7 de setembro de 2012

Outra História: Samantha

Hoje a história a ser contada é de uma menina que, fazendo amanhã 16 anos, já esta bem encaminhada em sua transição. O conto vem nas palavras da própria.

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Quando eu era criança, sempre senti que algo estava errado, mas não sabia dizer ao certo o que, quando eu brincava com minhas primas me sentia muito bem, brincávamos de casinha, comidinha, escolinha e eu sempre queria ser a mulher da história, e sim eu me sentia muito bem, feliz. Um dia meus familiares saíram e eu fiquei só em casa, aproveitei a chance para vasculhar as coisas da minha mãe e achei brincos, roupas, sapatos e maquiagem dai decidi experimentar, fiquei realmente encantada com tudo aquilo, ao mesmo tempo que me passava pela cabeça que isso era errado, e eu tinha apenas 3 anos. Na escola sofria bastante bullying, e na maioria deles os praticantes diziam que eu era bicha, viado e esses tipos de coisa, e não era diferente em ambiente onde eu morava. Eu tentava dizer a minha mãe que eu não era um menino e sim uma menina só que sem palavras, em algumas atitudes demonstrava isso, mas ela dizia que era errado, só que o que era errado? Essas situações me fizeram crescer uma criança solitária e isolada, eram minhas defesas contra tanta "maldade" que eu sofria.
Aos 10/11 anos de idade, eu comecei a me isolar dos meninos, principalmente os da escola, era uma agressão psicológica diária, e não estava mas conseguindo suportar, e foi ai que comecei a me aproximar das meninas onde encontrei pessoas que me faziam sentir bem me sentia segura e aceita, e isso ajudou na hora em que eu finalmente me "assumiria". Em uma noite a qual eu não me lembro, estava ouvindo uma música na rádio - O que você sempre quis - da Banda Stevens, e foi com essa música que eu finalmente criei forças para decidir entre ser Feliz e Continuar com a vida chata e sem motivação que eu tinha, e minha escolha foi ser FELIZ. 7 meses depois, adotei em mim uma tribo urbana, inicialmente era um pretexto pra ver se minha mãe percebia logo o que eu realmente era, pois nunca gostei de roupas masculinas e tals e comecei a dizer que fazia parte do estilo roupas femininas em meninos, no inicio era negação, mas essa negação toda tinha incentivo por parte da minha irmã, que nunca concordou com nada do que estava acontecendo comigo . Já era noite e minha mãe estava fazendo chapinha em mim quando perguntou se eu era gay, antes de responder tentei expressar um pouco da mágoa que sentia por ela, mas não adiantou muito, então simplesmente me calei, naquele momento eu estava com a sensação "tirei um peso das costas".
Minha vida a partir dai se transformou totalmente, me sentia melhor, conheci pessoas maravilhosas que fizeram eu ter outra visão do mundo, só que ainda faltava alguma coisa. Sempre que eu saia com amigos gays via que tinha alguma coisa errada mas não sabia ao certo o que estava errado, era diferente deles, eu queria sempre estar o mais feminina possível, eu gostava de ser confundida com mulheres e não sentia prazer ao beijar outros gays, eles diziam que Travestis era homens que se vestiam de mulher e transsexual era homem que queria vira mulher e fazia a cirurgia de mudança de sexo, eu nunca me senti nada disso que eles diziam, eu não era um homem querendo virar mulher e também não sabia explicar o que era. Foi em setembro de 2011, o mês de meu aniversário, que eu finalmente fui entender melhor o termo 'Transsexualidade' , que estava passando em uma reportagem. A partir daí, comecei a estudar a transsexualidade , com uma dedicação que nunca tive antes e ali comecei a me identificar com história que eu ouvia e finalmente descobri o que eu era , nunca fui um homem querendo virar mulher, eu sempre fui uma mulher no corpo de um homem, a partir do momento que entendi isso comecei a entrar em transição. Com algumas pesquisas feitas por mim na internet, comecei a tomar conhecimento do hormônio, e fiquei louca para começar a tomar, pedia anticoncepcional para minhas primas, e quando vi as transformações que estavam acontecendo com meu corpo simplesmente me tornei totalmente dependente, sempre soube dos riscos mas não me importava e talvez por sorte, nunca sofri efeitos colaterais. No início dessa transição, minha mãe me disse pra parar que se eu quisesse "virar" travesti ou o que fosse, que eu esperasse até meus 18 anos e minha independência financeira pra isso. Com o tempo e acompanhando o processo todo, ela começou a aceitar melhor, tanto que hoje ela que me compra os hormônios, só que ai vinha outro problema meu nome social, como que eu ia fazer pra acostumar uma pessoa que minha vida toda me chamou de Kaio, passar a me chamar de Samantha? Eu pedi que me chamassem assim, porque Samantha é quem realmente sou, e a desculpa que dão até hoje é "Não to acostumado", mas como uma pessoa que não tenta vai acostumar? 
Hoje em dia, as coisas estão melhor, sou aceita por toda a minha família e inclusive na escola todos também me chamam de Samantha, e quando um professor não me chama assim, os meninos o corrigem, e posso dizer que o bullying eu não sofro mas, parece que quando eu me assumi, as pessoas começaram a me aceitar mais, claro que eu respeito o espaço de todos e isso contribuiu. Meu corpo esta já com o formato feminino definido, acho que meus maiores problemas estão no rosto, tenho muitos pelos e me mato todo dia pra tirar 1 por 1 na pinça e meu queixo é muito quadrado, mas eu tenho um truque e consigo passar por uma menina normalmente, no dia 8 de setembro, vou experimentar o antiandrógeno, que vai melhorar e muito minha autoestima, mas além disso preciso de algo que considero o mais importante, a cirurgia de redesignação sexual para me sentir uma mulher por completo. Não sou muito experiente mas tudo que vivi fez eu ser uma pessoa melhor, sem preceitos e com mas compaixão ao próximo, e sem medo de ser FELIZ. 

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Feliz aniversário e parabéns por ter realizado seu sonho tão cedo, e poder desde já se apresentar ao mundo com seu verdadeiro "eu" =)

Beijinhos,
MayB