7 de novembro de 2012

Colaborações: Por onde estamos?

Antes de dar inicio à postagem em si, explico seu teor. Estou inaugurando a categoria "colaborações" no blog para postar textos que, apesar de autoria de outrem e possivelmente transmissor de opiniões e ideais divergentes aos meus, possuam o nível de emoção e/ou informação que eu desejo passar através deste blog. Quem quiser participar pode mandar seu texto para meu e-mail, mayra.viamonte@gmail.com, sabendo que prezo bastante pela qualidade orto-gramatical da apresentação e pela ausência de qualquer tipo de vulgaridade verbal ou visual no conteúdo.


Tendo dito isso, dou agora inicio à elaboração de uma amiga relativamente recente, mas bastante querida, bela vitrine de inteligência e ponderação.

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Por Onde Estamos?

Muitos estudos – a maior parte destes bastante sérios – tentam apresentar uma estatística da incidência de pessoas com disforia de gênero na população em geral. Conforme a fonte de consulta, estes números podem variar, para as MtF de 1 transexual para cada 100.000 homens genéticos, chegando, conforme a fonte a até 1 trans para cada 27.000 pessoas. Para os homens trans – FtM – a incidência, aparentemente é um pouco menor, variando de 1:100.000 a 1:400.000, conforme a fonte que se consulta. 

Mas não importam estes números exatos, não estamos aqui para discuti-los, o que interessa é que somos muitos, milhares de pessoas só no Brasil, que já fizeram a sua transição, que esperam por ela ou, mesmo, que vivem intensos conflitos internos, em busca de sua identidade, tentando se compreender, se aceitar, quem sabe um dia iniciarem uma transição, quem sabe jamais seguirem este caminho. 

Até uns poucos meses passados eu estava nesta última categoria, tentando me descobrir, me compreender, lutando contra mim mesma... em busca de mim mesma. Encontrei-me, recentemente, aos 51 anos de idade, vivendo uma vida tipicamente masculina, casado com uma mulher, dois filhos já adultos, estável social e profissionalmente, fisicamente um homem, sem margem a dúvidas e, dentro de mim, finalmente aceitando o que sempre senti, desde a infância, desde as minhas mais antigas lembranças, que sou uma mulher, jamais me senti um homem. 

Iniciei, há dois meses, minha hormonização, já sei o que quero, já estou segura de quem sou e, principalmente, feliz por esta descoberta e auto-aceitação. Estou no início de um caminho difícil, demorado, dolorido, mas é o meu caminho, é a minha identidade, minha felicidade que será enfim conquistada. 

Venho me correspondendo, já há alguns meses, com a Mayra Viamonte, com quem travei conhecimento inicialmente pelo seu blog (Trans.parencia) mas, com o tempo, pela regular troca de EMails, seguimos construindo uma sincera amizade. A despeito de eu ter o dobro de sua idade, temos muito a dar mutuamente, pela minha maior experiência de vida, mas a sua já consolidada transição. A minha ponderação, ante o ímpeto e disposição inerentes à sua juventude. Enfim, nos complementamos e nos compreendemos, cada uma a seu momento sendo capaz de aconselhar e mostrar à outra aspectos da vida que, por nós mesmas, ficavam difíceis de compreender. 

Ela vive no Rio, eu em São Paulo, nunca nos vimos pessoalmente. Bem... na verdade nos vimos. 

Há algumas semanas fui ao Rio – como turista, com minha família – e no último dia de nossa estada, pouco antes de partirmos de volta, fomos almoçar no Forte de Copacabana. Estava cheio, levamos algum tempo para conseguir uma mesa, mas tivemos um almoço muito agradável. 

No dia seguinte, revisitando o Facebook após estes dias sem conexão, logo de início vejo uma foto da Mayra, com uma amiga, no restaurante do Forte de Copacabana e o comentário de “nosso almoço de ontem” ! Em suma, estivemos ambas, no mesmo local, no mesmo horário, fazendo a mesma coisa, sem nos darmos conta que havíamos nos “encontrado”. Certamente nos vimos, sem nos notarmos. Eu vi uma jovem mulher, bonita, com sua amiga, dispersa na multidão. Ela, por sua vez, viu um homem maduro e sua família, um grupo de turistas visitando a sua cidade. 

Mas não percebemos, sequer imaginamos, que estávamos nos cruzando com outra pessoa como nós, que éramos duas transgênero, em estágios distintos de transição, mas com os mesmos sonhos e sentimentos. 

Quantas vezes já não encontramos – na rua, em restaurantes, nos ambientes de trabalho, até mesmo em nossa própria família – com outras iguais a nós, e não nos demos conta disso ? 

Quantas trans ainda presas em seu corpo genético não fazem parte de nosso círculo de relacionamentos, e sequer imaginamos isso ? 

Quantas pessoas encontramos, diariamente, que um dia já viveram no outro gênero, e as vemos, conversamos com elas, e acreditamos que nasceram assim, como aparentam agora ? 

Somos muitos, isto não há dúvidas e, sendo assim, estamos por toda parte, nesta última semana mesmo, cada um de nós certamente já cruzou, na rua, em um ônibus ou numa praça, com algumas outras transgênero. 

Raras de nós são as que não se importam – ou até desejam – em chamar a atenção. Nosso objetivo, em público, via de regra, é passar desapercebida, esteja em que estágio e condição estiver. Ainda presas em nossos corpos originais (como é o meu caso), ou já exibindo a aparência de seu verdadeiro gênero (como a Mayra), o que mais desejamos é que ninguém nos note, que ninguém nos veja como “diferentes”, como algo além do que pessoas absolutamente normais. 

É assim que nos sentimos, no fundo é exatamente o que somos, pessoas normais, como qualquer outra, com a simples diferença – não anomalia ou transtorno – de que nascemos com um corpo diferente do que nos sentimos, do que somos de fato (e de direito). 

Se temos alguma “anormalidade” é a solidão. Somos sós, antes da transição, pois somos de fato desconhecidas junto aos nossos entes queridos, ninguém sabe sequer que existimos, e vivemos – em solidão – uma vida encenada em um papel que não nos agrada. Aquelas que já iniciaram a sua transição, que já se manifestam no seu gênero “de coração”, vivem uma solidão, muitas vezes, até mais cruel, sendo incompreendidas, rejeitadas e hostilizadas, até mesmo por aqueles que nos são caros, frequentemente isolando-se ou tendo de buscar uma nova vida, longe de tudo e de todos. 

É preciso – é urgente – que a sociedade aprenda que nós existimos, somos reais e normais, e estamos por toda parte. Não somos aquelas figuras exóticas e extravagantes que a mídia em geral gosta de divulgar, que a maioria da população acredita que seja a única manifestação de transgenia que exista. 

Somos médicas, engenheiras, advogadas, estudantes, caixas de supermercado, somos qualquer pessoa comum, estejamos já transacionadas ou não, somos nada além de seres humanos, e vivemos nesta enorme comunidade que se chama humanidade. 

Elisa Rezende 
(uma transgênero, em início de transição, e com muito orgulho de si mesma)