20 de abril de 2013

Botando no Lugar

Este post é daqueles padrões de blog trans, falando de como tem ido minha dieta hormonal e meus sentimentos. Faz um tempinho que não coloco um desses no ar, não é mesmo? Então comecemos.

Hormônios


Esse mês me consultei com uma endocrinologista do Leblão e fiz uma bateria longuíssima de exames no Braunstain. A maioria dos resultados veio completamente dentro dos padrões, então falemos do que interessa e do que diverge.

Hormônios Sexuais:

 

Ambos os resultados eram esperados, mas não exatamente desejados. Esses níveis de testosterona estão muito aquém do que procuro. Eu sei que esse é o sonho de muita trans, esses níveis 100% femininos, mas eu queria algo entre os níveis de cada sexo. Por isso, parei completamente com os AA por enquanto, vou esperar um ou dois meses, e voltar com quantidades menores. O Estradiol está bom, no entanto. Quando esses resultados saíram eu estava tomando 6mg de Natifa, 50 de Espironolactona e 2,5 de Finasterida por dia.

Efeitos Colaterais:




FSH e LH são dois hormônios necessários para a reprodução humana e diretamente relacionados com os baixos níveis de testosterona... assim como o aumento do SHBG. Ambos, disse a médica, são níveis fora do comum, mas aceitáveis e sem prejuízos biológicos iminentes. A ureia alta é relacionado ao fato de eu tomar muitos medicamentos de forma constante, e também não está preocupantemente acima.

Nada Relacionado:


Isso aqui é o que não tem nenhuma ligação com o tratamento. O GH é responsável por mil funções no organismo, a mais famosa sendo o ganho de altura em pessoas durante a puberdade. Na minha idade, com os ossos já solidificados, ele não tem mais esse efeito, mas participa de outras partes do metabolismo. As mais impactantes são a ajuda na absorção de proteínas, no aumento da densidade óssea, na quebra de gordura e no ganho muscular. Ou seja, é praticamente um anabolizante, proibido de ser injetado por diversas organizações esportivas do mundo. Em quantidades muito acima do limite ele poderia causar acromegalia, que é o aumento bizarro de extremidades como mãos, pés, queixo, nariz, etc. Mas no nível presente, ele simplesmente faz com que meu trabalho na academia tenha frutos muito maiores que o de pessoas com níveis normais, e prolonga minha expectativa de vida em anos. Chato, né?

SentiMental

A parte mais pessoal gira toda em torno de uma bota que minha namorada me deu de presente adiantado de aniversário, que está chegando no próximo dia 17. Quando eu era Marcelo, o último calçado que ganhei foi um presente dela, uma bota baixa que eu usava todo-santo-dia. Gastou rapidamente, obviamente, mas eu amava ela. A nova eu não posso fazer a mesma coisa. Além de ela não ser tão confortável como a antiga masculina, ela... chama bastante a atenção, e não é apropriada quando eu quero ser um pouco mais discreta.

Esteticamente, no entanto, sem dúvida é o tipo de calçado que mais combina comigo. Eu gosto muito de usar shorts, mas em mim eles não combinam bem com tênis. A parte superior do corpo é musculosa e a imagem final acaba ficando meio... escrota. Puxada demais para o masculino. Sapatilhas, apesar de eu ter usado muito no começo da transição, são calçadas que não dão firmeza no pisar. Percebi isso quando tentaram me roubar o celular na Rio Branco e, depois de brigar com o cara e me certificar de que ele não tinha conseguido pegar nada, tentei correr atrás dele pra lhe descer o sarrafo. Mas a sapatilha escorrega, não tem tração. Não o alcancei. Sandálias abertas sujam seu pé a menos que tenham pelo menos uma pequena plataforma. Por fim, as botas: uma alta como essa vai até o joelho cobrindo metade da perna, o que me faz sentir menos como uma televisão de cachorro, aqueles frango assados girando em padaria que os caninos ficam babando e olhando. Além disso são firmes, fáceis de correr e não dão a impressão que decolarão em voo se você tiver que cair na mão com alguém. O que, depois de nove tentativas frustradas de assalto ao longo dos anos, não parece algo tão vídeo-game de se considerar, né? Ah, sim, esse é mais um ponto positivo: me faz um pouco me sentir personagem de um.

Questão de sentimento mesmo foi o que senti enquanto estava na loja esperando a vendedora processar a compra. Lá estava eu, do lado da namarida, sentada em um dos bancos discutindo com ela a aparência de bolsas e calçados ao redor. Quando parei para refletir sobre a situação, primeiro reparei o quanto não ligo mesmo para bolsas, apesar de tudo. Uso quase sempre uma cartucheira, que é tipo uma pochete feminina, que tem alguns compartimentos e prende na cintura como um cinto - e adoro isso. Você não ocupa nenhuma das mãos, pode virar para frente os compartimentos quando anda no centro para não ter que se preocupar com furtos e não perde tempo procurando nada.

O segundo pensamento que me acometeu foi uma comparação com todo o resto da minha vida. Durante os primeiros seis anos de namoro, sempre que íamos ao shopping em busca de lojas de roupas e calçados femininos - o que eu fazia muito com ela - eu acabava ficando meio deprimidinha por não ser ali onde eu compraria minhas coisas, por ser vista pelas vendedoras como "o namorado acompanhando as compras", ficava do lado de fora das lojas ou buscava logo um banco, um assento, um acalento naquele ambiente quase alienígena. Agora, cara... agora aquilo é a minha casa. É ali onde eu me visto, onde eu me calço. Sou eu que perturbo os vendedores e vendedoras. Sou eu que opino, aprovo, desaprovo, compro, rio, esnobo, passo. Agora aquele é meu ambiente, eu pertenço àquele lugar. E nunca mais vou sair.

Eu não faço questão de me apropriar e encaixar em parâmetros completos femininos, até por esses variarem. Eu não fico neurótica se o volume na calça não ficar 100% disfarçado. Eu não tenho problema em ser musculosa. Mas me sentir tão livre para participar do mundo das "elas" quanto eu me sinto se quiser eventualmente ser membro dos "eles" é algo que me alivia e alegra profundamente. E desse benefício da ambiguidade e da totalidade, eu não abro mão.


Quem quiser ver mais 3 fotinhas com a bota, elas estarão na Page, na qual você pode se inscrever na barrinha direita aqui do blog.

Beijos,
Mayra