9 de abril de 2013

Vídeo Games: Refúgio Para Jogadores Transexuais

Quando leio uma reportagem externa, normalmente simplesmente cito ela e comento. Essa eu vou me dar o trabalho de traduzir alguns pedaços. Ela fala sobre como a familiaridade com jogos de computador ou console pode auxiliar na reflexão sobre seu próprio ser e no desenvolvimento e compreensão sobre sua própria identidade transexual. Deixe a imagem abaixo ser absorvida por sua mente um segundo antes de prosseguir.


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O hábito de jogar ainda é comumente visto como um hobby masculino. Meninos jogam, meninos fazem jogos, e os jogos que esses meninos fazem são para outros meninos. Mas o que acontece quando um desse meninos quer ser uma menina?
"A decisão de começar a transição é muito importante"', Landers (criadora transexual do jogo Bloom: Memories) me disse. Ela explicou como muitas pessoas associam ser trans a estar na indústria pornô ou ser uma prostituta. Ela deu exemplos de personagens transgênerxs na mídia que existem somente para o humor, e como os desejos transgêneros eram, e ainda muitas vezes ainda são, vistos como uma doença mental. Se uma pessoa irá ou não transicionar não é uma decisão a ser tomada levianamente ou sem auxílio. Felizmente, Landers teve uma estrutura especial de auxílio durante seu crescimento: videogames. 
Birdette, primeira personagem trans
no mundo dos jogos, estreiou em
Super Mario Bros 2
"Eu sempre jogava com personagens femininos nos jogos", Landers disse quando eu perguntei como ela começou a explorar sua identidade de gênero. "Quando eu comecei a me interessar por MMOs, eles forneceram uma oportunidade única de jogar com um personagem que realmente lhe representasse mais, já que você estava gastando tanto tempo com esses personagens. Foi aí que eu realmente comecei a mergulhar no... eu rotulei isso como o meu 'lado feminino'". 
"O negócio é, sair pelo mundo e fazer coisas dessa forma não é realmente possível. Isso é uma coisa que os médicos... eu acho que eles ainda fazem isso, chamam de "real-life experience", aonde eles falam para a pessoa transgênera se vestir como o sexo oposto e começar a viver como eles por um ano*. Mas sem hormônios, sem nenhum tratamento, nada", Landers disse. 
"Então, basicamente, eles saem pela sociedade e são forçados e a serem homens de vestidos - pelos padrões da sociedade - e isso não é algo que a maioria vai permitir. Você não pode simplesmente ir a uma loja sendo obviamente um homem, fingindo ser uma mulher, sem passar de forma alguma, isso não é realmente um jeito das pessoas explorarem (isso). É um jeito das pessoas explorarem ser uma aberração no meio da rua, mas não é isso que as pessoas realmente querem. Elas querem se misturar e serem felizes, e se expressarem como quiserem sem julgamentos". 
Landers disso que os jogos proporcionam um local seguro para explorar e experimentar. MMOs em especial oferecem às pessoas transgêneras uma chance não só de criar um personagem no gênero com o qual elas se identificam, mas também permitir que esse personagem interaja com outras pessoas. Landers disso que isso também não era limitado à experiência dela, muitas pessoas transgêneras usam estratégias similar.

Vozes da Comunidade 

Antes de continuarmos, vamos parar um momento para definir os termos que estamos usando. Qual a diferença entre trans, transexual, transgênero, travesti, tranny, etc? Um transexual é alguém que não se identifica com o sexo nato, e comumente desejam alterar seu corpo com o uso de hormônios ou cirurgia. Usamos "transgênero" nesse artigo como um termo guarda-chuva que pretende incluir qualquer pessoa que possuam uma identidade de gênero não alinhada com seu sexo físico. "Trans", então, é uma abreviação de "transgênero".
Uma travesti é alguém que normalmente se identifica com o sexo nato, mas usa roupas normalmente reservadas ao sexo oposto. Essa, e muitas outras palavras como "shemale" e "tranny" são normalmente consideradas ofensivas. 
Há pouco tempo, publiquei um tweet pedindo para jogadorxs transgênerxs e amigxs dessas pessoas que me mandassem e-mails falando sobre suas experiências. Baseado na forte resposta - mais de uma dúzia de e-mails em 24 horas - eu diria que Landers está certa: há muitxs jogadorxs transgênerxs por aí e as respostas que recebi citavam jogos como a principal fonte de segurança, apoio e descoberta enquanto elxs transicionavam. Aqui vão alguns pedaços das variadas respostas que recebi:
"Quando comecei a escrever esse e-mail, eu estava prontx para separar minhas experiências jogando estes jogos dos meus questionamentos sobre ser transgênerx (e depois, sobre transicionar) mas quanto mais eu penso nisso, mais eu me pergunto se a habilidade de me colocar no lugar de uma personagem feminina teve algum impacto em mim. Eu sempre escolhi jogar como menina quando tinha a oportunidade, e via personagens masculinos como externos a mim e personagens femininas como uma extensão", umx jogadorx transgênerx escreveu.
Yuna, a personagem mencionada no
texto, tem seu cosplay feito comumente
em eventos de games e anime.
 "Eu nunca realmente pensei nisso como, 'Ah, eu vou jogar com uma personagem feminina porquê eu gostaria de ser mulher', eu simplesmente jogava com uma porquê parecia mais natural. Olhando para trás, no entanto, acho que jogar com personagens femininas em jogos sociais (WoW, EverQuest, etc.) me permitiu aprender como seria ser olhada pelas pessoas como uma menina", outrx jogadorx disse. "Eu não sabia quem eu era na vida real, e foi uma época realmente difícil para mim, mas eu sempre podia logar e sentir, mesmo que fosse somente um avatar usando armaduras fantásticas, que eu era uma menina. Eu acho que a esperança de que um dia meus amigos na vida real e aqueles ao meu redor me olhariam da mesma forma que olhavam a [nome da personagem removido] me ajudou e me deu forças para continuar". 
Umx jogadorx resumiu com bom humor: "Quando eu mudei meus avatares Mii e no Xbox, e meus amigos puderam ver que eu os usava o tempo todo como a forma principal de me representar, elxs devem ter pensado: 'Eita porra, a merda ficou séria, ele mudou seu avatar'. Eu acho que passei a mensagem." 
Mesmo aquelxs que não se identificam como transgênerx podiam enxergar a conexão. "Todo Halloween, [nome removido] se vestia como uma personagem feminina de jogos, como a Yuna do FFX. Era sempre um "ha ha, [nome removido] está vestido de garota porque ele tem um cabelo lindo e parece uma garota!" Não de uma forma pejorativa, mas era engraçado porque fazia muito sentido. Então quando descobrimos que [nome removido] começou a tomar hormônios, fez sentido para nós", um amigo escreveu; "Ela começou a aparecer com roupas mais femininas, houve uma mudança nos pronomes sempre que falávamos dela, mas acabava aí. Ela ainda era a mesma pessoa, exceto que agora ela podia ser quem se sentia no seu interior".

