1 de abril de 2013

Jota Santos: Transhomem Paulista

Hoje trago até vocês uma história um pouco mais difícil de ser encontrada: a de um transhomem, ou de uma pessoa FtM. Nascendo geneticamente feminina, pertencente ao gênero masculino, estas pessoas enfrentam dilemas por vezes bastante semelhantes e, em outros momentos, totalmente diferentes das MtF. 

Por exemplo, o efeito do testosterona na transição é muito mais profundo e eficiente do que o estradiol é para nós. Por outro lado, a cirurgia redesignação sexual é menos desenvolvida e satisfatória. Mas essas são diferenças meramente técnicas, claro. O mais importante - e interessante - é ouvir os conflitos emocionais e psicológicos destas pessoas com a mesma mente aberta que ouvimos e expomos os nossos.

Pensando nisso, pedi ao rapaz Jota Santos, que conheci recentemente, que me escrevesse sua história. A primeira parte é um e-mail redigido por ele anos atrás, a segunda contêm observações do que mudou daqueles tempos para cá. Comecemos:


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Sei que é pouco espaço neste email pra falar de uma vida de sofrimento e angustia

Minha infância

Quando eu tinha 5 anos, minha mãe colocava vestidos e “Maria-Chiquinha” em meus cabelos, brincos e me dava bonecas para brincar. Sempre fui uma criança isolada pois não gostava de brincadeira de meninas e sim de meninos (não gosto de usar o termo ela nas frases que escrevo ou falo, prefiro usar sempre o masculino).
Meu nome é Janaina e um dia perguntei para minha mãe se eu tivesse nascido homem como ela ia me chamar, e ela respondeu que seria “Jota”; pense eu amei muito esse nome, o qual uso atualmente.
Voltando ao assunto, tirava o vestido e aqueles laçarotes porque odiava tudo aquilo, encostava as bonecas de lado e brincava de bola. Preferia até urinar de pé no banheiro.

Um dia pedi para o meu padrasto a roupa do meu time, ele comprou calção e até chuteira, pois ele achava isso normal, já minha mãe não gostava e falava que eu tinha que me comportar como uma menina, e eu odiava muito quando ela falava isso. Adorava empinar pipas, carrinho de rolimã, jogava bolinhas de gude com os meninos da rua.

Minha mãe fala pra mim que meu comportamento começou aos 8 anos de idade, um jeito masculino mas sempre tentava me mudar e isso sempre foi impossível.
Na adolescência me fechei; pensava que minha mãe estava certa e guardei isso dentro de mim. Daí começou todo meu sofrimento.

Meu primeiro namorado era um bom rapaz, mas apenas fiquei com ele uma semana, sentia como se fossem dois homens se beijando, eu odiei muito. Terminei tudo e ele falava que eu era muito diferente. Conversamos muito e ele entendeu e disse pra mim ser quem eu era realmente. Eu gostava de meninas; mas nos anos 90 era ainda um escândalo tentar alguma coisa; ficaria mal pra mim na escola.

Quando menstruei ai que eu odiei mais ainda meu corpo, até hoje detesto, um sexo e seios que não eram para serem meus. Sou um homem fechado dentro de um corpo que não era para ser meu. Quando olho para um corpo de um homem na revista, não me sinto atraído para tê-lo e sim para ter aquele corpo como se fosse meu, sinto que falta algo a mais em meu sexo e ainda bem que não tenho seios grandes.

Sofri desde minha adolescência até os meus dias atuais, só com uma diferença: aos 28 anos de idade me assumi, sou transexual; Masculinizei-me de vez, nas roupas, mas quando tiro só Deus sabe.

Já venho pesquisando a mais de seis anos e percebi que sou transexual porque também não consigo ficar com uma mulher, beijando é ótimo, mas nua? Nem pensar; quero oferecer prazer diferente; e não do jeito que as lésbicas fazem, nada contra elas, mas pra mim é diferente.

Já transei com homem, pois tinha que tentar tudo: que horror, parei no meio.
Minha família é evangélica e não compreende isto; falam que aceita, mas da boca pra fora. Só eu sei o que escuto nas brigas, já me chamaram de "ABERRAÇÃO".

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Esse e-mail escrevi tem 2 anos atrás, para um médico em São José do Rio Preto.

Agora posso dizer que minha família esta aceitando numa boa, estou usando a Testosterona e a mudança esta rápida, este ano vou fazer duas mastectomias (remoção das mamas) e histerectomia (retirada de útero e ovários). Também já vou iniciar a mudança de nome nos meus documentos.

Jota Santos

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Quem quiser conhecer esse rapaz, este é seu perfil no Facebook. E quem quiser me mandar suas histórias para publicação no blog, seja transmulher, transhomem, bigênero, agênero, transmarciano ou pertencente a qualquer cantinho do espectro de gênero, sinta-se à vontade. Utilize sempre o e-mail mayra.viamonte@gmail.com

Beijos,
Mayra