5 de dezembro de 2012

Colaborações: Efeitos Heterodoxos da Terapia Hormonal

Por Elisa Rezende

É só digitar “MtF hormônios” no Google que já encontramos incontáveis textos sobre os efeitos da hormonização para a transição de gênero, bem como incontáveis receitas e dicas a respeito.  Antes de tudo, é sempre bom reforçar a importância de se evitar a auto-medicação e buscar orientação especializada por mais difícil e desestimulante que isto possa ser.  Nossa saúde é coisa séria e não merece ser arriscada.

Bem, o objetivo deste meu novo artigo é prestar alguma informação, mas sem estar “chovendo no molhado”, repetindo o que todas que já pesquisaram a Internet “um par de dias” já descobriram.  A minha intensão, agora, é descrever algumas das impressões e descobertas de quem está ainda no terceiro mês de hormonização, comentando coisas que me foram totalmente omitidas anteriormente, verdadeiras e inesperadas surpresas, algumas até bem interessantes. 

Vamos lá.

Vamos esclarecer, para quem não me conhece, algumas peculiaridades minhas, importantes.  Sou o que se chama de “transexual tardia”, tenho 51 anos e, embora tenha tido o sentimento de me sentir mulher desde a infância, somente agora consegui me aceitar, e desistir de tentar uma vida masculina.  Tá certo, podem me chamar de “transexual lentinha”, é mais apropriado e eu mereço... Enfim, o resultado disso é que quarenta anos de testosterona fazem um estrago razoável no corpo de uma mulher. A começar pelos cabelos, que praticamente sumiram todos, restando apenas aquela clássica coroa em volta da cabeça, com toda a parte de cima diretamente voltada para o Sol. Também tenho tanto tempo de vida masculina, consolidada, passei há tantos anos pela adolescência, que qualquer pequena e sutil alteração me chama a atenção e surpreende.

Iniciemos, então, do princípio.  Comprei os remédios e, como toda curiosa emblemática, li detalhadamente as bulas.  Descobri, para grande surpresa, duas coisas bem interessantes.   A primeira com relação aos anti-andrógenos, que se tratam de medicamentos, em princípio, para tratamento de tumor de próstata (espero, com isto, estar já fazendo um tratamento preventivo) e que estamos justamente atrás dos efeitos colaterais “indesejados”.  Ou seja, buscamos exatamente os efeitos que os laboratórios só mencionam muito a contragosto, pois é muito mal para os negócios (deles). Em casos medianamente frequentes diminui a libido sexual.  Ótimo, quer dizer que, quando me montar, não corro o risco do dito cujo resolver se manifestar ?  Em casos frequentes, aumento de peso.  Em casos frequentes, perda de peso. “Peraí”! Quer dizer que pode ser tanto perda quanto ganho de peso? Bem, como estou alguns quilinhos acima do que deveria, então vou escolher a perda de peso, tudo bem? Em casos raríssimos ocorre ginecoplasia, ou seja o tão desejado aumento das mamas, pelo visto, dificilmente será por aí.

Bem, nova surpresa vejo quando li as bulas dos hormônios femininos, estrogênio e progesterona. Pronto, nem bem dei início à minha vida feminina e já estou tratando da minha menopausa!!!! Ninguém merece! É isso mesmo, é tudo remédio para menopausa. Tudo bem, eu estou na idade mesmo, mas e as meninas com 16, 20 anos de idade, como vão se sentir nesta condição? É cruel! 

Ainda bem que esperei este tempo todo, assim não há problema nenhum em entrar na farmácia e comprar os remédios.: “Sabe, são para minha esposa, quem sabe ajuda...”. Para os anti-andrógenos, também é tranquilo: “Pois é, só me faltava esta agora, a idade é foda...” Como podem ver, começar mais tarde tem suas vantagens. Além de que, junto com os remédios de pressão, colesterol, umas pastilhas a mais por dia não fazem diferença nenhuma.

