20 de maio de 2012

Virada da Maré

Como eu falei no meu último post não referente à perguntas, dia 17 foi meu aniversário. Completei 24 anos. E como primeiro aniversário da Mayra, carregava uma dose saudável de expectativas e medos. Posso dizer agora: das expectativas, todas se cumpriram. Dos medos, nenhum. E de quebra, surpresas positivas e gostosas.

Antes de começar o post quero fazer um esclarecimento: a menina que estou namorando não é a Janaína, que eu namorava antes. Jana agora é minha irmã, amiga, companheira e sempre teremos uma relação muito especial e importante para ambas, mas não como amantes.



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Almocei com minha mãe. Foi uma coisa bem repentina, ela me ligou durante meu treino na academia e decidi pegar o carro e ir vê-la. Pedimos comida em casa pois eu estava de roupa de academia, toda desarrumada e sem muita vontade de andar na rua. Aliais, roupa de academia em geral não me faz sentir muuuuito bem não, outro dia tive a impressão que as pessoas sabiam claramente que eu era trans pelos seus olhares constantes e a expressão de estranheza estampada ao rosto. Mas enfim... ficamos por lá, pedimos um crepe muito gostoso de um restaurante pelo qual eu não dava nada antes e batemos um papinho. Ah, e brinquei com os gatos dela, sem dúvida.

Nao sei se já falei isso, aqui, mas quando eu morava com ela tínhamos uma média de 8 a 12 bichanos habitando o apartamento. Chegamos a bater o recorde de 20 quando, uma vez, pegamos uma ninhada (a mãe com seis filhotes) e ao mesmo tempo havíamos feito um resgate de quatro gatos em outro lugar. Porque essa quantidade toda? Porque a gente catava bixos abandonados em igrejas, calçadas, no aterro do flamengo, animais atropelados, espancados e o caramba e dávamos um lar temporário até encontrarmos um dono. E as vezes isso podia demorar. Em algumas vezes, inclusive, nunca encontramos, e eles passavam a morar com a gente definitivamente, como alguns que já pegamos que não tinham um dos olhos.

Houve o caso de uma filhote suja e mal alimentada que eu comprei por 15 reais na rua Siqueira Campos, em Copacabana, de um sujeito que eu deveria na verdade é ter quebrado os poucos dentes ridículos que ele tinha na boca. Ou de uma outra que morava debaixo de um banco de concreto na Avenida Atlântica e algumas pessoas evoluídas gostavam de brincar de enfiar pedaços de pau debaixo do banco para feri-la. Essa deu trabalho. Minha mãe trancou-a no quarto de empregada da casa porque ela era selvagem e agressiva ao ponto de conseguir escalar a parede de tijolos até o teto com suas garras. Nos primeiros dias se jogava como um tronco de árvore contra a porta em uma tentativa animalesca de derrubá-la. Alguns meses depois já dormia conosco em nossas camas e gostava de fuçar nosso cabelo quando estávamos deitadas no sofá vendo tv, mordendo os cachos e massageando o couro cabeludo com as patinhas. Temos casos também de gatos deixados à sua própria sorte no terreno da Igreja da Glória, onde já encontramos diversos animais que antes alimentavamos e cuidavamos, mortos à pedradas e outras coisas divertidas assim. Pois é. Enfim.

No fim das contas os animais também foram um dos motivos pelos quais me mudei da casa de minha mãe. Eu queria fornecer um ambiente mais agradável para a Jana quando ela ia na minha casa, e os gatos bem ou mal sujam a casa e requerem cuidado constante, e minha mãe trabalhava fora o dia todo. Mas eu sinto grande falta da convivência com eles, e aproveito todas as minhas visitas para brincar bastante, coçar, fazê-los perseguir fiapos e bolinhas e apertar alguns deles. Aqui umas fotos da páscoa do ano passado:

 
 Só faça isso com gatos que você tenha intimidade...
é um convite perfeito à uma unhada no olho, caso contrário


Esses são o Alex e a Rafaela. Ele não tem um olho, ela tem o rabo quebrado
São dois dos gatos mais brincalhões e carinhosos da casa
 
