18 de fevereiro de 2013

Ponderação

Dando seguimento à historia dos seios, hoje estive em São Paulo. Diagnóstico feito, soluções colocadas na mesa, decisão tomada. O passo final poderia ter sido dado hoje, não aconteceu por eu ter decidido que não aconteceria. No entanto, sabemos o quanto, o como, e o quando do último capítulo.

O episódio atual começa depois do meu post "Nua e Crua". Tendo aberto as angústias que me atormentaram durante mais de um mês depois da cirurgia, a equipe foi capaz de perceber minha fragilidade e agiu rapidamente: me ligaram, me mandaram mensagens. Conversamos. Me acalmaram. Combinamos. Mais precisamente, uma consulta hoje, às nove da manha, no consultório deles da capital paulista. Passagens fornecidas por eles. A disponibilidade relâmpago de conseguirem um amplo horário de consulta para menos de uma semana depois, também. A situação era drástica. Requeria medidas drásticas.



Hoje me foi um longo dia. Começou ontem, quando acordei às oito da manha, e terminaria normalmente pouco depois da meia-noite para recomeçar hoje. Não tive essa pausa. O voo era às cinco da manhã. O táxi foi marcado para duas e meia. Sabia que não iria dormir e assim o foi, estou acordada até agora, e preciso guardar meu sono para gastá-lo corretamente durante a noite. Amanhã tem academia. E a volta às aulas da faculdade.

Cheguei lá bem mais cedo do que imaginava. Considerando mil possíveis atrasos e contratempos, a completa fluidez do dia me deixou na mão, com tempo sobrando e paciência faltando. Esperei duas horas o voo no aeroporto. Cheguei na rua Mato Grosso às seis e meia da. Para a consulta às nove. Eu sou assim, quando tem que resolver e pode resolver, eu resolvo. Determinação minha, oportunidade cedida por eles. Aliais, a estrada à frente tinha mais luz do que poderia ter imaginado.

Thiago me mandou um SMS pouco antes do horário da consulta. O conselho era comer o que pudesse naquele momento e depois entrar em jejum absoluto. Havia um horário reservado na sala cirúrgica do Green Hill para as quatro da tarde, caso fosse diagnosticado que a solução era cirúrgica. Quatro horas da tarde de hoje, segunda-feira, dia 18. Isso mesmo. Cinco dias depois do post. Nem uma semana. Nem um centavo. E esse é o "quanto" que eu mencionei no primeiro parágrafo: nada. Essa é a quantia que sera despendida por mim para fazer a operação de revisão. Mas, naquele momento, a operação ainda era um "se", que dependia do diagnóstico.

Subi ao consultório, conversamos, falamos e ouvimos ambas as partes. Eu expressava as preocupações. Eles, as possibilidades. Tira a camisa, os sutiãs - sim, dois, um próprio para comprimir mamas recém operadas e um normal, combinação que me faz sentir mais segura por enquanto - senta, analisa os seios, deita, analisa os seios. Resultado: quando as poucas pessoas às quais minhas preocupações foram reveladas disseram que era cedo demais para eu tentar procurar pelo em ovo, não era. O que aconteceu foi exatamente o que eu falei: assimetria vertical. A bolsa - ou seja, o espaço criado abaixo do músculo peitoral onde a prótese é colocada - foi feita um pouco maior do lado esquerdo. Dois centímetros? Algo por ai. Sinal mais determinante disso? A cicatriz do lado direito se localiza precisamente na divisória entre o seio e o tronco, a do lado esquerdo se localiza na parte inferior do seio. Ok, as cicatrizes poderiam estar assimétricas, certo? Claro, mas novamente, mede-se. A distância do mamilo para a cicatriz, para ser mais exata. Igual dos dois lados. Perfeito. A prótese que desceu mesmo. Menor dos males.

