28 de dezembro de 2012

Aos Perpetradores do Fim do Mundo

Sempre que há uma previsão de fim de mundo, afirma-se que o "mundo como o conhecemos" pode acabar. Isso significa a organização de sociedades, de Estados, de capitalismo, de confortos diários, pois já é aceito que o planeta, mesmo que se tornasse inabitável para os seres humanos, continuaria existindo como corpo celeste. Pois bem. Utilizando esse ponto de vista, minha vida sofreu um apocalipse maior do que eu poderia, em qualquer época anterior da minha vida, imaginar. O mundo como eu o conhecia acabou. Mas para afirmar isso, primeiro se faz necessário analisar e constituir que mundo exatamente era esse que não existe mais. Ai sim eu posso perceber claramente como ele mudou, e agradecer todos os responsáveis por isso.

Como um robô programado. Assim vive 
a maioria das trans pré-transição.
Vejamos. Minhas relações sociais eram falsas e totalmente desagradáveis. Por mais que eu amasse a companhia, tinha de fazer um esforço enorme para parecer razoavelmente agradada com a situação toda. Cumprimentava as pessoas de forma mecânica, deixava meus amigos sempre escolherem para onde íamos, usava a primeira roupa que achasse no armário. Com relação a isso, prendia sempre o cabelo ao sair de casa. Em retrospecto, é fácil dizer que isso era medo de expor meu lado feminino, de expor Mayra, a quem Marcelo devia proteger a todo custo. As roupas todas, na hora de comprar também, preguiça e desânimo. Eu estava sempre na sessão errada da loja, afinal. Deixava esse encargo nas mãos de parentes durante aniversário, festas e outros eventos que precisassem me presentear, ou nas de Jana... que escolhia sempre minhas roupas, vide minha falta de animo. Mulher, inclusive, que me fazia invejar toda atenção, o cuidado, a preocupação com os detalhes que investia ao se preparar para sair de casa: quem dera eu pudesse experimentar maquiagens, saias, blusinhas, tivesse problemas com aperto de sutiã e saltos. Era isso que pendulava em minha mente.

Nwylith, como ela era em uma mesa de
RPG que participei no ano passado.
Aliais, mesma mulher que eu depositava todas minhas expectativas. Queria que ela malhasse, malhasse e malhasse e usasse roupas que não tinham absolutamente qualquer relação com seu estilo. Bem verdade que essa minha imposição pela beleza levou-a ao mundo dos cosméticos, da moda, da pesquisa em blogs alheios por tendências e novidades. Passado esse ponto, no entanto, se tornou irreal e desnecessário, e graças a deus sua forte personalidade impediu quaisquer tipo de desvios ou exageros. E então existiam os jogos online. Ultima Online, principalmente, foi aonde durante tanto tempo eu vivi uma vida feminina. Mais de um ano, eu acho, logava todo santo dia, jogava algo entre 4 e 10 horas por dia. Primeiro tive um personagem elfo que me rendeu meu apelido na internet: Anomas Kamath. Logo comecei a jogar com meninas, elfas. Nwylith, principalmente, é um nome que guardo ainda. Nesse servidor era requisitada interpretação integral - você precisava inclusive de uma biografia razoavelmente bem escrita para ter sua conta aprovada. E la ia eu... a arqueira, de armadura de couro batido, construtora de arcos, carpinteira e lenhadora, vivendo nas vilas élficas e visitando as cidades humanas, e sendo a mulher sensível porém forte que hoje eu apresento na vida real às caras, ouvidos e bocas que me aparecem através dos dias.

Por último, na solidão. Em momentos de "Eu, Eu Mesma e Mayra", o espelho, como muitas de nós colocam, era meu pior inimigo. Com o tempo de academia, eu fui me tornando cada vez mais homem - o que parecia maravilhoso e horrendo ao mesmo tempo. O rosto, os ossos, as proporções... nada me satisfazia. Não importava o quão melhor eu ficasse, eu nunca me sentia... feliz. Livre. Por consequência, guardava uma energia ruim, um rancor, uma raiva, de fonte indistinguível mas de consequências transparentes: a cara amarrada, os poucos assuntos, a desmotivação de ser vista.

