18 de março de 2012

Encruzilhada


Nossas vidas são feitas principalmente de dois ingredientes: escolhas e influencias externas. Isto porque somos primordialmente criaturas racionais e sociais.

No entanto, uma das coisas mais difíceis de ser aprendida é a aceitação de conseqüências. Por exemplo, a religião e a hierarquia militar foram usadas infinitamente pela história para justificar ações, comportamentos e decisões simplesmente porque o humano tem um bloqueio em olhar para as coisas que ocorrem em sua vida e dizer: isso foi culpa minha.

E isso é bastante evidente na vida de uma transexual. Quando uma pessoa se vê na situação profunda de escolher seu próprio gênero fica difícil escapar da verdade: nossos atos não são inconseqüentes. E nós temos que ser capazes de viver com tudo que decorrer deles.

Eu sinto falta de ser forte, por exemplo. Sinto falta de poder carregar minha menina no colo, de empurrar coisas pesadas sem pensar duas vezes. Sinto falta da minha aparência impositiva. E acho que vou, por vezes, sentir falta de não ter que me preocupar muito com a minha aparência.

A feminilidade trás consigo a fraqueza muscular, as necessidades da maquiagem, da preocupação com a combinação de roupas, com o comportamento... com a voz. Trás a TPM e todas as incongruências emocionais que a constituem. Trás consigo o sublime... e o complexo. Para uma menina normal é fácil curtir as benesses de seu DNA e, quando se irrita, se confunde, ou se entristece sem explicação, jogar um grito aos Céus e dizer que ela não queria aquilo. E eu?

Dizer que não tenho duvidas seria mentira. Dizer que a transição é um mar de rosas seria teatral. Cômico, até.  O que tenho que fazer, no fim das contas, é brincar de Sherlock e seguir as pistas. Eu sei como eu era antes da transição: infeliz, retraída, depressiva... suicida. Eu sei como sou agora: feliz, alegre, simpática... mas temerosa. O problema da vida de Holmes é que ele só podia decifrar as situações depois de ocorridas, e o mesmo acontece comigo. Como serei depois da transição?

O máximo que posso fazer é ter esperança e paciência. Defletir os ataques de dúvidas, tanto os que vêm de minhas próprias reflexões quanto os que se derramam da ignorância alheia. Tentar aprender com cada passo e olhar para meu interior com atenção e racionalidade. E conseguir olhar para trás, daqui há um tempo, ver cada pegada que deixei na areia e poder dizer: isso foi culpa minha. Para o bem ou para o mal.