Finalmente comprei os remédios, li suas bulas e comecei o tratamento. Na verdade, uns 40 dias antes eu havia começado com a finasterida para tentar resolver o problema dos meus “cabelos rebeldes”, que fugiram de casa há tanto tempo.  Em algumas semanas comecei a sentir alguns efeitos, bem interessantes, uma discreta penugem voltando lentamente ao seu lugar.  Agora, para a barba, firme e forte como sempre, ninguém escapa do laser.

Já li tantas descrições de experiências em terapia hormonal, os seios começam a crescer, o corpo começa a mudar, a bunda a crescer, a pele macia e branca.  Esta última é de lascar !   Pele macia tudo bem, parece que fica mesmo, mas branca?!?! Minhas queridas, não seria simplesmente porque, se ainda não se assumiu perante a sociedade, ir à praia de sunga e peitões de fora fica um pouco estranho e, consequentemente, paraste de tomar Sol? Seja como for, ler todos estes depoimentos nos coloca a sonhar, e desejar o mesmo.  Mas...

O primeiro efeito que percebi foi uma aumento absurdo no olfato! Que bom, agora posso apreciar melhor os aromas, perfumes culinários... Nada disso! Como as cidades são fedidas! Como se percebe cheiro de esgoto cada vez que passamos perto de uma boca-de-lobo! Como o lixo largado nas calçadas cheira mal! Eu – com meu típico olfato masculino – não tinha a menor ideia disso. Mulher sofre nas grandes cidades! Haja paciência para tapar o nariz a cada esquina.  E o suor...  entrei em um ônibus e... decidi ir à pé, desci no primeiro ponto. Não adiantou nada, cada carro que passava me nauseava com o cheiro da fumaça de escapamento. Ainda bem que, depois de alguns dias, me acostumei. O meu “cheirador” continua ótimo, mas já não sinto náuseas com tanta frequência, mas que fiquei com mania de limpeza, isto fiquei.

Bem, antagonicamente ao efeito descrito no parágrafo anterior, ocorreu algo realmente fantástico comigo.  No início, notei que estava transpirando menos que de costume mas, com o tempo, percebi que, mesmo que fizesse uma longa caminhada sob o sol do meio dia, ficasse encharcada de suor, ao final do dia a blusa parecia que nem tinha sido usada. Mesmo com o meu recém adquirido super-olfato, não percebia nada de desagradável, nenhum cheiro de homem suado, aquela coisa asquerosa que não sei como eles aguentam (e ainda se abraçam, em jogos de futebol, e coisas do tipo...). O resultado é que, agora, me sinto poderosa.  Posso sair de casa, ir para a praia em minha bicicleta, pedalar horas seguidas, ficar ao Sol um tempão e, ao final do dia, não ter de voltar me esgueirando pelos cantos,  com medo de uma – merecida – acusação de crime ambiental por contaminação do ar. E, para isso, nem mesmo preciso colocar desodorante a cada par de horas! Esta importante e fundamental informação sempre me foi omitida, nunca vi nenhum comentário a respeito.

Vocês devem estar pensando, mas e os efeitos desejados? Não apareceu nenhum? Sim, apareceram.  Primeiro quanto aos cabelos, está sendo impressionante. Eu, que já estava buscando ações de fábricas de perucas, vejo que toda a parte “lisa” de minha cabeça, em pouco tempo, começou a ser coberta por uma suave penugem, depois os fios foram engrossando, se firmando e, agora, embora ainda bem pequenos, já tenho uma “cobertura” escura, repleta de fios que acredito, em mais uns 3 ou 4 meses, será a minha cabeleira de juventude, se não totalmente de volta, bastante restabelecida, provavelmente podendo dispensar as perucas. Huau!!!!

E os seios? Todas já comentaram sobre a “dorzinha” nos mamilos, o aumento de sensibilidade. Aumento de sensibilidade o cacête! Dói mesmo! Principalmente quando a pessoa, acostumada a 50 anos de vida masculina, não tem o menor reflexo de proteger “estas” partes. É um tal de esbarrar em portas, encostos de cadeiras, cotovelos alheios... E ainda tem de fazer cara-de-nada-aconteceu, para não dar bandeira!   

