22 de março de 2013

Transsexualidade e Colégio

Enfrentei poucos desafios externos durante a infância e a adolescência, é verdade, principalmente pelo fato de não ter o comportamento feminino e só ter transicionado na faculdade. Por outro lado, conheço várias meninas muito jovens passando pelos tormentos da disforia de gênero, nesse momento, menores de idade, e outras que contam ter começado sua transição entre os 14 e 16 anos. Sei que é um acontecimento razoavelmente comum.

Recebi um e-mail de uma mestranda com um questionário sobre o assunto para sua dissertação. São dez perguntinha rápidas e auxiliam mais uma pessoa cis a entender e explicar para outras cis sobre nossa condição e nossas vidas.



Eu e ela ficaremos muito gratas a quem se dispuser a ajudar. As citações serão anônimas, seu nome não aparecerá no trabalho. As respostas devem ser enviadas para barbara.andrade@gmail.com e as perguntas são as seguintes:

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Favor colocar a idade, região e o tipo de escola na qual estudou (particular/pública; militar, religiosa, laica).

Perguntas :
  • Em uma sociedade voltada para gêneros biologicamente definidos, como você fez para compreender os questionamentos que você estava vivendo?
  • Durante a escola como você chegou a decisão de revelar – ou não revelar – os questionamentos de gênero que estava vivendo?
  • Como seus amigos reagiram ao seu questionamento de gênero?       
  • Como sua família reagiu ao seu questionamento de gênero?
  • Como você se sentia em relação ao uso do vestiário/banheiro?
  • Como o ambiente escolar influenciou o seu processo de aprendizagem?
  • Como você acha que sua experiência escolar difere da experiência das pessoas que não questionam a identidade de gênero?
  • Como os profissionais da escola (bedel, professores, direção) agiam em relação às diferenças?
  • Como você acha que a escola pode agir para melhorar a o périodo de estudos de pessoas em questionamento de gênero?
  • Como o preconceito que você sofreu na escola influenciou sua vida adulta?

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Você pode copiar as respostas em um texto ou no corpo do e-mail e enviá-lo ou pode baixar esse arquivo.

Como fonte de referência e curiosidade, aqui estão minhas respostas:

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Favor colocar a idade, região e o tipo de escola na qual estudou (particular/pública; militar, religiosa, laica).

24 anos, colégio católico particular, Santa Úrsula, Rio de Janeiro, capital.

Perguntas :
  • Em uma sociedade voltada para gêneros biologicamente definidos, como você fez para compreender os questionamentos que você estava vivendo?
Pesquisei na internet. Eu tenho grande dificuldade de lembrar de eventos da minha infância e adolescência, mas sei que descobri sobre isso em ferramentas de busca... cadê ou yahoo, na época.

  • Durante a escola como você chegou a decisão de revelar – ou não revelar – os questionamentos de gênero que estava vivendo?
Eu não revelei por imaginar que não faria sentido a menos que eu materializasse meu desejo : mudança que me era impossível na época.
  • Como seus amigos reagiram ao seu questionamento de gênero?       
Eles só ficaram sabendo quando eu já era Mayra. Nesse momento, ou calaram ou me parabenizaram por efetuar a transição e de forma tão pública.
  • Como sua família reagiu ao seu questionamento de gênero?
Minha mãe soube quando eu tinha 15 anos. A reação dela foi dizer que se eu trabalhasse fora, não teria tempo para "pensar essas besteiras". Nunca me ajudou com nada na época. Minha vó foi saber com 22 e disse que era uma fase, que passaria, pra eu não fazer isso. Sempre fugiu de qualquer situação controversa como o diabo da cruz, nunca desafiou um ser vivo durante sua existência.
  • Como você se sentia em relação ao uso do vestiário/banheiro?
Sempre fui uma pessoa destemida e acabei me acostumando ao banheiro masculino, mas sabia que era um peixe fora dágua. Os hábitos e corpos não eram os meus, ou pelo menos não como eu me via. Nada funcionada como devia. Me sentia um pouco ofendida de estar naquele ambiente, mas isso certamente não transparecia.
  • Como o ambiente escolar influenciou o seu processo de aprendizagem?
De gênero? De forma nenhuma.
  • Como você acha que sua experiência escolar difere da experiência das pessoas que não questionam a identidade de gênero?
Tenho certeza que há outros motivos para uma colocação como a minha, mas eu era extremamente reservada, tímida, anti-social. Tive pouquíssimos amigos durante o colégio, me envolvendo mais com outras pessoas somente no ensino médio, quando aprendi a simular o comportamento esperado de mim e me adequar, como um psicopata simula sentimentos e reações humanas naturais. Muitas outras pessoas contam aventuras fantásticas e inesquecíveis na época do colégio – as minhas sempre se passaram no computador ou na imaginação. A vida real era monótona e desinteressante.
  • Como os profissionais da escola (bedel, professores, direção) agiam em relação às diferenças?
Eles não sabiam.
  • Como você acha que a escola pode agir para melhorar a o período de estudos de pessoas em questionamento de gênero?
In a thousand fucking different ways, mas as mudanças na escola não funcionariam de forma autônoma e dependem de mudanças paralelas na sociedade. Por exemplo, seria infinitamente mais tranquilo se os banheiros fossem unissex, mas já imaginou isso a partir dos 10 anos em um colégio onde já tinha aluna parando de estudar por ter engravidado?

Um primeiro passo essencial é abolir a escola de tendência religiosa. Se tiver aula de religião, que seja para mostrar aquelas que são existentes por todo o mundo e não empurrar a criança para o catolicismo que é, obviamente, um inimigo da diversidade de gênero como instituição. E daí talvez discutir o assunto de identidade em aulas de filosofia através do ensino fundamental e médio.
  • Como o preconceito que você sofreu na escola influenciou sua vida adulta?
Durante os anos mais tenros, eu era criticada por ter certo comportamento afeminado. Não era nada extravagante, mas eu era mais delicada e sensível que os outros meninos – por motivos agora óbvios. As críticas me levaram à superação que se materializou no meu corpo quando decidi, anos mais tarde, começar a malhar. Mesmo agora depois da transição essa é uma parte essencial na minha vida, o treino hipertrófico, que me mantém saudável, ativa e me faz sentir mais segura ao andar na rua.

Em terra de lobos, há de se aprender a uivar. Mas se o natural é miar, eu preferiria em um mundo ideal passar meus dias ronronando.

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Para terminar deixo uma lembrancinha para quem ainda não viu na Page:




Beijos,
Mayra