Bem verdade que me tornei uma mulher
um pouco... diferente. Mas ainda assim,
realizada. Feliz.
Meteoros, tsunamis, enchentes, queimadas, terremotos, furacão. Muita coisa mudou mas muita coisa ficou, e agora percebo quem, realmente, sou para mim e para o mundo. Não tenho mais asco de comprar roupas. Posso manter um pouco de preguiça por vezes, mas adquiri uma resiliência inesperada a ficar tirando e colocando peças diferentes, a andar, a carregar sacolas. Socializo fluidamente, falo facilmente, rio levemente. Desavergonhei das munhecas, dos falares finos, da linguagem do corpo. O que antes eu tinha medo que me traísse, agora eu tenho como propriedade indissociável pessoal. E no espelho... bom, caso olhar-se no espelho, reparar detalhes, fazer poses, gravar na mente a própria nova imagem um dia se torne crime, eu serei a primeira na fila da pena de morte. E vai ser desenvolvida alguma forma de reencarnação, para me condenarem duas vezes.


E muito pouco disso é realmente mérito meu, então distribuamos as medalhas a quem as merece. Não seguirei nenhuma ordem especifica, exceto a da vinda à mente.



À Jana, o premio Nobel de paciência por ter cuidado de mim depois da cirurgia facial, ter me ajudado a aprender como me vestir, como me mexer, como falar, como me maquiar; ao meu tio Ricardo, que me cedeu um apartamento para ficar hospedada após a cirurgia, assim como acontecerá novamente em janeiro para o implante de silicone; aos meus avós, por não terem apresentado quaisquer objeções à nenhuma parte do processo; ao meu amigo Leonardo, por eu ter enchido o saco por tantos anos chorando as mágoas por e-mails ou conversas; à minha amiga Bia pela oportunidade em sua empresa; à equipe da Facial Team por uma operação facial muito bem feita e um tratamento muito delicado e considerativo; à tantas que me doaram roupinhas logo após a transição; ao parente que pagou a FFS, apesar de até hoje não querer ter seu nome publicado, e; à tod@s que me aconselharam ou serviram de exemplo contando suas histórias, dietas hormonais e publicando suas fotos, além de todos os familiares e amigos que me aceitaram e que tem a capacidade de conviver com carinho e respeito, sem problemas.

Todas essas pessoas trabalharam para o fim do meu mundo... de reclusão, de medo, de frustração, insatisfação, vergonha, tristeza... o mundo, como eu o conhecia, acabou. E devo um muito obrigado à muita gente.

Tenho, aliais, um texto de final de ano para mostrar. Postei-o no Facebook, mas como recebi mais de 60 likes, penso que poderia ser útil eterniza-lo aqui.

"Conheci muita gente esse ano. Nasci, acordei como Mayra, me entreguei por inteiro para o mundo e, em troca, o mundo se abriu para mim. Adicionei zilhões de pessoas especiais à minha vida e algumas até ao meu coração, e se tornaria robótico e automático desejar feliz natal - e pior, em menos de uma semana, feliz ano ano - para cada um de vocês.

Desejo, de forma simples mas sincera, uma noite de reunião, paz e carinho, e um 2013 de renovações, mas daquelas importantes e amedrontadoras. Para aqueles que não consideram estar em forma, um ano de dieta controlada, de exercícios, de atividades, e muita beleza. Para aqueles que procuram a entrada no mercado formal de trabalho, um ano de muito estudo, muito aprendizado e oportunidade. Para aqueles com o coração doido e cansado, 12 meses de força, equilíbrio e superação. E para tantas e tantas meninas que eu tenho estado em contato, presas nos seus corpos masculinos, presas pelas expectativas idiotas de famílias covardes e de uma sociedade inescrupulosa, um ano de nascimento natural, daqueles que rompe as barreiras e faz rir e chorar sem medo, sem pensar duas vezes.

Vamos transformar esses últimos dias na festa preemptiva de um 2013 de muito azar. De azar para os homofóbicos, para os ignorante, para os violentos, para os machistas e todas as outras pragas que permeiam nossos círculos e, com sua presença, tentam somente denegri-los."

Simbora ser feliz =)

Então, a todos aqueles que me ajudaram de alguma forma na realização deste sonho tão grande, tão importante... sabendo ou não, querendo ou não, falando ou simplesmente calando seus medos e preconceitos... obrigada. Muito obrigada.

Beijos,
Mayra