20 de junho de 2012

Autoginecofilia

Um termo polêmico criado por um cientista polêmico. Fomentado por preceitos demasiado limitados para falar da natureza humana e portanto, prejudicial à disseminação da compreensão, por outro lado apoia incondicionalmente o suporte médico e financeiro dos governos aos cidadãos transgêneros e, pior, que contêm uma porção inegável de verdade. E isso tem aplicação na vida de muitas trans que eu conheço. Vamos descobrir como?

Pera... confundiu tudo, né? Deixa eu melhorar isso.

Autoginecofilia é o desejo sexual por ver a si mesmo como mulher. Pense sobre isso. Ademais, ele faz parte de uma reflexão que afirma que a transsexualidade possui duas (e somente duas) vertentes: em alguns, uma homossexualidade exacerbada (tão gay que quer ser mulher, basicamente), e em outros, o desejo sexual de se ver como uma mulher (completa ou parcialmente).

O criador dessa reflexão se chama Ray Blanchard. Ele afirma, entre outras coisas, que a homossexualidade masculina pode ser analisada, com relação à causas, de forma matemática e biológica: quanto mais irmãos velhos o homem tem, maior a chance percentual de ele ser homossexual devido a um efeito hormonal, na mãe, da gestação de fetos masculinos. Ao mesmo tempo, ele é defensor do financiamento governamental da CRS, Cirurgia de REDESIGNAÇÃO sexual. Re-DE-signação, ok? A quantidade de e-mails que eu recebo chamando isso de "resignação" desenvolve, em mim, a vontade mórbida de desenterrar a mãe de algumas pessoas. Bom, voltando ao assunto...

Ele afirma o que é diametralmente oposto às coisas que gostamos de acreditar, não é? Tentar buscar uma razão biológica e matemática para a variedade sexual humana não torna exatamente mais fácil da sociedade aceitar isso, que é o objetivo da luta LGBT no momento. Pior, dizer que a transsexual ou é gay demais ou faz isso por tesão narcisista é... difícil de engolir. Mas vamos refletir sobre o assunto.

Primeiro, há de ficar claro que quando Ray chama uma trans de "gay", ele se refere à ela como homem. Para ele, a trans homossexual é que gosta de homens. Desculpa, homossexual sou eu que namoro uma menina. Continuando...

Conhecemos muitos gays mais gays do que muitas trans. Isso é óbvio. Personagens como o Clô são caricaturais (e, desculpa a sinceridade, ridículos e perniciosos à mente da população), mas refletem o comportamento na vida real de muitas pessoas. A pergunta que fica é: as trans que não são tão gays assim (quer dizer, que são: gostam de mulheres e têm um comportamento mais sério) são todas androginecófilas? Ou seja, fizeram a transição porque tem o desejo sexual de se ver como mulher?

Honestamente, eu tenho. Parte de minhas fantasias incluem e sempre incluíram esse aspecto. Boa parte. E tem outro aspecto da sexualidade que devemos lembrar: muitos psicólogos e psiquiatras (Freud e Jung inclusos) consideram o desejo sexual uma simples vertente da libido, que é um termo que tem em seu íntimo todos os desejos ou "forças de vontade" de um indivíduo. Olhando desta forma, o desejo sexual visto por Ray pode ser interpretado como simples "desejo", ou seja, vontade, por outras linhas. E se tem uma coisa que uma trans deve possuir para conseguir fazer a transição é essa vontade, essa libido. Então nesse caso, ele está certo.

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Mas qual o impacto disso tudo na vida real das trans?

Um certo narcisismo e autoconfiança no melhor dos casos. Vulgaridade em outros. E, de terceiros, desconfiança.

Eu gosto de me olhar no espelho, e acho que essa é uma emoção presente nas trans que gostam de seu corpo (seja porque já fizeram a CRS/SRS ou porque não sentem vontade de realizá-la). Ouço, constantemente, outras meninas dizerem que ficam excitadas com sua própria imagem, e gostam de se sentir atraentes para seus parceiros e/ou parceiras, de se sentir desejada como mulher.

E.... tem aqueles casos de foto de calcinha e sutiã no blog, no face, no twitter, no g+. Eu sei que por condenar isso eu atraio a desconfiança e ira de algumas de minhas leitoras, mas eu falo isso pelo bem de todas nós, como uma mãe que repreende o filho para que ele cresça auto-suficiente.

Quando eu conto para um colega de trabalho que escrevo um blog sobre transsexualidade, eu testemunho suas expressões de temor e desconfiança, apaziguadas somente quando eu especifico que ele não contêm quaisquer fotos de minha nudez ou semi-nudez. Por quê? Porque isso é comum. Cada vez que alguém descobre que sou trans, ouço a pergunta de "com o que trabalha" ou "com o que estuda", porque essas coisas são automaticamente associadas à prostituição. Eu já disse e reafirmo: não tenho nenhum problema com as prostitutas, XX ou XY. O que eu não gosto é que as pessoas pensem automaticamente que sou uma, assim como você não pergunta para sua amiga, quando ela está grávida de uma menina, se ela vai "ser puta ou ganhar dinheiro como?".

Não façam isso. Eu sei que gostamos de saber que estamos, ao mesmo tempo, nos encaixando no estereótipo feminino com relação às formas do corpo e do rosto, mas a publicação desse tipo de coisa se associa diretamente à anúncios no jornal e em sites de serviços de sexo. A menos que você seja prostituta, aí é simplesmente marketing empresarial... mas caso contrário, sabe o que isso causa?

Falta de respeito. As pessoas se sentem no direito de nos ofender, de nos encarar como cidadãs de segunda classe. Fica mais difícil de sermos vistas como pessoas iguais, com desejos iguais, sonhos iguais e emoções iguais. Fica difícil de arrumar emprego, financiamento, documentação. Fica mais difícil de encontrarmos parceiros e amigos que nos vejam como pessoas comuns. Fica mais difícil a vida... cada passo dela. E em troca você recebe, verbalmente ou de outras formas, elogios vazios e fúteis, sem concretização e, por vezes, mal educados, sobre o seu corpo e o desejo que isso causa na pessoa. O benefício é passageiro. O dano, permanente. É auto-sabotagem.

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Beijos,
MayB