14 de novembro de 2012

Colaborações: A Trans-Solidão

Texto de Elisa Resende

Se há algo em comum entre qualquer pessoa transgênero é a solidão. Quem não está passando por ela agora, ou já passou recentemente, ou certamente assim irá se sentir em breve. Não há alternativa, é uma marca inevitável, algo tão certo quanto precisar de óculos para leitura depois dos 40 anos. 

As sensações mudam, os motivos também, cada uma tem a sua história, os seus problemas e dificuldades específicos, mas é inevitável nos sentirmos sós, abandonadas, não reconhecidas, isoladas ou mesmo, como se passa frequentemente comigo, sentindo praticamente não existir. 


Há, sem dúvida, a discriminação, o isolamento pela segregação, pela marginalização imposta a quem é diferente da maioria, a quem não é considerado “normal”, segundo os padrões convencionais-tapados-irrracionais-retrógrados-dominantes. 

É o ostracismo na empresa, forçando ou induzindo uma demissão, os cochichos nos corredores da faculdade, o afastamento de parentes e amigos, os dedos apontados na rua, os risinhos e caras de espanto, que acabam mostrando, dia a dia, como uma acusação: “veja, você é diferente, você não deveria estar aqui, entre pessoas de bem”. Ainda não vivi isto, anseio por chegar nesta etapa de meu isolamento, mas ainda estou em meu casulo, ainda não me mostrei ao mundo, não lhes dei a chance de me descriminar, me acusar, apontar-me os dedos, darem as risadinhas sarcásticas. 

Mas anseio por isso e, asseguro, não é masoquismo, muito pelo contrário. Sofro por me esconder, por não poder, ainda, me mostrar ao mundo, por fingir ser quem não sou. Mas sou realista, sei o que me espera e que estes buracos na minha estrada são inevitáveis. Por isto vivo, ainda, em meu casulo, não me exponho, espero os hormônios fazerem seu – lento e gradativo – trabalho, melhorar o meu aspecto e me aproximar mais da imagem feminina que tanto sonho e há tantos anos espero conseguir, para só então me mostrar, em melhores condições de não chocar tanto com minha imagem, e melhorar – um pouco que seja – a inevitável rejeição que irei sofrer. Não sei se funciona, tampouco sei se é o melhor, mas é como estou fazendo. 

Enfim, esta solidão imposta pela sociedade a quem já se revelou, já se mostrou em seu gênero de coração, o verdadeiro, é algo que ainda me espera, e que não posso, ainda comentar com maior conhecimento. 

A minha solidão é a anterior, a que vem desde antes de podermos existir, sermos vistas – mesmo que mal vistas – como pessoas. É a solidão do segredo, da incerteza e das dúvidas, do início de uma transição sem ter condições, ainda, de conversar com alguém, de ser chamada pelo nome que sentimos ter, e não aquele nome burocrático que nos deram quando nascemos. 

É viver rodeada de pessoas, todos os dias e o dia inteiro, na rua, no trabalho, em casa, e ser vista como um homem, ser tratada como tal, ter de corresponder a estas expectativas alheias e ninguém, ninguém mesmo, nos ver como realmente somos, nos tratar com a delicadeza que qualquer mulher espera, e merece. 

É sentir-se covarde por não conseguir se revelar mas, na verdade, o que nos trava é a insegurança, o receio de magoar pessoas queridas e amadas e, com isto, anos se vão passando até conseguir nos aceitar como somos, entender que só existe um caminho para a felicidade, que é a autenticidade, que é viver, ter sua identidade, de acordo com o seu sentimento, que não adianta fugir, enganar-se que está se conseguindo ser feliz fingindo ser homem. E, tudo isto, leva a um enorme isolamento, uma solidão absoluta, por simplesmente não existir para o mundo que está à nossa volta. 

Só consegui me decidir pela minha transição após não ter mais dúvidas de que este é meu único caminho possível, depois de conseguir me aceitar e, até mesmo, ter orgulho de quem sou, após ter certeza de que, para isto, não teria, nem deveria, esquecer minha vida anterior, abandonar minha identidade e existência, tentar ser outra pessoa. Levei quarenta anos para isso, mas consegui entender que sou quem sempre fui, não preciso mudar, basta me posicionar de acordo com a minha personalidade, não terei de “virar mulher” mas, apenas, deixar de fingir ser um homem. 

Quando descobri tudo isto, minha empolgação, vontade, disposição pelas mudanças eram tão grandes, que não consegui ver o inevitável, que estaria sozinha nesta jornada, pelo menos no começo dela. Não me ocorreu que, embora eu me sinta plenamente uma mulher, pense em mim somente no feminino, veja os homens como “eles”, aos olhos do mundo eu ainda sou um “deles”, ninguém me vê como realmente sou, ninguém ainda penetrou em meu isolamento, ninguém sabe de minha existência e, isto, se traduz na mais absoluta solidão. 

Anseio por ser discriminada e hostilizada, porque pelo menos a partir de então eu estarei viva, eu estarei existindo. Desagradando a muitos, com certeza, mas vista como sou, mesmo que incompreendida. Hoje – assim como milhares de outras na mesma situação – vivo a pior das solidões, que é não ser vista, não existir. 

Elisa Rezende 

Nota: Devo esclarecer que, na verdade, “existo” para quatro pessoas, muito especiais. Meu terapeuta, que há 6 anos me acompanha e, recentemente sabendo de toda esta minha angústia, vem me apoiando e ajudando plenamente. A Wal Torres que, pelo seu trabalho na Gendercare, foi a primeira a me reconhecer e me ajudar. Finalmente, minhas recentes amigas, Mayra e Carmem Maura, que muito tem me “escutado”, apoiado e compreendido. Acredito – pois sou uma otimista incurável – que em breve terei muitas outras pessoas, igualmente especiais, a me conhecerem como sou, e gostarem de mim assim. 

*****

Já me senti bastante assim, Elisa. Minha namorada e um amigo eram os únicos que sabiam. De resto, eu vivia jogando RPGs com personagens femininos e me apresentando como mulher na internet, e me sentia enganando à todos. E tenho certeza que muit@s leitor@s também já estiveram em posições semelhantes.. Agora estou na fase dois e, por mais que seja gratificante a exposição, o nascimento, é bastante difícil também. Sorte e força para todas nós.

Beijinhos,
Mayra