20 de junho de 2012

Do Outro Lado

Até esse mês, não havia rezado havia pelo menos 8 anos. Nunca fui uma pessoa de fé. Eu sei que há coisas além do que percebemos com os cinco sentidos. E note bem, eu usei a palavra "sei" e não "acredito", pois existe uma diferença entre pensar algo porque você se sente bem em pensar isso, e pensar algo porque você já teve provas. Independente disso, eu nunca acreditei na reza, no pedido, na comunicação direta. Da imploração. Até agora.



Bom, ocorreu comigo como com certeza com muitas outras. Rezei por desespero. Rezei por não saber mais o que fazer, por ter esgotado minhas forças e minhas ideias para a solução de minha vida pessoal. E por isso, pedi. Implorei. Comecei, como ato de reconhecimento, agradecendo pela ajuda que, certamente, alguém, seja la quem for, me deu nessa transição. Excetuando o lado financeiro da questão toda, como dinheiro para hormônios  para a cirurgia e as compras, não houve nenhum problema. Nenhum. Situações que nos deixam desconfortáveis acontecem, mas em pequeníssima quantidade... e nada grave.

Depois, chorei. Pedi. Primeiro, pelo bem estar de uma amiga que acabou de perder o pai. Depois, pela saúde de uma pessoa amada, muito mal em casa com uma doença. Em seguida, pelo bem estar de outra pessoa amada que passa por um momento pessoal quase impossível. Por fim, por um guia, uma luz para meu caminho, que se encontra encoberto em névoas. Ao acabar os pedidos, encoberta em lagrimas, em não sentia mais desespero, mas calma. Tranquilidade. Um "vai ficar tudo bem, vamos cuidar disso" sussurrado metaforicamente em meu ouvido. Logo senti um sono profundo, poderoso, imponente. Eu, que tenho problemas infinitos para pegar no sono, que viro, giro, acordo, estava eufórica e nervosa em um momento, com os olhos pesados como pedra dez segundos depois e, em mais dez, havia pego no sono, me entregue a esse cobertor invisível que havia descido sobre meu rosto. Acordei 15 minutos antes do horário de ir para o trabalho, ao invés de acordar no meio da noite para ir ao banheiro como acontece quase todo santo dia.

Não vou afirmar que gritei "Pelos poderes de Grayskull" e caiu um raio em minha mão em resposta. A vida não é assim tao obvia. Mas menos do 24 horas depois, a pessoa doente se encontra em estado consideravelmente melhor, tanto físico quanto emocional. Segunda feira ela mal falava ao telefone. Hoje, riu e conversou comigo por 20 minutos na linha, sem um traço de sofrimento na voz, apesar da permanência das dores e dificuldades. A segunda pessoa teve uma excelente noticia, apaziguando um pouco seu coração e suas esperanças. A menina que perdeu o pai ainda não tive noticias.

E dai? Bom, imaginei que a unica forma de agradecimento que eu podia inventar era essa. Já que há um certo número de pessoas que presta atenção naquilo que falo, decidi falar. Peçam. Implorem. Chorem. Se entreguem. Não usem essa ferramenta como poder pessoal, do tipo "Deus, me ajude a conquistar a pessoa tal." Quem quer que esteja do outro lado, eles não são seus funcionários  são só seres que veem o mundo de forma diferente, e enxergam coisas que de nos estão escondidas. Se assemelha a fazer um trabalho em grupo com estudantes de outras culturas: se você for mandar ele fazer algo muito detalhadamente, ele vai fazer de má vontade, ou nem vai ajudar. Se você configurar alguns limites (me ajude a ter força para passar por isso, isso e aquilo, ajude a pessoa tal a tomar a decisão correta, ajude minha filha a superar tal coisa), e deixar ele trabalhar da forma que ele sabe, quem sabe, você não tem uma surpresa agradável?

E vamos que vamos. Durante muito tempo achei que caminhava essa estrada sozinha. Desisti. Agora dou as mãos e ando em grupo. A amigos e companheiros, presentes plenamente no mundo físico, ou não. Vamos que vamos.