11 de abril de 2013

Um Ano

Mayra tem um ano. Em 11 de Abril de 2012 eu saí de casa pela primeira vez de calcinha e sutiã, de maquiagem no rosto e enunciando para todos um nome diferente. No Facebook, mudei algumas coisas. Sexo, Foto, Nome. São atos pequenos, isoladamente. É uma configuração em uma rede social resultante de meia dúzia de cliques, é uma roupa um pouco diferente, um jeito um pouco diferente. E, no fim das contas, o resultado é tão grande. O conjunto é tão grande. O todo é muito, mas muito maior que a soma das partes.

Essa transformação, essa libertação, me trouxe muita coisa e me levou algumas em troca. Como um Deus primitivo e sentimental, requer oferendas pelos seus presentes e bênçãos, os leva de imediato, e retribui lenta e gradualmente.

A primeira coisa que eu ganhei foi a vida. As pessoas costumam dizer que foi preciso muita coragem para me mostrar ao mundo, mas na verdade acho que requereu falta de coragem. Falta de coragem para cometer suicídio, coragem essa que eu já teria ganho se não tivesse transicionado até hoje. A segunda foi o mundo. Livre, leve, solta, me sinto dona de meu destino e me liberto, assim, para socializar, conhecer pessoas, me mostrar ao mundo. E a terceira foi um futuro. Futuro que eu nunca conseguia enxergar, como Marcelo, ao olhar para frente, planos que e nunca fazia, sonhos que eu não alimentava porque sabia que não duraria muito tempo, que minha viagem estava chegando ao fim. A minha oferenda, em troca destas benção incomensuráveis, foram duas. A paz de ter um futuro certo - afinal, quando você sabe que tem pouco tempo, não precisa fazer qualquer preparação a longo prazo - e a inocência. Essa última me fazia acreditar que eu estava em um mundo evoluído, consciente, pacífico, onde as beligerâncias eram restritas a conflitos econômico-militares no Oriente Médio e políticos na África. Quando, na verdade, a beligerância vive no nosso dia a dia, cada vez que uma mãe espanca umx filhx transexual, cada vez que um profissional de saúde recusa tratamento a umx transgênerx, cada vez que uma prostituta travesti é assassinada, cada vez que uma pessoa é negada de entrar no banheiro ao qual pertence. Descobrindo essa luta dentro de nossas próprias fronteiras, dentro de nossas próprias casas, me armo e me junto à luta. E me preparo para, com vocês, fuzilar nossos inimigos. Não as pessoas que perpetram tais atos, esses são tão vítimas quanto nós de preconceitos que, se por um lado se materializam em uma violência física contra nós transgênerxs, por outro aprisionam estes outros seres humanos em vidas miseráveis, cheias de ódio, rancor e frustração por tentarem livrar a raça humana de algo que é intrínseco a ela e nunca irá desaparecer.

Para terminar, agradecimentos e pesares. Agradeço, primeiramente, a minha namorada, sem a qual eu nunca teria sobrevivido tempo suficiente para realizar meu sonho, a menina que já me segurou em beiradas de varandas e calçadas por tantas vezes. Com quem já chorei desesperada tantas vezes, com quem já comemorei tantos aniversários meus e nossos, com quem descobri o amor, a confiança, a intimidade, a liberdade, a promessa e o eterno. Depois, a algumas pessoas da minha família. Aqueles que custearam minha cirurgia; os meus avós com quem moro; minha mãe com quem ainda converso, visito, saio; meu tio Ricardo, que me enviou tanto carinho e tanto auxílio pelo correr desse um ano; minha tia Débora, que me faz sentir tão confortável e querida cada vez que nos encontramos; e tantos outros que se demonstraram abertos, compreensivos e carinhosos. Devo agradecimentos a alguns amigxs também, de antes e depois da transição, com os quais dividi dias incríveis, longuíssimos e-mails, ou simplesmente milhares de mensagens no Facebook, como Elisa Resende, Carolina Matsumoto, Pedro Nicodemos, Natalia Innecco e tantxs outrxs que, se fosse incluir os nomes todos, não terminaria hoje. Agradeço à Beatriz Araujo pela oportunidade de emprego tão pouco depois da transição, à minha prima Jéssica e seu namorado, que me ofereceram o espaço no LesMonde aonde este blog nasceu, àqueles que me entrevistaram em vídeo ou por e-mail e permitiram que eu espalhasse e publicasse meu blog a mais pessoas que precisam... a lista é infinita, sério.

Por fim, meus dois pesares. Primeiro, de descobrir que minha família tem tantas pessoas sem caráter e sem amor, como meu padrinho, teoricamente o homem escolhido para cuidar de você na eventualidade do falecimento de seus pais, que não fez mais depois da transição que mandar um e-mail me acusando de me comportar como vagabunda, sabendo somente Odin o que ele quis dizer com isso. Segundo, dos amigos que sumiram pelo meio do caminho. Mais antigamente, Luís Alquéres, uma das poucas pessoas das quais já visitei a casa, que convivíamos tanto e... perdi contato. E mais recentemente, Leonardo, que simplesmente se afastou sem maiores explicações, meu mais antigo amigo, com o qual tantas angústias, sofrimentos, surpresas e alegrias foram reciprocamente trocadas.

Enfim. Dores e doces trocados, deixo aqui o bouquet de brotinhos que recebi de surpresa hoje da minha amada, que encheu meus olhos de lágrimas e meu coração de calor. Agora vou acabar de me arrumar para almoçar com ela.


Beijos,
Mayra