Certo, e dai? Esse é o "como" da introdução do texto. Como faz? Opera. Tendo a prótese descido, o espaço que, do lado direito, é o limite superior, se fechou do lado esquerdo. E se abriu o limite inferior. Então volta-se à mesa, anestesia, abre o lado esquerdo, tira a prótese, expande o limite superior, recoloca a prótese, costura-se internamente o limite inferior para que ela não volte a cair. Não por imposição, por pró-atividade. Olhou a prótese, mediu as distâncias, constatou a situação, apareceu com a solução. "Eu quero te operar de novo". Quem quer fazer bem feito não deixa pela metade. Reconheço isso pois tenho isso em mim. Eu faço uma prova pela nota 10, não pela aprovação. Eu entro na academia pra sair doída e quebrada, não suadinha. Escrevo esse blog não para aparecer, escrevo para ajudar as pessoas, aconselhá-las e informá-las, gastando um tempo que, por vezes, não tenho. Da mesma forma, Thiago poe a faca em alguém para deixá-la bonita, não torta. Mesmo que tenha que sair do bolso dele. Hospital não é obra de caridade. Se eu não vou pagar o aluguel da sala cirúrgica, nem da estadia no quarto, quem você acha que vai? O bolsa-beleza do Lula? O SUS?

Aliais, faço uma referência ao SUS nessa parte conclusiva do texto, o "quando". Já perceberam que não operei hoje, imagino, ou não teria como ter digitado tudo isso aqui. A sala estava reservada. O horário do cirurgião também. Faltou o que? A palavra final, que não foi data por ponderação advinda da calma que me surgiu hoje. A operação inicial não tem nem mês e meio. Implantei dia dez de janeiro. Faça as contas. O minimo absoluto que qualquer médico recomenda para uma revisão é de três meses. Quatro, para ter certeza. Motivo? Os tecidos internos afetados por uma intrusão dessa estão frágeis e úmidos antes disso. Seria como tentar puxar papel-toalha em banheiro público com as mãos molhadas. A diferença é que o que poderia rasgar era o meu interior. Literalmente. Mesmo assim, eu poderia ter feito com somente quarenta dias, essa opção me foi oferecida. Afinal, se fosse para entrar uma mão exorcizando um saco plástico das minhas mamas, que fosse aquela treinada pela formação em medicina, não as minhas desesperadas e disfóricas. Da mesma forma, o SUS requer dois anos de acompanhamento psicológico e mais sabe-Deus-quantos de espera na fila dos hospitais que possuem o serviço de CRS, mas as pacientes que mutilam seu próprio órgão sexual ganham prioridade. O principio é o mesmo. Sob condições extremas, os pré-requisitos são abrandados para salvar a vida da paciente.

Depois de meia hora de conversa franca e direta, no entanto, as condições não eram mais extremas. Uma equipe disposta e uma Mayra calma concluíram juntas que o "quando" fica melhor para o inicio do mês de maio, completando quatro TPM's depois da primeira incisão. Pertinente, também... tendo nascido no dia 17 de maio de 1988... que presente melhor que a forma corpórea final que eu sempre desejei e busquei? E chorei, e esperneei, e gritei para conseguir... Além disso, desafio-os a descobrir a assimetria por cima das roupas. E modéstia à parte, se você estiver me vendo nua, não serão dois centímetros de mama para lá ou para cá que prenderão sua atenção..

Então sento-me a bunda calmamente na frente de meu companheiro virtual de todos os dias e dedilho seu órgão sensitivo através do qual mostro a vocês que... estou bem. Sei agora o que há comigo de forma realista e conclusiva. Sei o que deve ser feito para resolver o problema. Sei quem vai resolver, como vai resolver e quando vai resolver. Para os religiosos dentre o público, essa ocorrência recente pode ser aquele velho papo da frase certa com linhas tortas. Talvez eu estivesse precisando ver esse pessoal de novo. Talvez precisássemos conversar cara-a-cara mais uma vez. Talvez, quem sabe, isso ainda termine de forma mais elaborada e benéfica a todos do que esse amontoado de pensamentos desconexos e emotivos que eu ainda tenho a audácia de chamar de blog. Ou eu simplesmente precisava tomar uma dose de paciência.

Beijos,
Mayra

p.s.: a ponderação de, pela primeira vez na vida, ter decidido esperar antes de tomar uma atitude, achando que um tempo mais à frente será mais propício do que o atual para se resolver algo, eu dedico à minha amiga Elisa Rezende. Fica bem, filha :)