E cresceram? Como cresceram! Cada vez que me toco, a cada 5 minutos (qualé, tô no começo, sou uma adolescente ansiosa, apalpo mesmo...), os percebo enormes, sinto-me uma verdadeira Fafá de Belém.  Até que vou diante do espelho e tento ver.  Tá certo, preciso de óculos, a vista já não é tão boa assim, mas mesmo com as lentes postas e limpas...  não vejo nada! Tudo igual, haja paciência, um dia chego lá e, se não chegar, prótese de silicone é para isto mesmo.

Na verdade, na semana passada descobri uma “cereja” no mamilo esquerdo! Durinha, o despertar de minha glândula mamária, que glória! Mas, só do lado esquerdo, será que vou ficar torta? Haja paciência!

Mas não para por aí não. Tem mais. Outro dia, voltando do supermercado, compras de mês, sacolas ecológicas cheias, que as uso, politicamente correta, repletas de latas, garrafas, produtos de limpeza, pego duas no porta-malas, como de costume, levanto as alças e... ficaram lá mesmo! Quem disse que dava para levantar?   Estou acostumada, pego duas sacolas, 20 a 30 kg cada uma e as carrego com a maior facilidade. Quer dizer, carregava...  Agora, é uma de cada vez.  Só espero que não me fure um pneu do carro, como vou trocar?

Mas nem só de mudanças físicas vive uma transgênero em início de hormonização. Ninguém tinha me contado que teria a tão famosa – e temida – TPM.  É a coisa mais louca do mundo. Uma noite, vamos dormir muito bem, felizes, sonhando com a nova vida que estamos começando a conquistar. Na manhã seguinte... choramos! Mas vejam bem, não é que baixou uma depressão, aconteceu algo sério, haja qualquer vestígio de motivo para a tristeza. Nada disso. Simplesmente uma vontade louca e incontrolável de chorar, soluçar com gosto e vontade. Uma angústia no fundo da alma, que nada resolve, apenas caixas e mais caixas de lenços de papel. Aconteceu comigo uma só vez, por enquanto, mas foi a sensação mais maluca que já tive. Absoluta falta de controle e choro incontido, sem saber o que fazer, a não ser beber bastante água para, pelo menos, não desidratar de tantas lágrimas vertidas.

Por falar em lágrimas, eu que sempre fui meio chorona em filmes mais emocionantes, agora simplesmente não vejo mais as cenas finais, aquela do beijo apaixonado e tão esperado, ou do reencontro após a perda de todas as esperanças.  Não é que não goste, adorava e continuo adorando, cada vez mais, admito, quanto mais piegas a cena, mais eu gosto, adoro finais felizes! O problema é que uso óculos, não enxergo nada sem eles e, tampouco, quando as lentes embaçam após molhar tudo com lágrimas e mais lágrimas...  Outro dia, revendo um filme, uma comédia romântica boba, que já havia assistido uma dezena de vezes, chorei, mas chorei de soluçar, de sacudir no sofá, quase em convulsões! Agora visualiza a cena, eu ainda em minha imagem masculina, minha família ao redor, todos assistindo a mesma cena, alguns até bocejando por já terem decorado o final, e a pessoa aqui com o rosto encharcado, soluçando e fungando feito uma louca...

Lembram-se que ao ler a bula do anti-andrógino “escolhi” emagrecer? Bem, tá certo que colaborei deixando de comer as dúzias de pães que liquidava no jantar, mas em dois meses perdi nada menos que 7 kg e atingi o meu peso ideal.  Ponto pra mim!

Como podem ver, minha vida, de fato, mudou muito depois da terapia hormonal. Nada do que esperava, tampouco o que sonhava, ainda terei de esperar muito pelos efeitos mais profundos, para de fato adequar a minha aparência e sentir-me plenamente mulher. Mas, enquanto espero, até que vem sendo bem divertido observar estas alterações em mim, ver o lado cômico da coisa, perceber o mundo ao meu redor de forma diferente, e desfrutar com os sonhos e esperanças que nunca morrem, até se realizarem.

