11 de setembro de 2012

Inspiracionização

Meu humor, minha disposição para o mundo, funciona em ciclos. Eu passo meses bastante eufórica, comunicativa, brincalhona. Depois, alguns meses fechada, introvertida, pensativa. Esse foi o motivo de eu ter adiado minha transição durante uma década desde que comecei a sentir os sintomas disfóricos. A empolgação com uma ou outra coisa, um jogo de computador, uma menina nova que eu conhecia, uma matéria interessante na faculdade... me mantinham... satisfeita. Temporariamente. Também foi o motivo pelo qual eu decidi o momento de fazer a transição. Cada ciclo introvertido vinha acompanhado de uma depressão continuamente crescente, pensamentos suicidas e muita insatisfação.

Esses ciclos são todos motivados por algum evento, apesar desses eventos nunca se constituírem os únicos culpados. O último ciclo depressivo foi no mais ou menos em agosto do ano passado. Ao voltar de férias de Salvador e retornar ao semestre da faculdade, as coisas ficaram bem complicadas. Foi o momento em que percebi indubitavelmente que deveria fazer alguma coisa com relação à minha identidade de gênero. Passei meses pesquisando sobre como agir, como já havia feito em épocas anteriores da minha vida. Dessa vez, por acaso, três coisas me permitiram transcender o planejamento para a ação.

A primeira foi o canal do YouTube da Jesslyn. Eu vou deixar algumas fotos dela, e o link, para vocês descobrirem autodidaticamente o porque de ter sido tao importante para mim.












Minha conclusão imediata foi que meu corpo não apresentava nem metade do tamanho do dela, então os músculos que eu achava que seriam um enorme problema não representariam nem um minimo empecilho. O que se mostrou uma verdade absoluta. A partir daqui, eu sabia que conseguiria fazer.

Depois, conheci o site www.transgendercare.com que possui, entre uma miríade de informações, uma receitinha de bolo básica para hormonização. Há muitos desses sites pela internet, mas esse possui dois diferenciais: a linguagem demonstra um certo nível de profissionalismo e cuidado, e a receita não depende de nenhuma substancia injetável nem nenhum remédio muito agressivo. 

Ok, Espironolactona pode causar trombose. Finasterida pode causar impotência. Estrofem pode causar enjôo. Mas comparado às alternativas, pareceu-me excelente. O Androcur, alternativa comum à Espiro e à Finasterida, causa total impotência e, se sua ingestão for interrompida, uma androgenização bastante poderosa. Para usar o Perlutan você precisa ficar indo à farmácia pedindo para um individuo desconhecido enfiar algo em você (ui) ou fazê-lo você mesma o que, com minha vasta experiência em farmacologia e medicina, pareceu-me uma possibilidade insensata. Enfim, a partir daqui, eu já sabia que podia fazer o o que eu deveria fazer.

Por fim, fui apresentada a meu presente terapeuta. Ele havia participado de um grupo de estudos com meu mais caro e mais antigo amigo, e já havia entrado em contato com a questão de identidade de gênero. Já havia, aliais, acompanhado um terapeuta que fazia, por sua vez, o acompanhamento de uma transsexual pelo SUS. Rapidamente descobri que, além de familiar com o assunto, era um profissional qualificado e gentil. Nesse momento eu sabia que podia fazer, o que fazer e como fazê-lo. E fiz.

Cheguei a explorar alternativas. Fui no HUPE tentar investigar a possibilidade de participar do SUS, mas decidi não ser o melhor para mim. Me consultei com endocrinologistas do meu plano de saúde, mas não encontrei ninguém com o menor conhecimento no assunto. Por fim, me auto medico e sou feliz. Claro, posso estar toda podre por dentro também, então não é uma decisão exatamente aconselhável. Mas era o que eu podia fazer na época, e ainda é.

Enfim. Desde que comecei a ingestão hormonal em 10 de dezembro de 2011, seguida de mudanças físicas que me deixaram extremamente contentes, de uma cirurgia facial completamente satisfatória e de toda a reação positiva que recebi, através desse blog, do Facebook e de amigos pessoais, com relação à minha transição  vivi um estado de euforia superior à qualquer ciclo anterior na minha vida, assim como o ultimo ciclo depressivo havia também se constituído no mais poderoso - e inspirador. No presente dia, no entanto, declaro essa euforia... falecida.

Não estou depressiva de forma alguma. Aliais, essa foi minha primeira epifania do dia, e fico muito satisfeita em constatá-la: pela primeira vez em... sempre, eu me torno introvertida sem me detestar. Mas sinto minha empolgação se esvair, meu espirito cansar, meus atos e pensamentos se sucederem mais lentamente e minha alma, repousar. Os últimos meses, todos eles, foram de muita satisfação, muita realização e muito esforço. Mais psicológico do que físico, admito, antes que a voz da oposição se levante para me acusar do ócio e do lazer como crimes ou pecados. Mas enquanto meus braços e pernas não foram forçados além do que o prazer pessoal me impõe, nos exercícios de academia, o coração e a mente foram exigidos em um nível exponencialmente superior à qualquer época anterior. Chorei, com efeito, mais lágrimas durante os últimos 9 meses do que durante todos aqueles que os precederam em minha vida.

Fecundei. Gestei. Nasci. Sou um bebe recém nascido arremessado ao mundo como que no espasmo muscular de uma mãe em trabalho de parto. Agora chega, cansei. Continuo andando, crescendo, pensando e fazendo. Mas... devagar. Devagar se vai ao longe.


Beijinhos,
MayB