6 de novembro de 2012

Inimigo Interno

Logo depois da minha transição  nas semanas quando aqueles que me conheciam entraram em contato pelo facebook, por e-mail ou pessoalmente para expressar suas visões e opiniões - majoritariamente positivas e apoiadoras - ouvi de um amigo que, não importava o que eu fizesse, "continuaria a ser homem". Há mais ou menos um mês, uma mulher comentou no meu canal do YouTube, em um vídeo onde nem a voz treinada eu tinha ainda (pois levava a vida masculina) a revolta de que uma pessoa com tal 'voz de homem' pudesse fazer a transição que "hoje em dia qualquer homem" queria virar mulher. Semana passada, outra menina compartilhou seu antagonismo à gravidez dos transhomens, que isso era pertencente ao sexo feminino e, se queriam ser homens, não deveriam poder fazer isso.

O primeiro comentário veio de um amigo gay, o segundo de uma travesti e o terceiro de uma transexual.

Tudo que posso pensar é: sério isso?

Aqueles que sofrem o preconceito e a raiva, que são agredidos visual, verbal e por vezes até fisicamente, que lutam cotidianamente pelo básico direito de ser feliz... fazendo questão de solapar a felicidade do próximo? Eu acho que algumas pessoas não aprendem direito com a vida.

Não faço essa postagem objetivando agredir ou ofender ninguém, nem exatamente reclamar dessas afirmações que não podem ser classificadas de outra forma senão como preconceito. Principalmente porque são coisas que não me afetam profundamente. Eu vim aqui para alertar a propósito da falta de consciência de capacidade de reflexão e da básica empatia humana.

Tenho certeza que o primeiro não consideraria agradável ouvir que, não importa quantos homens ele beije, ainda vai querer uma vagina. Ou que a segunda gostaria de ouvir que alguém agressiva dessa forma só poderia ser um homem. Ou que a terceira realmente concorda com o que falou - obviamente sem pensar - porque se a possibilidade de gravidez é condição necessária para a classificação como mulher, as transmulheres como ela e eu estão perdidas, né?

Mais do que ninguém, os transgêneros de qualquer tipo, e os desviantes do padrão de orientação sexual que se afirmem em qualquer posição, devem ser pessoas compreensivas, tolerantes e abertas. Se nem isso a vida lhe ensinou, amigo, temo dizer que você não esta aprendendo nem as mais básicas lições dessa existência.