4 de maio de 2012

Memórias da Infância: O Que Não Nos Mata nos Deixa... Malucas.

Antes de falar eu gostaria de mostrar a vocês o documentário que vi postado por uma amiga no Facebook, que me fez pensar nas cosas que direi.


Ele é longo, dura quase 40 minutos, mas acho que para quem se interessa pelo assunto pode ser bastante recompensador, pois mostra as felicidades e dificuldades de crianças pequenas fazendo sua transição com o apoio dos pais.



Bom, você assistindo ou não, eu vi até o final da segunda parte, e lembrei de algumas coisas a falar da minha infância. O que me lembrou desses assuntos foi uma parte sobre a segunda criança, Riley, onde a mãe conta que ela rezava a Deus antes de dormir que acordasse em um corpo diferente. Imediatamente eu pensei: Cara... eu fazia isso. Eu esqueci completamente, mas eu fiz isso durante meses, anos. Foi a ultima época da minha vida em que rezei, pra falar a verdade, simplesmente porque eu fiquei puta da vida com Deus depois por ter continuado no mesmo corpo de sempre. Na verdade, acho que foi isso que me tornou agnóstica. Bom, isso me fez lembrar uma série de coisas da minha infância, e falarei sobre elas aqui. Elas não seguirão necessariamente uma ordem cronológica porque as memórias são confusas.

Eu lembro de um dia entre a pré-adolescência e a puberdade, não sei exatamente a idade. Eu olhei para os meus peitos e os vi começar a crescer. Eu pensei na hora que meus desejos estavam se realizando, porque eu ficava anteriormente na frente do espelho puxando-os pra frente, esperando que um mamilo ficasse mais pontudinho e começasse a crescer por livre e espontânea... pressão. Ao mesmo tempo pensei: "Ferrou. Agora as pessoas irão me ver como um bicho, como um monstro. Elas sabem que sou menino, não vai adiantar, não quero ser esse meio-a-meio". Eu não conhecia o termo na época, mas agora sei que o que eu tinha medo era de ser transgênero, de ser biologicamente meio menino e meio menina. Bom, o que eu fiz nesse dia foi pegar um daqueles martelinhos de amassar carne, que eu lembro de ficar puta da vida ouvindo minha mãe batendo TOC, TOC, TOC na cozinha, que ficava bem próxima ao meu quarto, e comecei a bater nos peitos. Eu não estava ganhando seios, isso pra mim é óbvio agora. Eu provavelmente estava engordando um pouquinho, ou os músculos estavam começando a se formar. Mas o medo foi grande, e eu bati nos peitos durante algumas horas. No fim da historia, obviamente ganhei as marcas dos quadradinhos do martelo nos peitos, e tive que usar blusa quando minha mãe chegou em casa do trabalho. Algo que eu nunca fazia. Enfim, me convenci de que havia parado o crescimento deles e não voltei a fazer isso.

Outra coisa que me lembro é essa questão da reza. Quando eu era mais nova ia dormir muitas vezes com essa mentalização, com essa coisa de falar com Deus e perguntar o que que ele estava esperando para mudar tudo.  Fui ficando mais velha e substitui isso por uma fantasia mais elaborada. Para quem conhece o personagem Wolverine, da Marvel, a edição sobre o aparecimento de seus poderes e suas garras mostra o corpo dele todo se rebelando, se debatendo, jorrando sangue pelas mãos enquanto seus músculos espasmavam e ele se revelava finalmente um mutante. Passei a imaginar isso: que em uma situação de stress ou violência extrema meu corpo poderia reagir dessa forma. Imaginava isso infinitamente.

Crises de pânico: tive isso também. Principalmente ao andar na rua. Eu tinha a impressão que todos estavam me olhando, de todos os cantos, rindo de mim, cochichando sobre mim, fazendo piadas entre si. Isso me deixava sem ar, me fazia tropeçar, andar toda esquisita. Os momentos mais complicados eram quando eu ia e voltava do colégio, pois carregava sempre uma mochila bastante pesada e me sentia ainda mais ridícula. Cheguei a ir em cardiologistas e alergologistas para verificar a saúde do meu sistema circulatório e respiratório, porque era a falta de ar e as taquicardias que me chamavam atenção. Por causa disso inclusive encontrei um médico que, toda consulta, ficava me falando da vida dele quando criança em um campo de concentração durante mais de meia hora. Me desculpe a sinceridade senhor médico, mas eu não estava lhe pagando pra isso, eu tinha meus próprios problemas e foi um saco ficar lhe ouvindo.

