8 de fevereiro de 2012

Rodando a Baiana

O texto abaixo é um tanto negativo, eu sei. Já estou bem mais leve com isso tudo, já encontrei algumas pessoas que ofereceram forte apoio emocional e prático e estou bem mais leve e esperançosa com relação à tudo. Mas foi o que eu senti no dia, então... lá vai.

08/01/12

Eu nunca liguei lá muito para o que os outros pensam, nem me preocupei tanto com tentativas ignóbeis de ofensas, então imaginei que ia ser mais fácil para mim do que para a maioria das trans se adaptar à sociedade, digamos assim. E realmente, será. O que me leva a pensar na parte mais difícil da transição atualmente que é a covardia de boa parte da minha família  Os poucos membros que sabem ou disseram “é, vai em frente, não vejo problema”, mas nunca realmente ajudaram com nada, ou negam até o fim do mundo que tudo isso seja verdade.

Minha mãe, por exemplo, sempre que eu falava nesse assunto, repetia incessantemente que não via feminilidade em mim. Foi um choque enorme pra ela quando eu contei que passei anos vestindo as roupas dela e brincando de me olhar no espelho, imaginando como eu poderia ser um dia. De lá para cá, como ela não tem nada negativo para dizer, não consegue dizer nada. Mas até ai, sinceramente, dane-se. Metade da minha família nunca conseguiu expressar nenhum tipo de carinho de forma física ou verbal, então só conseguem me ajudar com as coisas que precisam de dinheiro. Parte na qual, admito, fizeram bem. Nunca fui cheia das mimadisses, mas tenho um PC de ponta, móveis de boa qualidade no meu quarto, meu ensino fundamental e médio foram em escolas particulares, essas coisas...

A questão é que agora eu preciso da ajuda financeira deles de novo, mas está complicado. Aceitaram pagar meu psicólogo sem problemas... mas foi mais para “tentar tirar isso da minha cabeça” do que me ajudar mesmo. Eu sei disso porque agora peço a FFS, a cirurgia facial, e estão empurrando mais com a barriga do que político empurra obra. Parece que esperam que eu desista até o ultimo segundo. Negam quando eu digo que meus mamilos ja me impedem de usar certas camisas muito levinhas, pois aparecem, e me chamam de maluca quando digo que semana que vem vou comprar alguns sutiãs sem alça, para usar debaixo da blusa, para não aparecer. E a cirurgia? Cada vez que falo no assunto, desconversam ou ficam calados. É um inferno ter um círculo de pessoas em volta que não consegue encarar o problema de frente.

Bom, eu não deveria estar surpresa, na verdade. Nunca me enxergaram direito... nunca fiquei íntima de parente nenhum, quase nunca ouço um “eu te amo” de ninguém, à exceção de uma tia e da minha mãe, nunca acompanharam o que acontecia na minha vida. Mas agora, quando eu tenho capacidade intelectual para fazer as coisas sozinha, tomar as decisões sozinha, de repente todo mundo tem uma opinião a respeito.

A essa altura do campeonato eu já aprendi a ser independente, a me virar em muitas coisas sozinha. Mas o preço de um procedimento desse é exorbitante, mesmo juntando dinheiro de salário, pensão, eu levaria anos para fazer isso. Eu sei que o dinheiro existe aqui, o problema não é esse. Se falassem "não concordamos e não vamos ajudar" eu pelo menos entenderia. Mas não saber qual a posição de cada um, qual o futuro disso tudo, e o meu, é infinitamente angustiante. Bom, pelo menos por enquanto eu tenho chance, né. Acho que deveria estar agradecida por isso.