem duas vezes que fui a pseudo-exorcismos e, ao meu ver, charlatanismo barato e descabido de curar da homossexualidade. Acredite que não tem nada de sobrenatural ou real nisso. Você não deixa de ser o que Deus te criou para ser, você pode negar aquilo que é até a morte por suas convicções religiosas, mas JAMAIS deixa de ser aquilo que nasceu sendo. Eu nasci do jeitinho e até mais detalhado do que descrevi. Por isso esse texto enorme sobre mim, para que não reste duvidas ou argumentos para explicar aos incrédulos, que possam estar me lendo, que EU não escolhi ser gay, não ME TORNEI gay. Aliás, eu não sou gay, sou hétero, uma transexual hete-o pela definição cientifica na qual me encaixo. 
Uma observação: acho-me no direito de chamar essa experiência de charlatanismo porque assim o é. Entendo como desrespeito mais do que suficiente para com a minha pessoa a criatura achar que eu estou endemoniada ou que escolhi sofrer, que eu sou pérfida por não esconder aquilo que sou. Pérfida, imunda, preconceituosa e mentirosa foi a tentativa dos meus desinformados e soberbos amigos quererem mudar aquilo que sou para poderem gostar de mim como “eu sou”, gostar do meu verdadeiro eu. Como isso é lindo da parte deles não?! Aceitei porque eu queria testá-los e conhecer, pois dificilmente gosto de expedir uma opinião sem ter passado por pela experiência de qualquer coisa. Perguntas deles como “por quê você não experimentar um mulher só para saber se tu é homossexual mesmo? É bom!!” Minha resposta: dorme comigo para saber se você é hétero? É maravilhoso!!!! 
O segundo passo foi descobrir se eu era transexual. Aí foi mais fácil. Só revelei a minha amiga meus anseios de ser mulher e ela mesma percebeu. A primeira vez que me vesti de mulher foi horrível. Não porque eu não gostasse de me vestir, mas finalmente eu iria me mostrar para a cidade no dia da virada de ano como eu me visto de mulher. Tremi na base ao lado de travestis poderosas em seus saltos, pois foi minha primeira experiência.
Aos poucos fui aprimorando minhas experiências sexuais, sendo essa realizada pela primeira vez aos 20, atualmente vou fazer 23 anos. Eu fui querendo não sair com homens estando vestida de mulher porque era desconfortável. Sai com poucos homens como menino, mas descobri que o que o que era desconfortável era a peruca que era não meu cabelo, a roupa que ficava bonita, mas, ao ser tirada, mostrava meu corpo masculino. Traumático, não? Me vi fadada a sair com gays se eu não abandonasse o preconceito sobre mim mesma e resolver que o que eu queria era um hétero ao meu lado e não um gay. Não, eu não me visto de mulher para agradar homens. Me visto de mulher para agradar a mim mesma, porém sair com homens é uma das motivações se eu quiser um relação sexual em que o meu parceiro sinta prazer e eu também. Sair com gays não me dava e nem dá prazer. 
Eu fugi um pouco da linearidade da história do meu trabalho, mas aquilo que apontei acima como amigos eram do meu trabalho mesmo, a penitenciária. Não possuo mágoas deles quanto ao que eles são, mas quanto a esses dois episódios aos quais me submeti foi para mim uma traição a minha amizade. Inclusive conheço, isso não é novidade para ninguém, homens casados e religiosos que procuram gays e travesti e se relacionarem e no fim das contas as repudiam e se forem vistos na rua nem dão um bom dia. Essa igreja que frequentei é um exemplo disso: 80 por cento da igreja curte e vive uma farsa que quase vivi a minha vida inteira. 
Como já era assumido, no trabalho e onde quer que seja, meus trejeitos são e serão notados. Como sou concursada as pessoas no meu trabalho tinham mais é que me aturar, afinal eu estava ali por mérito. O às vezes falta é eles darem o primeiro passo, sempre deixo as pessoas darem o primeiro passo, e curiosidade vai curiosidade vem revelo minha origem e vida. As pessoas aos poucos foram chegando e perguntando discretamente, mas não diretamente, sobre minha vida pessoal e diretamente e sem dor dizia a elas que elas poderiam deixar os “dedos” para outra ocasião e poderiam fazer a pergunta se eu era ou não. Brincava: “está estampado, não?” Quando chamam, os “machos”, uns aos outros de “baitola” e olhavam para mim com reserva, eu estando presente, eu sempre dizia que isso não me incomodava, o que me incomoda é reserva e falta de sinceridade. 
Depois de tanto fingir e ver outros fingindo prefiro que, por mais que seja uma agressão verbal, que todo mundo diga o que pensa a meu respeito. Acho que já sofri demais por causa de opinião alheia e própria, me incomodando ou não gosto e exijo que as pessoas as expressem para que eu saiba com quem estou convivendo e para mudar a forma de pensar. E é dessa forma que eu mudo opiniões, faço questão de saber de suas existência nas cabeças das pessoas. Quem não as exprime geralmente não quer que elas mudem. Abraços."
Essa é a transição de Celine Oliveira, que nos trará mais atualizações quando tiver se revelado mais para seu curso superior e seu emprego.

Beijos,
Mayra