Lembro também das pesquisas. Ficava tempos infindos no PC navegando na internet lendo sobre isso. Logo cedo, lá pelos 15 anos, aprendi a palavra "transgênero" e comecei a me entender. Como a conexão na época era discada e as maquinas disponíveis para nossa capacidade financeira, um lixo, eu ficava navegando entre a meia noite e às seis da manha durante a semana, nos sábados após as duas da tarde, e no domingo. No final de semana a internet se apresentava ainda mais lenta, por isso era comum ir dormir à uma ou duas da manha para navegar um pouquinho durante os dias úteis.

E as revelações para parentes? Complicado. Mais ou menos nos mesmos 15 anos eu revelei à minha mãe em uma das crises de depressão: uma das várias onde eu socava as coisas dentro do quarto, a parede do banheiro durante o banho, ficava dias sem falar com ninguém. A resposta? "Isso é coisa da sua cabeça." "Você precisa ir trabalhar, ter o que fazer." "Eu fiz duas faculdades e trabalhei ao mesmo tempo, não tinha tempo de pensar essas besteiras." Tipo... sério? Dane-se, você fez duas faculdades e nunca trabalhou em nenhum das duas. Ainda por cima eram privadas, então jogou enormidades de dinheiro fora. E nunca me deu um suporte para realizar minha transição. Depois que decidi ainda passou meses tentando me convencer que "não via feminilidade em mim". Isso fala mais sobre você do que sobre mim, e mau. Essas coisas eu nunca vou esquecer. Tudo bem, quando estava de cirurgia marcada em São  Paulo você quis me acompanhar, quis me ajudar financeiramente, e respeito isso. Tem me tratado super bem agora, inclusive me chamando de filha em publico, também sou agradecida por isso. Mas nunca ter levantado um dedo pra me ajudar na adolescência, deixar comigo toda a responsabilidade de pesquisar, entender, me decidir e ainda ter que lhe enfrentar para fazer isso...?

Solidão. Comum. Vocês conhecem RPG de mesa? Consiste em dois ou mais participantes escrevendo uma história juntos, interativamente. Funciona assim: um se chama mestre e descreve os cenários e situações pelos quais os personagens, controlados pelos demais jogadores, passarão. Esses jogadores, por sua vez, descrevem todas as ações de seus personagens, como eles enfrentarão as situações. E a graça é interpretar personagens diametralmente opostos a ti: Interpretar uma pessoa impulsiva, quando você é calmo na vida real, e tomar decisões, dentro do jogo, apressadas e descuidadas. Ou o contrário. Pode ser muito divertido. Mas é sempre jogado com pelo menos duas pessoas, no máximo seis. Eu já joguei em grupo sim. Mas jogava muito sozinha também, comigo mesmo em casa. Lembro de um dia ter vários dados e fichas de personagens espalhadas pela sala e perguntar à minha mãe: "Mãe, é normal a gente imaginar que tem amigos?"... Não lembro da resposta dela, mas o ponto era a pergunta.

Escapismo: As pessoas que compartilharam histórias de jogos virtuais comigo sabem: quantas inúmeras vezes eu criei personagens femininos, delicados, sensíveis, em jogos de computador, e passava as vezes 10, 12, 14, 16 horas por dia jogando e interpretando ela? Segue os mesmos princípios do RPG de mesa, mas a interação era pela internet.

Como último elemento de sofrimento, as ideias de suicídio. Sempre tive uma obsessão por armas de fogo, fiquei puta da vida quando dificultaram a burocracia de sua compra. Parte era pra me proteger, assim como o foi a academia e as armas brancas que comprei ao longo do tempo. Mas parte... era a possibilidade de poder terminar com a minha vida no momento que fosse, na hora que quisesse, sem dor. Ao vislumbrar a impossibilidade disso comecei a comprar as armas brancas. Sempre tive, no entanto, um problema sério com a ideia da dor, do sangramento e da demora que seria para morrer. A terceira opção era a queda, e isso se tornou constante nesse meu novo apartamento, sem redes de proteção para animais e no décimo segundo andar. Passei algumas noites frias olhando para baixo, na varanda, imaginando como seria o angulo da queda e a aparência após o impacto.

Não, minha infância e juventude não foram só infelicidade, houve momentos incríveis e experiencias fantásticas. Essas eu conto em um próximo post. Mas a questão é: agora a minha vida é só felicidade e diversão, apesar de uma gotinha de solidão. Mas o buraco já foi bem mais em baixo.

E pra finalizar, fotinhas minhas de lá pra cá:


Excursão do colégio. Uma das poucas que eu juntei coragem pra ir, foi o máximo. Mais ou menos 14 anos.
 
 
Galera do fundo da sala. Fazer barulho e atrapalhar a aula era fichinha... o negócio era enfiar tesoura na tomada e derrubar a luz do prédio inteiro. Mais ou menos 16 anos.
 
 
Casamento do meu querido amigo Raphael. Foi linda a festa, e desejo toda a felicidade do mundo para os dois. Isso foi ano passado, 2011.

Beijos,
MayB