 Segurança x Discrição

O site Feminist Critics estimou que uma pessoa trans tem 10x mais chances de ser assassinada que a população geral. (...) Uma enquete pela Força Tarefa Nacional de Gays e Lésbicas e Centro Nacional Pela Equidade Transgênera concluiu que 41% daqueles que responderam já tentaram o suicídio. Segundo o CDC (Centro de Controle de Doenças), aproximadamente 1% da população geral já pensou em suicídio entre 2008 e 2009, sendo que 0.5% realmente chegou a tentá-lo. 
As estatísticas continuam A realidade é que, apesar de todo o momentum positivo para muitas discussões sociais nos E.U.A., o país ainda é um lugar perigoso para qualquer um que questione sua identidade de gênero ou sua sexualidade. Você talvez não consigo entrar de vestido em uma loja sem temer violência física, mas qualquer um pode usar umx personagem feminino ou masculino em um jogo, ou mesmo experimentar relações homossexuais, sem medo de violência. 
Jogos muitas vezes oferecem a única maneira que muitas pessoas consideram segura para explorar sua sexualidade, o que é uma das principais razões pela qual relações homossexuais aparecem comumente em discussões sobre jogos. Esses jogos proporcionam  um espaço seguro e livre de julgamentos para as pessoas descobrirem seus sentimentos e desejos, sem medo pela sua segurança pessoal. A maturação sexual é suficientemente amedrontadora e confusa para a maioria das pessoas, imagine viver em um mundo onde se explorar abre a possibilidade de espancamentos, humilhação e até morte. Muitos de nós usam jogos para passar por tempos difíceis em nossas vidas, mas para alguns eles podem ser o cordão umbilical para um logar onde jogadorxs podem ser elxs mesmxs.

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Esse assunto me é pertinente por três motivos. Primeiro, jogar no PC é de longe meu maior hobby. Segundo, esse hobby foi, como sugerido no texto, uma das maiores fontes de alegria pra mim durante minha infância e adolescência por me permitir, entre outras coisas, sentir ser mulher. Terceiro, por deixar claro para mim que era isso que eu queria na vida real.

Os MMOs foram menos importantes para mim. O único "jogo social" em que eu realmente mergulhei foi Ultima Online. No servidor que eu jogava, a interpretação de papel era obrigatória, como em uma peça de teatro. A diferença é que o texto não era pronto, as pessoas iam se relacionando e reagindo às situações como os personagens reagiriam, não como os jogadores o fariam. No fórum, todos sabiam que eu era o Marcelo, mas in-game, todo mundo tinha que me tratar como a mulher que eu era - e durante a maior parte do tempo, meu personagem realmente foi mulher. Com exceção do primeiro, o elfo Anomas Kamath, que acabou rendendo meu apelido de "anômas" durante muitos anos porque ninguém sabia que a sílaba tônica era o primeiro "A". Assim como hoje as pessoas me chamam de "máyra" quando a intenção é ser "maýra", mas tudo bem, estou fugindo do assunto.

Por gostar muito de personagens profundos e cenários sérios, onde minha persona fizessem real diferença no mundo, eu jogava muito RPGs single-player. Fallout 1 e 2 foram importantíssimos, assim como Baldur's Gate. Mais recentemente, Dragon Age: Origins e a trilogia Mass Effect fecharam bem a minha personalidade feminina. Tiveram outro jogos onde eu usei personagens homens e mulheres, mas a relevância dos que eu listei vem do fato de que, nestes, você personalizava seu personagem. Incluindo o sexo. E eu sempre - sempre - jogava de mulher. E normalmente me emputecia porque os relacionamentos lésbicos eram praticamente inexistentes nos jogos mais antigos, apesar da Electronic Arts estar mudando isso recentemente.

Bom, o peso da reportagem não acaba por aqui. Ela instigou uma discussão extremamente iluminadora nos comentários do site, e alguns deles apontam considerações interessantes não necessariamente abordadas no artigo principal. Mas vou deixar estes para um segundo artigo, pois este ficaria longo demais.

Beijos,
Mayra