  
 Essa ficou bem gay, eu tinha a maior vergonha dela antes
Agora, dane-se né =P
 
 
Ao imobilizar um gato segurando-o pela nuca, forneça suporte em baixo
Ele não pode se mexer mas sente dor se ficar pendurado
 
E no final da visita de quinta ela me apresentou, sem vergonha nenhuma, para uma amiga que sabia que eu era o Marcelo antes. Excelente sinal, na minha opinião. Havia me comprado uma blusinha linda também, mas não ficou bem no meu corpo. Mãe, você tem peitão. Eu ainda não, ta? Hhaehhaehhae. E antes de ir embora recebi uma mensagem super suspeita da namorada perguntando se eu estava em casa. Eu disse que não, mas pensei... "que isso tem a ver com alguma coisa?" Bom, descubra agora:



Pois é. Cara, quando cheguei em casa e vi aquilo em cima da mesa, sentei abobada. Li o cartãozinho que acompanhava e passei uns 15 minutos afagando os presentes lá sem querer fazer mais nada. Minha avó, curiosa, veio conversar sobre os presentes. Ela certamente sentiu toda a felicidade que transbordava do meu olhar e da minha voz naquele momento. E com certeza essa menina já ganhou uns 500 pontos aqui em casa antes mesmo de dar as caras xD Te adoro muito, pequena =)


 
Essa foto foi na quinta mesmo, logo depois de receber a surpresinha
 

Essa foi no sábado, depois de desabrocharem mais um pouco. Ficaram lindas =)
  
Para completar o dia, reunião de amigos no Outback do Plaza Shopping em botafogo. Mas como eu sou retardada, as únicas fotos do momento estão sem flash. Boa sorte identificando alguém =/

 
 
No fim da noite
 
 
Look escolhido
  
Essa parte da comemoração no final teve vários momentos interessantes e gostosos. Antes de todo mundo chegar, minha amiga ficou ajeitando minha maquiagem no banheiro. Isso é um momento puramente feminino e delicado e trás à tona, à obviedade, o quanto eu conquistei nesses últimos meses. Depois, enquanto aguardávamos a chegada dos outros amigos à frente do restaurante, tive a sensação clara de estar agradando boa parcela dos olhares ali em volta. Afinal, eu estava com o vestido roxo curto que lhes mostrei em um dos posts de agradecimento à doações combinado com meu salto preto, então o objetivo era esse mesmo. Me fez sentir mulher, nesse momento, como objeto de desejo. E ao chegar de meus amigos, esse menino que esta acompanhado da namorada me fez sentir não só menina, mas amparada de forma geral com seu abraço, um beijo no rosto e palavras de muito carinho. Thiaguinho, também estou super feliz de ver voce assim realizado com essa menina, e adorei a sua presença.

Claro, adorei a presença de todos vocês... do Daniel e da Thalita, pessoas que me acompanharam da infância à adolescencia e agora reaparecem com mais intensidade em minha vida, do Leo, que sempre foi um dos meus melhores amigos e uma das poucas pessoas que sabia da minha disforia de gênero muito antes de eu decidir fazer qualquer coisa sobre ela (e indireto responsável por iniciar ao processo me apresentando meu atual psicólogo), e da Natalia e sua prima Daniele, aquela uma menina que praticamente me adotou como irmã, e essa uma alma divertida e boa que eu adorei conhecer.

Há outras pessoas que não estavam presentes simplesmente pelo meu medo de nao conseguir dar atenção à grupos diferentes. Isso inclui amigos de longa data inclusive da faculdade, e pessoas lindas que conheci muito recentemente. No ano que vem eu juro que junto bem mais gente. Mas nesse ano, com todos os receios que eu tive... essa reunião só aconteceu, na verdade, porque Jana e Natalia perturbaram continuamente que era uma data que eu devia reunir gente, sair, juntar um grupo. Entao vamos com calma que o Brasil é nosso, né? xD

Resumindo: muito carinho, atenção, cuidado, brincadeiras, risos, palhaçadas, amor, realização, conquista... acho que é isso que vem na minha cabeça sobre esse dia. "União", eu diria, se tivesse que usar uma palavra só. Muito, muito obrigada a todos.

Beijo grande,

Mayra