16 de fevereiro de 2013

Gangorra

Passado um pouco do choque negativo com os seios, somado ao alívio de falar finalmente sobre isso e ter o retorno de muitas mensagens positivas, quero reportar, tecnicamente, minha impressão deles, ao invés da forma sensacionalista como fiz no post anterior.

...mas primeiro!

Postei novo vídeo, dessa vez discursando sobre o papel (or lack, thereof) da figura masculina na minha transição e como algumas pessoas reagiram ao processo.





Voltando à questão dos seios. Primeiro, para contextualizar a situação, o seio esquerdo é o que está mais baixo e do qual o mamilo aponta mais para cima. Os implantes são sub-musculares, a incisão foi feita abaixo da mama e a prótese é texturizada, perfil alto, 375ml.

Agora eu descrevo fisicamente o cenário como referência informacional às futuras viajantes dessa estrada. O seio direito se projeta mais para frente e para cima, é mais duro ao apertar, e tem o mamilo insensível ao prazer após a cirurgia. Durante as duas primeiras semanas eu conseguia sentir as costas da prótese sendo pressionadas contra o meu corpo. Se eu ficasse mais de 20 minutos em pé ele doía agudamente pela pressão muscular na parte dianteira da prótese. A cicatriz fica situada no limite entre o seio e o tronco.

O seio esquerdo se projeta mais para baixo e para o meio do tronco. Ele é macio ao toque e o mamilo jamais perdeu a sensibilidade. Nunca doeu de forma alguma, nem senti qualquer pressão  A cicatriz fica na parte inferior do seio (já que ele termina um pouco depois do outro).

Na primeira semana de recuperação, belo dia acordei sem conseguir respirar devido à dores mais agudas que uma facada no intestino. Elas apareceram em dois locais: atrás do seio esquerdo e na parte inferior esquerda das costas. Eu cheguei a chamar SAMU, mas consegui me levantar e pegar um táxi. Hospital público, nem que me pagassem. Enfim, não descobriu-se a origem e a suspeita foi de gases. Isso foi empiricamente confirmado mais tarde pois as dores voltaram e a chave para passar por aquilo era pressionar com força a parte inferior das costas e arrotar mais que uma maria-fumaça.

Agora veja bem, eu NUNCA na minha vida tive acúmulo de gases que causassem dores. Enfim. Mais recentemente eu senti essas mesmas dores do lado direito do corpo, nos mesmos lugares. Felizmente, a intensidade foi um centésimo da experiência anterior, ou eu acho que teria morrido.

Sobre a situação atual, a equipe percebeu a profundidade da minha necessidade de conselhos e entrou em contato comigo menos de quinze minutos após minha ultima postagem. O resultado é que verei-os segunda-feira em uma passada vapti-vupt por São Paulo. Enquanto isso, conjecturo futilmente possíveis diagnósticos.

1 - Afirma-se comumente que as próteses "descem" depois de um tempo, se acomodando em sua posição final. Apesar de minhas observações de imagens pós-operatórias me fazerem crer que o que desce é a ponta dos seios, no sentido de fazer aquele pequeno "u" no comprimento entre o a caixa torácica e o extremo externo, pode ser que isso se refira à posição de "inicio" do seio no corpo. Nesse caso, pode ser que a prótese esquerda esteja, na verdade, na posição pretendida quando da cirurgia, e que a direita ainda não tenha descido como planejado. Faz sentido por um lado, quando se pensa que meu lado direito é dominante e, portanto, os músculos são mais fortes, o braço mais utilizado - é comum que o lado direito demore mais a se ajustar em pacientes destras. Por outro lado, vejam esta imagem:


Sinceramente, o que parece mais com os seios que estamos acostumad@s a ver? Claro, eu sei, um mês de pós-operatório, o formato dos seios ainda vai mudar muito, etc. De qualquer forma, me parece bem mais agradável aos olhos que os dois seios ficassem como o direito. Se for esse o caso, por mais que o resultado estético divirja de minhas expectativas, eu provavelmente o aceitarei simplesmente por não precisar de uma operação corretiva.

2 - A prótese esquerda pode ter descido além do limite inferior planejado e a direita estar na posição correta. Isso pode acontecer pela pressão muscular vencer a resistência da cicatriz interna inferior e o atrito com a pele e fazer com que a bolsa criada durante a operação se esgarce. Ou a bolsa pode ter sido criada de tamanho exagerado. De qualquer forma, isso me remete a uma lembrança. Quando eu ainda estava parcialmente sobre efeito da anestesia, acordando na UTI do Green Hill, lembro de ter ficado extremamente agitada e me levantado para falar com a menina que estava do meu lado. Fico pensando... será que usei o braço esquerdo para me levantar na hora e a operação foi kaput? A paciente não deveria ter sua movimentação restrita na UTI para não fazer esse tipo de asneira? Enfim, se o caso for esse, o que em inglês se chama comumente de "bottom out", a unica correção possível é a cirúrgica, e ai, faca nela.

3 - Essa aqui é a possibilidade mais mirabolante, mas acompanhe meu raciocínio. Naquele caso que contei de ir parar no hospital por dores, fiz um ultra-som que detectou um certo acúmulo de líquido na parte superior da mama direita, entre a prótese e o músculo.  Percebe como a distância entre o mamilo e os extremos do seio parece mostrar que a parte superior se encontra desproporcionalmente maior? Bom, as dores no dia eram do lado esquerdo, mas o mais interessante é que elas foram precedidas, em todos os casos, pela sensação de movimentação interna atrás dos seios. Sim, eu sei que nao tinha um filhote de face-hugger perambulando por dentre os meus tecidos, então ou eram gases ou era líquido.

Suponhamos então  por um instante, que o líquido o seio direito também existisse no esquerdo, mas ele desceu e se acumulou na parte inferior, e que nenhum dos seios esteja na posição final, o direito parece mais alto por um inchaço em cima, e o esquerdo mais baixo por um inchaço embaixo...? Eu nunca ouvi uma história dessas, mas mantenhamos a esperança? Nesse caso, alem de não precisar operar novamente, os seios não ficarão em nenhum dos dois formatos quer agora se apresentam.

Bom, não adianta supor. Segunda-Feira volto à selva de pedra e reporto a vocês as novidades. Agradeço os trocentos mil, duzentos e oitenta nova vírgula quarenta e três e-mails, mensagens e comentários naquele post de "relaxa, fica tranquila, não está tão ruim, tem solução" e coisas do gênero. Dois amigos chegaram a indicar advogados, e enquanto eu acho legal que tenham se preocupado comigo, julgo isso desnecessário no momento. A equipe tem se mostrado atenta e compreensiva e não há motivos para imaginar que mudariam de atitude agora, principalmente considerando nosso histórico positivo.

Gênero. Heh. 'Tendeu?

Beijinhos,
Mayra