Beijos,

Elisa

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Sabe qual o mais cômico da história? Elisa estava de viagem, eu, Mayra, de boa na lagoa escrevendo o blog, e ela me envia este texto sobre as mudanças observadas em si no dia seguinte a eu postar as fotos sobre mudanças físicas em mim. Coincidência pouca é bobagem. Enfim, comentarei cronologicamente. De intrometida que sou.

Com relação às alterações no olfato, não posso observá-las em mim. Devido à uma renite cronica e forte eu estou sempre com o nariz obstruído, a superfície interna permanentemente coberta por secreção. Dessa forma, excetuando perfumes fortes e recentes, uma cozinha muito bem movimentada ou a central da Comlurb, eu não sinto é cheiro de nada. Agora, sobre o NOSSO próprio cheiro, isso eu notei imediata e intensamente. Lembro, inclusive, de levantar essa questão em um status do Facebook  Antigamente o Marcelo colocava suas roupas para lavar quando adquiriam mal cheiro - geralmente no primeiro, no máximo no segundo uso. Mas e agora que eu posso usar a mesma blusa uma semana sem deixar odores, quando eu lavo? Mais para frente, quando eu amenizei minha dieta hormonal a fim de conservar porcão do meu testosterona, percebi exalar novamente certo odor, mas ainda assim nada comparado ao limão-azedo-do-mês-passado da minha vida pré-transição.

Os cabelos realmente crescem de forma surpreendente. Minhas entradas joviais desapareceram 90%, deixando somente discretas placas de entrada. Sobre os seios em posso confirmar o crescimento lento, a ansiedade e a sensibilidade. Sim, leva pelo menos 6 meses para começar a ter algo que possa ser denominado "seio", sim, checava também seu desenvolvimento a cada cinco minutos durante muito tempo e sim - é necessário aprender a proteger essa região. Certa vez entrei no quarto distraída, errei ao empurrar a porta com a mão e - de forma automática, totalmente passiva, como sempre fazia antes - empurrei com o peito. De presente divido, recebi cinco minutos para me arrepender amargamente deste reflexo físico. Ah, e realmente acontece de desenvolvermos um seio de forma mais intensa que o outro. Isto ocorre com mulheres genéticas mas, ainda mais frequentemente, nos acomete. A solução é o implante de próteses de tamanhos diferentes no momento do procedimento de silicone.

A respeito da diminuição da massa muscular eu não preciso dizer nada, né? 10 quilos em três meses, no meu caso, tudo de massa magra. Vendo as fotos do antes e depois no meu perfil e mesmo aqui no próprio blog, isso se torna bastante óbvio. O jeito é se inscrever em uma academia e levar em frente.

Para terminar, preciso chingar minha colaboradora. Com licença, público. Elisa. Sua quenga. Eu mesma postei sobre a TPM neste exato blog. Todo mês, querida. Você terá isso todo mês. Pelo menos por dois ou três dias o mundo vai parecer, na melhor das hipóteses, sem graça, na pior, a filial do inferno. Ao final deste período tenebroso, levantará de sua cama, se dirigirá a academia e correrá, pulará, e malhará como se nada houvesse acontecido. A situação só piora para quem se relaciona com meninas, como eu e você. Ainda estou tentando descobrir qual o caso mais grave: que a sua convulsão emocional sincronize com a de sua esposa e o exército flamejante da besta chifruda invada a Terra - por um curto período de tempo - ou que este não seja o caso e somente voem pratos em direções aleatórias, mas por mais de uma semana. Quando eu concluir minha pesquisa e tiver uma resposta definitiva, comunicarei publicamente.

Brincadeiras à parte, agradeço de coração esse testemunho, e tenho certeza que leitores e leitoras também. Afinal, ao mesmo tempo que encontramos semelhanças devido à questão da identidade de gênero, encontramos distinções fundadas na distância etária e na particularidade de cada ser humano, e é ótimo que outras histórias estejam expostas aqui. Volto a convidar quem quiser contar a sua, suas particularidade, para o público do blog, sinta-se a vontade de me enviar um e-mail.

Beijos,
Mayra