27 de fevereiro de 2012

Ponto de Vista de Terceiros - Primeira Parte, Amigos

Dizem que opiniões são como bumbuns... cada um tem o seu e escolhe o que faz com ele.

Pensando nisso, e inspirada pelo comentário da leitora "Luiza P.", resolvi reunir idéias e pensamentos de amigos e parentes que já sabem da transição. Positivos, negativos, surpresos, calmos, felizes... tudo. Interessada em saber como as OUTRAS pessoas vêem, e reagem, a esse assunto? Então continue lendo.

O primeiro parágrafo foi escrito por um amigo, de outro estado, que eu conheci pela internet junto com um grupo de pessoas (grande), quando eu tinha lá pelos 14, 15, 16 anos. Ficamos muitos anos sem nos falar, e refizemos contato só muito recentemente. Ele é uma pessoa muito doce, inteligente e sábia, então o comentário dele é um dos mais iluminados. Ah sim, e como é facilmente perceptível... ele é do sul:

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"Quando tu me falaste que irias mudar de sexo, eu me choquei e pensei que era alguma loucura temporária. Não é todo o dia que tu ouves alguém falando que quer trocar de sexo. Minhas dúvidas vieram de todas as esferas da tua vida. E tua namorada? E tua família? E teus amigos? Depois que eu dormi com o assunto na cabeça e a poeira baixou, eu enviei um e-mail deixando claro o que eu já havia deixado anteriormente: minha aliança nessa guerra de opiniões é entre eu e tu. Os outros não importam. Seja menino ou menina, tu é uma pessoa linda que merece apoio, amizade e defesa nesse mundo injusto que nos força a sermos quem nascemos, e não quem queremos ser."

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Essa frase é de um amigo que conheci na faculdade. Uma pessoa muito especial, mas tivemos contato breve. Apesar de bastante iluminado ele - para minha surpresa - não parece conseguir enxergar direito o transexualismo. A frase a seguir demonstra, ambiguamente, a opinião dele: ele acha possível que na verdade eu seja um menino gay que está fazendo isso para "se permitir" relacionamentos com homens. Not.

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"O medo que a sociedade pode criar, com seus arquétipos e esteriótipos, bem como suas imposições e obrigações, podem fazer com o que é belo e simples torne-se complexo e trágico."

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O próximo é de um amigo de anos, mas que eu tenho estado um pouco afastada. Ele... não tem muito tato com meninas, e eu sou uma pessoa extremamente sensível, então me incomodava um pouco. Na verdade, não tem nada a ver com os "apelidos" que temos um para o outro, que ele menciona no texto, isso não me incomoda. Os problemas são outros e não vem ao caso =P Tenho certeza que logo logo a gente se ajeita e volta a sair.

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A primeiro coisa que eu pensei depois que meu amigo me contou seu plano foi: " Ferrou, não posso mais chamar esse cara de vadia, aliás será que eu ainda posso chamar de cara?". Por mais que depois de muitos anos de amizade eu possa usar qualquer apelido, vai ser muito estranho achar um que não seja ofensivo nem forçadamente neutro. Quanto a minha aprovação ou não da decisão dele/dela, (percebe minha dificuldade?) é algo irrelevante se isso faz ele/ela (Diabos! Em qual momento para de ser ele e passa a ser ela?) feliz, quem sou eu pra opinar?

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O ultimo é, de forma bastante simples, do meu melhor amigo. Nos conhecemos tínhamos... dez anos, eu acho. E nos falamos constantemente sempre. Estivemos um pouquinho mais afastados logo depois do colégio, mas hoje em dia estamos sempre saindo pra comer em algum lugar e filosofar sobre todos os aspectos da vida - adoro isso, auto reflexão e troca de exposições. Ele é um rapaz que tem todo meu respeito e carinho.

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A tarefa de escrever isto aqui me fez refletir um pouco, e me veio à cabeça que a sua transição não consiste, afinal, numa transformação, mas numa mudança. Quando você me disse, ano passado, sobre sua decisão, a sensação que tive foi de que ela não tinha sido súbita e, muito menos, estranha a ti. Pelo contrário, senti que ela - a transição - tinha uma coerência incrível contigo. Como fosse a culminação de um parto lento e doloroso que demorou toda uma vida, e que no entanto, por todo esse tempo, nunca foi claro e, mesmo sendo, nunca se deixou ser. Às vezes, não sabermos bem o que somos pode tomar um peso dificilmente suportável. E no entanto é só aí, nesse momento de fratura, que entendemos que não há nada, nenhum natureza que nos determine. A sua decisão desafia o que arrogantemente pretendemos ser a natureza (e o que esta implica em dizer o que é um sexo ou gênero). A sua transição nos faz lembrar, e mais que isso, insiste em nos ensinar que o desejo e a felicidade não estão atrelados a alguma natureza fixa e imutável (é isto que faz tantos serem intolerantes aos outros). Pelo contrário: todos nós, nessa travessia que convencionamos a chamar de vida, só podemos encontrar, por nós mesmos e de maneira singular para cada um, um meio de viver, um meio de amar, um meio de ser e de estar no mundo. Fecho com um dizer do Guimarães Rosa, na sua obra máxima: 'O senhor... mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão'.

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Encerro esse post por aqui. O próximo mostrará a reação de alguns parentes - e da minha menina linda que eu espero pode amar para sempre =)

Beijos,
MayB